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A verdadeira história dos Dez Mandamentos, baseada em fatos reais que aconteceram mesmo.

 

Arão estava irritado e cansado. Sentia-se um tolo ali ao pé do Monte Sinai, há tanto tempo, esperando Moisés. Mas, pelo menos, como não havia ninguém por perto, Arão podia fazer o que mais gostava: ter uma conversa inteligente, consigo próprio.

–  Ele se perdeu de novo! Tenho certeza! Não tem senso de direção! É assim o tempo todo! Trilha que era para fazer em dois dias, com ele demora dois meses! Eu não sei se te contei, Arão, mas a gente tinha acabado de atravessar o Mar Vermelho, todo mundo feliz, a Miriam tocando seu pandeiro, e então o Moisés proclama: “Sigamos! À Terra Prometida!”. E para onde ele aponta? Para o Egito! Se não fosse eu ali, metade do nosso povo teria se afogado no Mar Vermelho. Mesmo assim, Deus o escolheu como seu mensageiro. É porque Moisés, apesar de tudo, tem um dom especial: consegue identificar Deus mesmo quando Ele está bem disfarçado. Às vezes, Moisés conversa por horas com uma jarra ou um jumento, e o incrédulo pode até achar que ele enlouqueceu. Mas o que para o incrédulo é loucura, é a Verdade para nós que sabemos a Verdade. Moisés foi a única pessoa que percebeu e conversou com Deus quando Ele se disfarçou de arbusto flamejante.

Arão era um cético homem de fé, desses que desprezam tanto as superstições dos outros quanto aqueles que duvidam da Verdade. Mas tinha um ódio especial contra gente que ri. Os maledicentes que, por exemplo, espalhavam a mentira de que todas as pessoas que chegaram perto da fumaça do arbusto flamejante viram Deus e outras coisas. Arão odiava atravessar o acampamento ouvindo as risadinhas das pessoas, que sussurravam “A-a-arão” para ridicularizar ele e o sotaque egípcio de Moisés. Afora as blasfêmias maldosas a respeito dos dois sinais sagrados que surgiram na testa do Moisés…

Por isso não tinha tanta gente com quem Arão gostasse de conversar. Preferia falar sozinho:

– Ontem Deus o chamou para uma conversa em particular, só ele. Não é para ninguém mais subir no monte Sinai. E lá foi Moisés, que mal sabe distinguir declive de aclive. Arrisca até se perder no caminho, não chegar na hora do encontro e não ter conversa alguma. Deus ficará zangado, vai jogar uma praga na gente! E eu vou morrer perdido no meio desse deserto porque acreditei quando Moisés disse que sabia o caminho.

Bem nessa hora, Arão interrompeu a conversa com seu eu porque viu a poeira de alguém que descia a montanha. De uma maneira que misturava alegria, irritação e alívio, Arão gritou:

– Moisés!

– A-a-arão!

Arão estava tão feliz de rever o irmão inteiro que, dessa vez, perdoou sua gagueira.

– E aí? Como foi?

Moisés estava transtornado.

– É o fi-fim! O fim!

Arão se assustou.

– Fim como? Ele vai mandar uma praga? Mais um Dilúvio?!

– Não! Nã-não vai mandar mais nada!

– Ufa! Então qual o problema? Ele não deu o mapa da Terra Prometida, é isso? Calma! É ruim, bem ruim… mas… a gente se vira…

– É isso… Ele disse pra ge-ge-gente se virar…

– Como assim?

– Di-disse assim: “esqueçam de Mim!”.

Moisés havia antes prometido a Arão que iria contar tudo. E então contou que quando chegou, Deus já estava lá, zangado, olhando o bracelete. Viu Moisés e já fez sua admoestação:

– Tá atrasado!

– Desculpe-me, Senhor, me confundi no caminho, estava cheio de névoas, de repente eu estava descendo em vez de subir…

Quando falava com Deus, Moisés não gaguejava. Porque conversavam em egípcio. Ao falar a língua dos judeus, Moisés, que havia sido educado como príncipe egípcio, tinha dificuldades e ficava nervoso. Por isso precisava da ajuda de Arão como porta-voz.

Então Deus falou em egípcio:

– Tá bom, tá bom… Então vamos direto pro assunto…

– O Senhor vai me indicar o caminho para a Terra Prometida?

– Terra Prometida? Eu prometi isso? Ah sim! É pra lá!

Na hora Moisés prestou bastante atenção para onde Ele apontava. Mas depois, quando falava a Arão, percebeu que ao se perder descendo a montanha perdeu também a lembrança da direção para a qual Deus apontara. Aliás, esqueceu completamente do aviso que Deus lhe dera na sequência: “Mas você vai precisar de um bom barco”.

Constrangido, Moisés preferiu não falar nada daquele assunto para Arão. Falou do mais importante, do que Deus disse de principal:

– Moisés, sei que vai ser difícil ouvir isso, mas Eu quero te pedir para Me esquecer. Esquece de Mim. Esquece que Eu existo.

– Senhor?! Esquecer?!

