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Por Rafa Campos Rocha *

De como Yeshua morreu e renasceu

Não foi exatamente elegante a minha ressurreição. Ao que parece, durante a minha morte, expeli por vias quase naturais tudo o que era vivo no meu corpo. Os cravos e erupções da pele descolaram-se e ficaram boiando na gordura expulsa pela cútis. Do meu pênis e do meu ânus jorraram todas as infecções, vermes, pústulas e gazes que se conheciam no corpo humano – e as que ainda viriam a ser conhecidas -. Da minha boca jorrou catarro e do meu nariz, ranho. Por sorte, informado por papiros secretos do processo de criação de um vampiro, Pantera não me enterrou, mas deitou-me de lado, em uma pedra longe de nosso covil, trocando-me de lugar cada vez que uma poça muito grande de secreções se formava em torno do meu cadáver. Ele contava, divertido, que a remela que saiu de meu olho era suficiente para se fazer um outro olho. Um pândego, esse Pantera.

Meus dentes também caíram e deram lugar a outros, mais afiados. Não para  beber sangue, como acreditou por tanto tempo a imaginação ocidental, mas para a defesa pessoal. A língua retrátil, localizada em nosso palato, cuidava de nossa alimentação, que consistia, na época, dos pequenos animais que conseguíamos capturar.

Mas, como sempre, eu coloco a biga na frente dos cavalos.

As unhas também caíram e foram substituídas por um tolete retrátil de queratina, exatamente da grossura de meu dedo, cujas falangetas não passavam de canais para essas pequenas e mortais adagas.

Pantera usava sua espada como espátula, raspando a camada de secreções de meu corpo. Depois, ele me disse que aquilo havia sido um erro. Que o ideal seria deixar aquelas secreções cobrirem meu corpo e formarem um casulo, para me proteger do exterior enquanto eu estivesse em mutação. Mas Pantera achou que o casulo era desnecessário, já que ele, Pantera, estava ali para me proteger. Depois, ele achou a coisa toda muito nojenta e ficou aflito com toda aquela meleca cobrindo meu corpo. Pantera me disse que, se ele já não tivesse perdido o interesse sexual há um século, aquele seria um momento que o deixaria impotente por toda a vida. Por sorte, vampiros não vomitam, e as secreções de Pantera não se juntaram às minhas, naquela passagem nojenta da vida para a morte-vida.

O que eu vi no além-vida? Bom, em primeiro lugar, uma luz muito forte, depois uma música melodiosa, me atraiu para cima, onde arcanjos…

Mentira. Não vi nada. A luz que me lembro foi a luz prateada da lua atravessando as minhas pálpebras, de algo na minha garganta e de acordar tossindo e cuspindo o que seriam os últimos mililitros de água suja que ainda infestavam o meu corpo.  Mas isso foi quando eu voltei à vida.

O além-vida, amiguinhos, é algo menos que o Nada.

– Foi uma coisa nojenta. Me lembre de nunca mais fazer isso – resmungou Pantera, antes mesmo de me parabenizar pela nova, longa e estranha vida que se descortinava para esse simpático vampirinho que vos fala.

* Rafa Campos Rocha é autor de Lobas

 

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