• Endereço: Rua Araújo, 124, 1º Andar, São Paulo
  • Tel.: +55 (11) 3211-1233
  • Horário: Seg. à Sex., das 9h-18h.

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Por Rogério de Campos*

 

Era um hotel de luxo, desses que oferecem opções de travesseiros (um deles com pedras de jade). A sala de ginástica era imensa, com vista para os jardins de um templo budista do século VIII. Eu fazia minha corrida, tomava banho, me arrumava e ia tomar café. Lia o jornal, via o noticiário a respeito de uma nova crise com a Coreia do Norte, ou sobre um monge que vivia nas montanhas com um avestruz ou sobre uma ocupação de fábrica em que os operários, mascarados, exibiam seus rifles para ameaçar a polícia. Depois eu passava o dia zanzando por Seul.

Palácios, museus, galerias de arte e restaurantes. Seul tem fama de ser um dos paraísos asiáticos da gourmandise. Naqueles dias, pelo jeito, estava na moda comida com gelo. Peixe cru com gelo, macarrão fumegante com gelo. Tudo delicioso. Um gibi sobre vinhos havia se tornado uma febre no país e colocava uma uva na moda a cada edição: pinot noir, corvina, zinfandel…

E quase sempre eu acabava em Hongdae, um bairro tão hipster que faz Williamsburg, em Nova York, parecer Moema. O maior número de escolas de design gráfico, cafés e casas de shows indie por metro quadrado no planeta. Parece uma descrição do inferno, mas Hongdae é bem divertida.

Então achei que a vida estava muito boa e eu estava ficando frouxo. Li sobre a montanha Bukhansan. É uma das maiores montanhas da Coréia e fica no sul de Seul. Resolvi ver até onde eu conseguia subir.

Fui de trem até o pé da montanha, cercado de coreanos vestidos com todos os apetrechos existentes para alpinistas: capacetes, roupa colante de cores cítricas, cordas, ganchos, lanternas, óculos de formatos estranhos… pareciam uns gafanhotos alienígenas. Tive certeza que era um exagero quando vi o início da trilha. Um passeio. Depois ficou um pouco mais difícil, mas ainda era um passeio. Muito bonito e tranquilo. Em um trecho, ouvia-se ao longe o canto de monges de um templo budista.

Então um sujeito virou-se para mim e perguntou:

– You are from…?

– Brazil.

Ele tentou se lembrar o que era “Brazil”:

– Brazil? Hmmm… Brazil…

– South America.

– South America?! Andes! Big mountains! Come with me!

E atravessou uma faixa amarela que eu tive certeza que estava lá para avisar que não era para ser ultrapassada. Mesmo assim, fui.

A trilha começou então a ficar mais séria. O caminho, mais e mais íngreme. Algo bem parecido com uma escalada. Mais aventura do que eu esperava. Andando a beira de precipícios. E o sujeito indo e falando, o inglês desaparecendo no meio de blábláblá coreano. Eu seguindo. Até que chegou em um pedaço que não dava mais. Olhei para o trecho que ele tinha acabado de atravessar e vi que eu não conseguiria. Parei. O rapaz, lá na frente, sem que eu pudesse vê-lo, me perguntou algo em coreano. Eu disse que estava cansado e que ele podia seguir. Insistiu um pouco, em inglês, mas acabou seguindo. Aproveitei para descansar, e olhar a paisagem. Até então, eu estava apenas tentando seguir o sujeito e não cair. Mas agora podia ver como a paisagem era linda. Dava para ver a cidade, lá longe, lá embaixo. E as montanhas. Tudo bonito. Mas era hora de voltar, refazer o caminho. Olhei o pedaço por onde eu tinha acabado de subir e percebi que descer aquilo era ainda mais impossível que seguir adiante pelo caminho que o rapaz coreano tinha ido. Então fiz o que qualquer um faria: tirei uma foto.

Viajando tanto sozinho, já me aconteceu algumas vezes de estar em situações bizarras. Mas aquela era a primeira vez em que me metia em algo assim sóbrio. Fiquei lá sentado, olhando a paisagem e pensando que ninguém sabia da minha decisão de virar alpinista na Coreia. Depois de alguns dias, alguém do Brasil talvez ligasse para o hotel. E então eu entraria na lista dos desaparecidos. O consulado talvez se envolvesse. E a polícia. Talvez rendesse uma nota no jornal: “brasileiro desaparecido”.

Pensei no Silva Jardim, o abolicionista: tão cheio das ambições, tão frágil de saúde, podia ter morrido nas tantas brigas do movimento republicano, mas foi visitar a Itália, resolveu subir no Vesúvio, caiu em uma fenda do vulcão e pumba! Quando viu, tava morto.

Então, depois dos sonhos de virar noticia de jornal e depois de ficar com muita pena de mim mesmo, percebi que eu já tinha perdido o almoço e, se ficasse naquela montanha por mais tempo, iria perder o jantar. Passaria o dia inteiro sóbrio. Eu precisava dar um jeito de sair dali. Resolvi arriscar e seguir em frente. Fui, sem olhar para baixo.

Na ausência do meu guia coreano, aos poucos o caminho foi ficando mais fácil. A partir de determinado momento, voltei a avançar sem precisar me segurar nas pedras. E, por fim, ouvi gente conversando. Estava próximo de uma trilha de humanos sensatos. Cheguei até ela e segui o fluxo, subindo. Alguns trechos eram um pouco mais difíceis, mas havia cordas e eu enfim cheguei ao pico! Senti-me heroico, no alto, vendo o mundo lá embaixo. Um aventureiro viril que havia vencido a montanha. Ao meu lado um grupo de velhinhas coreanas vestidas de gafanhotos alienígenas.

Horas depois, eu entrava todo imundo no luxuoso saguão do hotel. Peguei o elevador com uma jovem senhora bem elegante. Ela, sorridente, me pergunta algo enquanto faz um gesto com o pé como se estivesse chutando algo. Eu não entendo o que ela diz:

-Sorry?

-You… a football player?

 

*Rogério de Campos é diretor editorial da Veneta e autor de IMAGERIA – O NASCIMENTO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS, O LIVRO DOS SANTOS e REVANCHISMO

 

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