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De como São João Batista era um sujeito chato pra cacete

Por Rafa Campos Rocha *

 

– E quando vocês simplesmente brotaram da água? Quantos desmaiaram? Uns cinco, não é?

– Duas mulheres e um ricaço, João, já conversamos sobre isso – eu tentava interromper João pela enésima vez, à luz da fogueira – Olha, obrigado pelas roupas e…

–  Eu já falei dos meus planos para vocês, não é mesmo?

A minha ideia tinha funcionado até certo ponto. Brotamos do rio como entidades benéficas e dissemos que aquele homem estava certo em batizar todos. Pantera ainda fez aquele truque com a água, que se abriu em volta de nós dois. Sem contar que o próprio Pantera já é uma verdadeira aparição vestido, o que dizer nu.

Houve uma histeria inicial e alguns desmaios. Mas os presentes julgaram que tínhamos sido evocados por João Batista e que precisávamos de roupas – insinuação minha, é claro – para habitar entre os mortais. O único rico presente com roupas que serviriam em Pantera desfez-se de seus bens e saiu correndo nu, pela planície, em êxtase algo mais que religioso. Eu fiquei com a roupa de um marido bem intencionado de uma não-tão-bem-intencionada esposa fiel (ao culto, é claro) de João. Por sinal, essa esposa disse que as crianças dormiriam cedo e apontou a casa grande e bonita onde ela e o marido estariam. Ele só assistiria, mas como eu estava de bom humor, talvez o deixasse participar.

Olhei melancólico para a casa e depois para João, que falava há dezesseis voltas da ampulheta sem parar, contente por ter companhia sobrenatural para o seu desvario. Pantera, como sempre, se divertia muito, e interrogava João sobre os detalhes de sua doutrina.

– Gostei dele. Estou pensando em transformá-lo e matar você – disse em meu ouvido, sorrindo.

– Por favor, faça isso agora. Não aguento mais uma hora com esse homem – sussurrei de volta, sempre olhando para a varanda de promessas, duas quadras adiante.

Para o meu azar, Pantera achou por bem não me assassinar. Um erro que ele iria pagar com a vida, como o leitor vai perceber, em alguns versículos. João continuou por mais uma hora com suas divagações a respeito da necessidade de sacrifício, da ascese, da pureza original e todo o tipo de pataquada que alguns de vocês ousaram colocar em meus doces lábios, nos séculos que viriam.

De todas essas estultices idealistas e repressoras, a necessidade do sacrifício é a que mais revolta. O sacrifício pessoal é errado, ponto. Não deve ser um sacrifício cuidar dos próprios filhos, a não ser que eles sejam um sacrifício de sangue para uma ou outra seita, que conheci pelas minhas andanças. Mesmo assim não recomendo. O trabalho não deveria ser um sacrifício, e a religião deveria ser, pelo contrário, um alívio. Mas o que mais me revolta são as pessoas que dizem que se sacrificaram pelo casamento –Como é possível? – e essa, então, é hilária: se sacrificaram pelos filhos.

“Mas e os pequeninos? E o Reino dos Céus”? Bom, em primeiro lugar, crianças para mim nem cozidas em fogo baixo, com orégano, folha de louro, pimenta vermelha, dois dentes de alho, manjericão e sal marinho a gosto. Precisa de pelo menos oito horas de panela e, por mais que os filhos dos ricos não tenham músculos e acumulem gordura extra nas pernas e barriga – que derretida acrescenta um gosto especial à carne – não vale o esforço e os ossos não são assim tão fáceis de se esconder.

Em segundo lugar, a coisa mais próxima que eu conheci do Reino dos Céus foi a cidade das Harpias, que ficava realmente em um lugar bem alto, sustentada por enormes imãs que atuavam em força contrária ao núcleo da Terra. E a cidade das Harpias só pode ser agradável para as Harpias, com aquelas vozes estridentes e aqueles intermináveis espetáculos de Heavy Metal melódico.

Mas onde eu estava? Ah, sim, em como o sacrifício e a transcendência são embustes reacionários destinados a manter a população ignara no cabresto e em como eu iria demorar ainda uma hora e meia para pular – com relativa facilidade, é claro – a balaustrada da minha casada prometida.

Mas pulei e forniquei a noite inteira, assistido, muitas vezes mais do que com os olhos, pelo marido inebriado. O único incidente infeliz foi ejacular, a pedidos, na boca do pobre homem, que, ignorante como eu da fisiologia vampírica, acabou sendo pulverizado pela rajada fotônica que, percebi no momento, havia substituído para sempre o meu esperma.

Por sorte, os restos de um homem pulverizado por uma rajada fotônica são bem mais fáceis de esconder do que os ossos de crianças

 

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* Rafa Campos Rocha é autor de Lobas e Deus aos Domingos

 

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