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Leia trecho do livro 68 – Como incendiar um país, de Maria Teresa Mhereb e Erick Corrêa (org.)

*Por Maria Teresa Mhereb

Cartazes políticos, de informação ou propaganda, existem há bastante tempo, e florescem especialmente em momentos de levantes revolucionários. Para as jornadas de maio-junho de 68 na França, eles adquirem uma importância singular: por sua qualidade, seu modo de criação e produção, sua difusão e seu impacto. São, mesmo para os que conhecem pouco sobre esse evento, parte do imaginário sobre a luta travada naqueles dias. Em maio-junho de 68, cartazes são armas para defender o novo mundo que se anuncia dentro das fábricas, universidades e escolas ocupadas e nas barricadas do Quartier Latin.

Mas a produção gráfica daqueles dias é ampla e nada homogênea…

Até aqui, a leitora e o leitor puderam conhecer alguns dos quadrinhos e cartazes produzidos pelos membros do Conselho pela Manutenção das Ocupações (CMDO). Seus cartazes são inconfundíveis, com os elementos gráficos reduzidos ao mínimo essencial: as maiúsculas brancas sobre o fundo negro trazem palavras de ordem claras, diretas, que ocupam todo o espaço gráfico: “OCUPAÇÃO DAS FÁBRICAS”, “FIM DA SOCIEDADE DE CLASSES”, “TODO O PODER AOS CONSELHOS DE TRABALHADORES”.

Seus quadrinhos, por sua vez, são a realização prática de um método específico: o método do desvio (détournement), que, já presente nos ready-mades de Marcel Duchamp, ganhou definição como tal e alcance político com os situacionistas[1]. O CMDO desviava quadrinhos, veiculados como objetos de consumo de massa, através da subversão dos textos nos balões: os diálogos ordinários entre casais e colegas, as falas de bandidos ou heróis eram substituídas por diálogos de teor político, teórico ou prático, que incluíam muitas vezes protagonistas de fatos que acabam de vir à tona. O resultado é uma nítida incongruência entre imagens e texto que visa à decomposição das narrativas promovidas pela sociedade espetacular (para usar o conceito do situacionista Guy Debord).

O CMDO, como diz em uma de suas tirinhas (incluída na primeira seção desta antologia), entendia o desvio de quadrinhos como “uma nova concepção da práxis revolucionária”, como “forma proletária da expressão gráfica” que “realiza a superação da arte burguesa”. Mas o desvio não ocorria apenas com relação à apropriação do material gráfico e textual. Ele também se dava no modo de produção do material desviado. Produto coletivo, os quadrinhos e cartazes feitos pelo CMDO eram impressos – em tiragens que chegavam a dezenas de milhares de exemplares – por trabalhadores de gráficas ocupadas que desviavam o uso de seu maquinário para fins revolucionários.

Entre a teoria revolucionária e a produção gráfica do CMDO existe, portanto, uma notável coerência.

Já os cartazes apresentados nesta seção – selecionamos quarenta dentre centenas que ocuparam os muros das cidades francesas naqueles dias -, se foram tão amplamente difundidos quanto os produzidos pelo CMDO, são também bastante diferentes deles. Eles são, em boa medida, resultado da influência exercida pelos trabalhos dos construtivistas e suprematistas russos, que foram também verdadeiros mestres da arte do cartaz político, após a Revolução de Outubro de 1917: Rodtchenko, Maiakóvski, Malevitch, Lissitzky, Tatlin…

Muitos deles foram produzidos por alunos da Escola de Belas Artes – cujo panfleto escrito e distribuído em maio, “Para serigrafar cartazes”, pode ser lido aqui -, mas não só: também foram elaborados e impressos em diversos outros ateliês populares, que, depois de inaugurado o da Escola de Belas Artes, se instalaram por toda parte (na Escola de Artes Decorativas, na Escola da Medicina, na Faculdade de Ciências, em faculdades do interior do país…), reunindo estudantes, em sua maioria, mas também trabalhadores. Como os que foram feitos pelo CMDO, eles também são produtos de um trabalho coletivo, e são, por isso mesmo, anônimos ou assinados coletivamente.

Entre as centenas de cartazes produzidos na época pelos ateliês populares, alguns grandes temas são constantes, e estão presentes também entre os que foram selecionados para esta antologia: a repressão policial (personificada pela CRS, a “tropa de choque” francesa), a alienação promovida pelos meios de comunicação, a multidão (às vezes quase sem forma, como uma coletividade irredutível às individualidades; às vezes mostrando rostos, olhos e mãos, como sinal da verdadeira amizade nascida entre os rebeldes), a fábrica (que, em suma, em quase nada mudou), o operário (representando toda a classe trabalhadora) e a união trabalhadores-estudantes. Junto à produção gráfica do CMDO, esses cartazes constituem um retrato do intenso cotidiano daqueles dias.

