Orfeu Negro e os quadrinhos | Editora Veneta
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Marcello Quintanilha escreve sobre a influência do filme Orfeu Negro (1959), de Marcel Camus, em seu trabalho

“Cada vez que via Orfeu Negro pensava: isso daria uma ótima série de história em quadrinhos!”. Nos anos 1970, Gilbert Hernandez era um jovem punk chicano de Los Angeles que gostava de punk rock e de velhos filmes europeus de cineastas como Fellini, Buñuel e Rossellini. E gostava de Orfeu Negro, um filme ítalo-franco-brasileiro dirigido pelo francês Marcel Camus em 1959, baseado na peça teatral Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, que, por sua vez, é uma adaptação da lenda grega de Orfeu e Eurídice. Conta uma história triste de um amor infeliz e se passa em uma favela carioca, durante o Carnaval.

No filme, a atriz norte-americana Marpessa Dawn faz o papel de Eurídice e no papel de Orfeu está o gaúcho Breno Mello, que além de ator foi jogador de futebol e jogou em diversos times, entre eles o Fluminense e o Corinthians. Aliás, quem faz o papel de Morte no filme é o bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva.

Orfeu Negro ganhou a Palma de Ouro (o principal prêmio do festival de Cannes), o Globo de Ouro e o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1960. Teve um impacto muito grande na época. É citado como influência por uma lista bem variada de artistas. Até pelo pintor Jean-Michel Basquiat. E tem a história daquela moça, Ann Dunham, que assistiu ao filme nos Estados Unidos e ficou apaixonada pelo seu exotismo, sua sensualidade, sua musicalidade e seu protagonista, o ator Breno Mello. Logo depois, Dunham foi o Havaí onde se apaixonou por um estudante queniano, Barack Hussein Obama Sr. O filho do casal nasceu logo na sequência, em agosto de 1961, e, como se sabe, recebeu o nome do pai.

A influência de Orfeu Negro se espalha pela cultura contemporânea talvez até pela história política dos Estados Unidos. E também pelos quadrinhos, como mostram o Gilbert Hernandez (o que é que fez um punk de Los Angeles invocar com um filme famoso pela trilha sonora de Tom Jobim?) e o Marcello Quintanilha. E ele mesmo explica:

RUÍDO, MUITO RUÍDO

Por Marcello Quintanilha*

A passagem de Orfeu — Breno Mello — pelo bairro Niterói, na cidade de Canoas, Rio Grande do Sul, enquanto defendia a camisa do extinto G. E. Renner, pressagiava que a cidade fluminense homônima do bairro gaúcho estaria intimamente ligada ao destino de Eurídice, porque sempre tive dificuldade em ignorar a possibilidade de que a ninfa tenha topado com a Morte — interpretada por Adhemar Ferreira da Silva — justamente em Niterói. Ou que, ao menos, tenha utilizado a estação das barcas na Praça Martim Afonso (atual Arariboia) como rota de fuga para cruzar a Baía da Guanabara, meses antes de que o levante popular ali deflagrado em decorrência da greve dos marítimos e da ineficiência das forças armadas provisoriamente encarregadas de administrar as viagens entre Rio e Niterói, resultasse na morte de meia dúzia de pessoas e depredação do antigo edifício da estação e suas embarcações, além de conduzir à estatização do serviço de transporte hidroviário, até então à cargo da Grupo (familiar) Carreteiro.

Dois anos depois ocorreria, não muito longe dali, o trágico incêndio criminoso do Gran Circo Norte Americano, com um saldo de mais de quinhentos mortos e oitocentos e tantos feridos.

 

Eurídice sempre teve know-how em arrastar a catástrofe a reboque.

Ao juntar-se a outros atletas que migraram das competições para o celulóide em sua época, como Kubala e Alfredo Di Stefano, Breno e Adhemar integraram o mesmo rol de vultos da estatura de Cartola, dona Zica ou um magnânimo Tião Macalé — prestes a pulverizar calouros ao lado de Ari Barroso no Show do Gongo, da TV Rio — estes últimos dispersos na película em discretas mas shakespearianamente inesquecíveis participações especiais. Alguns dos tantos personagens chave na concepção de uma ideia de Rio de Janeiro que se estendeu ao redor do mundo desde que o contingente egresso da guerra de Canudos, sem o apoio prometido pelo governo para que derramassem o sangue de seus compatriotas, ergueu alojamentos improvisados no Morro da Providência, batizando-se o novo povoamento com o designativo do arbusto que dava nome ao famoso morro do teatro de operações no sertão — favela.

O que mais me absorveu na primeira vez em que assisti ao filme de Marcel Camus foi a oscilação diegética / extradiegética de seu continuum musical, que rivalizava em decibéis até mesmo com a interpretação do tema Manhã de Carnaval, furtando clareza absoluta à audição da canção de Luiz Bonfá e Antônio Maria, impondo-lhe a crueza do tempo narrativo.

Este seguramente é um dos principais aspectos que me fazem dissociar a obra da proposta de expressão alegórica, uma vez que Vinicius de Moraes estabelecera a versão definitiva do mito grego cinco anos antes, no teatro — o ruído.

Talvez porque seja inerente ao universo ali representado a circunstância de que quanto mais quietude exigimos para absorver paulatinamente a verve pulsante, oleosa, escandalosa e lancinante que compõe o ambiente, mais o ruído, o ruído constante, compassado e repicado, oriundo de si mesmo, insiste em ignorar nosso apelo ao silêncio. É prudente submeter-se a ele, afinal, não nos cabe decidir, é a única forma de aprender a ouvir…

 

Um dos escassos documentos em cores na cinematografia em língua portuguesa da época a registrar espaços, figuras e coisas até hoje presentes no antigo distrito federal, Orfeu Negro sempre foi uma fonte fundamental de referência quanto à recognição iconográfica, porque me atira em cheio num passado que conheci em primeira pessoa, mesmo que através de seus ecos. Um passado que trabalhei para traduzir em forma, para plasmar em linhas, sombras, hachuras, para retê-lo por mais tempo comigo, já que a realidade insistia em fazê-lo escorrer por meus dedos.

Por conta disso nunca me senti alheio ao longa-metragem, porque sua textura untuosa empurra a fábula para a dimensão da realidade pura, subvertendo a premissa mitológica.

Orfeu e Eurídice são, portanto, a verdade mais absoluta, como absoluta é verdade da roça da qual emergiram; não aquilo que se dizia à boca miúda na Grécia.


 

 

*Marcello Quintanilha é autor de Tungstênio, Talco de Vidro e Hinário Nacional

 

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