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Yuri Moraes fala sobre sua relação com o punk rocker GG Allin, que inspirou o personagem GG, protagonista de TERRA DO DEMÔNIO

Por Yuri Moraes *

É estranho pensar por que eu fiz um personagem inspirado no GG Allin. É bem difícil se identificar ou se ver em alguém como ele, mas “estranho” e “difícil” são palavras que nem sempre têm uma conotação negativa no meu universo particular.

Não me lembro exatamente quando tive o meu primeiro contato com essa figura um tanto grotesca do punk rock, mas acredito que foi durante o colegial. Tenho uma memória afetiva de compartilhar GG Allin e Gwar com o meu melhor amigo desde essa época, o Cauê. Acho que, primordialmente, o lado cômico das performances era o que mais me chamava atenção. Por um lado, é natural você sentir um desprezo por um ser humano que faz shows todo sujo de merda e sangue, exibindo seu micropênis. Por outro lado, sinto uma grande inveja da liberdade que ele parecia ter. Passava a impressão de não ter nenhuma responsabilidade na vida, e isso é fascinante.

No fundo dos meus pensamentos, sempre andei na rua querendo esmurrar a cara da maioria dos desconhecidos com quem faço contato visual, e o GG realmente fazia isso quando sentia vontade, fosse “profissionalmente” ou não. E o mais louco era que as pessoas ao redor dele relevavam esse tipo de comportamento. Quão libertador é isso?

GG Allin em ação

Recentemente terminei de ler um livro do roadie dos Murder Junkies, a banda que ele liderou no início dos anos 1990,e quando percebi que o GG Allin morreu com 36 anos, sem nenhum “planejamento”, vivendo a vida que ele queria levar, com apenas quatro a mais que eu, senti uma inveja meio mórbida. Lembre-se que estamos falando sobre um homem que atirava suas próprias fezes no público e esmurrava garotas.

Apesar de gostar bastante de punk rock, nunca me impressionei muito com suas  músicas. Gosto do início da carreira, acompanhado do The Jabbers. Acho músicas como “Bored to Death” e “Beat, Beat” realmente boas, mas o foco no GG Allin nunca foi a música. Ele criava um espetáculo que era muito mais próximo de uma performance artística. Ao entrar em um de seus shows, você estava ciente que poderia se machucar fisicamente ou, pior, ter contato com seus excrementos. As pessoas sabiam que o show iria ter coisas assim, mas, mesmo assim, pagavam para entrar. Quão insano é isso?

Ele se intitulava “O Salvador” e dizia que sua missão era “resgatar a juventude americana do conformismo e do tédio”. E a maneira de fazer isso? Rolando em cacos de vidro e jogando sua própria merda no público. GG morreu tentando deixar o Rock And Roll perigoso novamente. Numa análise fria, é absurdo, e até mesmo imbecil, mas de alguma maneira, isso fazia sentido ou inspirava outras pessoas.

O GG de TERRA DO DEMÔNIO

Acho que toda a arte que valha algo não é segura e está nessa linha tênue entre imbecil e brilhante. É fácil dizer que qualquer um pode cagar no palco e jogar merda nos outros, masquem no rock fez algo assim em um nível tão radical antes dele? E… qualquer um pode, realmente? eu acho que não. O meu amigo Cauê dizia que se tem alguém que realmente personifica o que é ser um rei do rock and roll, esse cara é o GG. É engraçado pensar décadas depois, o rock and roll morreu justamente por ter se tornado absolutamente inofensivo.

É óbvio que eu não “concordo” com tudo que ele fazia. Ele era claramente um sociopata violento com um complexo de messias bem maluco. Mas concordar nunca foi o ponto. Eu acho que a sinceridade e a autenticidade têm um valor muito maior do que o meu consentimento ao admirar ou me sentir atraído por qualquer tipo de arte. Eu acho estranho o quanto a sociedade tem fechado os olhos e os ouvidos para tudo que não condiz com o estilo ou opinião pessoal de quem consome. As pessoas se interessam cada vez menos por expressões, reações e opiniões genuínas e procuram cada vez mais um espelho. Um espelho que diz exatamente o que você quer ouvir e mostre que que você é maravilhoso e que tudo no mundo é do jeito que você vê.

Eu sinto que o GG Allin adorava despedaçar esses espelhos.

Acho que no fundo eu adoro despedaçar espelhos também.

*Yuri Moraes é autor de TERRA DO DEMÔNIO

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