Em sua maioria, os cartazes desta seção resultam de uma técnica milenar, a serigrafia[2] (também conhecida como silk-screen), método preferido dos construtivistas russos para imprimir suas obras. Não é por acaso que a serigrafia se prestou tão bem à tática de propaganda antes e durante maio-junho de 68. Relativamente simples (sobretudo se comparada a outras formas de impressão artesanais), essa técnica parte do seguinte princípio: tem-se um quadro de madeira ou alumínio (chassi) com um tecido esticado (que já foi tradicionalmente a seda, mas que pode ser o nylon ou o poliéster), em que foi gravado um desenho; a tinta serigráfica passa pelos poros abertos desse tecido (quer dizer, por toda a área que não corresponde ao desenho) e – como um estêncil – o desenho é impresso na superfície escolhida. Gastando pouco com material e sem necessitar de maquinário (embora possa ser executada industrialmente também), a serigrafia permite fazer impressões rapidamente, sobre vários tipos de materiais (tecido, papel, madeira), em qualquer dimensão e formato, com variedade de cores e qualidade de traços.

Com o desenvolvimento da técnica serigráfica nos últimos cinquenta anos, que envolve o maior acesso ao procedimento fotográfico de gravação do desenho na tela, o processo descrito pelo panfleto “Para serigrafar cartazes” tornou-se um tanto ultrapassado em relação à facilidade de sua execução. Mas esse mesmo desenvolvimento técnico em nada alterou esta característica fundamental: a serigrafia permanece sendo um método de impressão de baixo custo, fácil aplicação e alta qualidade de impressão – profundamente adequada para tempos de revolução.

Em 68, os cartazes políticos serigrafados, elaborados e impressos coletivamente, são também fruto de um desvio: os mesmos meios de produção construíram uma linguagem para outro modo e para outras relações de produção.

Quer se trate dos cartazes e quadrinhos produzidos pelo CMDO ou das serigrafias dos ateliês populares, a produção gráfica que invadiu o cotidiano revolucionário francês de maio-junho de 1968 é avessa à estratégia subliminar dos anúncios publicitários capitalistas: em 68, os cartazes e quadrinhos revolucionários dizem exatamente o que querem dizer: entram, diretamente e sem anestésicos, no consciente coletivo.

Aliás, cara leitora e caro leitor, como diz um deles

(e não importa a sua idade)

 SEJA JOVEM E (NUNCA) SE CALE!

 


[1] No primeiro número da revista Internationale Situationniste, de junho de 1958, consta uma seção intitulada “Definições”, em que o método do desvio é apresentado da seguinte maneira: “Abreviação da expressão: desvio de elementos estéticos pré-fabricados. Integração de produções artísticas, atuais ou passadas, em uma construção superior do ambiente. Neste sentido, não pode haver pintura ou música situacionista, mas um uso situacionista desses recursos. Num primeiro sentido, o desvio no interior das antigas esferas culturais é um método de propaganda, que comprova o desgaste e a perda de importância dessas esferas” (In: JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, p. 66. Tradução de Estela dos Santos Abreu).

[2] Uma parcela relativamente pequena deles foi feita com as técnicas da litografia e do offset. A litografia, a que os construtivistas russos também recorreram com frequência, consiste na impressão (em papel, madeira, metal ou outros) de uma imagem desenhada sobre uma base, conhecida como “pedra litográfica”. Depois de gravado o desenho na pedra utilizando materiais gordurosos (lápis, bastão, pasta, etc.), ela é tratada com soluções químicas e água, que fixam as áreas oleosas do desenho sobre sua superfície. A impressão da imagem é obtida por meio de uma prensa litográfica que desliza sobre o papel. Como a serigrafia, a litografia pode ser executada de modo artesanal, sem auxílio de maquinário, porém exige maior conhecimento técnico (para gravar o desenho na pedra). A velocidade com que se imprime com a técnica litográfica também é menor do que com a serigráfica. Maior simplicidade técnica e maior velocidade de impressão explicam a preponderância do uso da serigrafia sobre o da litografia na produção desses cartazes. Já a impressão offset é a mais utilizada no segmento gráfico por favorecer a impressão de grandes tiragens. O texto ou desenho é gravado em uma matriz (feita de metal e sensível à luz), que depois é acoplada à máquina de impressão. O papel corre pela máquina sem precisar de intervenção humana, salvo para alguns ajustes durante o processo. A técnica do offset foi pouco utilizada nos ateliês populares sobretudo porque não se dispunha neles do maquinário necessário.

 


* Maria Teresa Mhereb é coautora de 68 – Como incendiar um país

 

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