– É isso! De agora em diante, faz que Eu não existo!

– Como não existe? Eu o tenho em meu coração, eu te vejo em cada montanha, cada onda do mar, no vento…

– Sei, sei… e em cada arbusto… Já te falei como Me irrita essa história de você andar por aí dizendo que Eu te apareci na forma de um arbusto falante…

– Mas o Senhor criou tudo que existe neste mundo!

– Bom… tecnicamente não. Teve lá metano, hidrogênio, os aminoácidos, proteínas… Mas Eu gostei do que vi, achei na época que era bom. Ainda acho. Essa parte é verdade. Gosto quando as coisas vão por elas mesmas.

– Mas e nós? E sua promessa para Abraão? Como ficamos sem o Senhor?

– Ah! O Abraão… preferia ter esta conversa com ele. Gostava muito do Abraão. Acho que ainda é Meu favorito. Era muito sábio, às vezes mais sábio que Eu… Tanto que Me enrolava… Dizia: olha estas crianças, que bonitinhas, o Senhor vai mata-las a todas só porque os pais delas beberam demais e ficaram cantando até tarde no domingo? E Eu acabava desistindo de acabar com todos vocês… apenas torrava uma cidade ou afundava um continente e acabava Me acalmando. Mas agora…

– Como sobreviveremos sem Sua orientação?

– Vocês se viram, ora! Mas se vocês querem mesmo a sobrevivência dos seres humanos, tenho um conselho: parem de se matar uns aos outros! Parem com isso! Essas guerras! São mais uma coisa que Me irrita em vocês! Todo aquele barulho, a gritaria… E, já que comecei, vou dar mais uns conselhos: parem de falar mal uns dos outros, não sejam como Eu, sejam mais tolerantes. E relaxem! Eu retiro a maldição do trabalho sem fim que lancei sobre o Adão. Descansem mais, peguem uns quatro dias por semana para descansar. Basta repartir melhor as coisas, não desperdiçar tanto, não estragar os alimentos. Avisa lá para o povo: não adulterarás os alimentos! Parem de querer coisas inúteis! E parem de roubar! Parem com essa mania de querer roubar o boi do próximo, o jumento do próximo e, principalmente, fazer escravos, explorar os outros, se apropriar do trabalho do próximo, da mais valia…

– Mais valia?

– É! Mais-valia, mais-valor, Mehrwert… como eu explico? Ai ai ai…

Então Deus olhou novamente seu bracelete e disse:

– Agora não dá para explicar o que é mais-valia, mas vamos fazer o seguinte: depois Eu mando alguém para explicar a vocês. Vão reconhecer ele: dessa vez vou fazer alguém realmente à Minha imagem.

– Mas e as mulheres?

– O que tem as mulheres? O que vale para vocês, homens, vale também para elas! Mesmos direitos! Aliás…

– Quero dizer… também não é para roubar a mulher do próximo, é?

– Moisés, mulher não é jumento.

Então Deus viu que Moisés tentava esconder as lágrimas.

– O que foi agora? Ahhh… Já sei… É de novo por causa daquela noite… Aquela em que conversei com a Séfora… Ela já te disse, Eu também já te disse: não aconteceu nada! Eu estava meio alto, meio altíssimo!

E Deus riu, mas então percebeu que ria sozinho. Moisés não disfarçava mais o choro. Deus tentou acalmá-lo à Sua maneira, admoestando:

– Além do mais, Eu estava bem irritado com aquela estória do arbusto falante! Se não fosse a Séfora falar em sua defesa, você nem estaria aqui agora. Ela me acalmou. Juro que tinha mesmo te matado naquela noite. E olha que a Séfora também estava bem zangada com você. Ou acha que ela acreditou que um arbusto flamejante te mandou ir ao Egito? Séfora teve bastante paciência com você… No lugar dela, Eu já teria te matado umas quinze vezes. Até dei umas sugestões, mas ela…

E Moisés chorava desesperado.

– Tá vendo? Moisés, não dá mais para continuar assim… melhor cada um ir para seu lado… Eu admito: Me irrito fácil. Se seguir com vocês, vou destruí-los a todos! Vocês Me irritam demais e Eu acabo fazendo coisa de que até quase que Me arrependo. O Dilúvio, por exemplo, Eu sei… foi um exagero. Mas é algo que Minha onipotência não dá conta. Não consigo resistir. Acontece o tempo todo, até pelas menores razões: Me irritou ver aquele rapaz, o Onan, se masturbando, mas era o caso de mata-lo? Sei que não. Mesec era teimoso e insistia na sua descrença, mandei um raio na sua cabeça e ele percebeu a Verdade, mas foi a última coisa que percebeu. Madai levou um raio porque falava muito e Elan porque era calado demais. É quase como uma coceira, sabe? De vez em quando até penso no porquê de ter colocado aquela macieira bem no meio do Paraíso… Às vezes acho que, no fundo, Eu queria que aqueles dois Me desobedecessem, que Me irritassem, como desculpa para expulsá-los do lugar. Só pode ser isso! Vocês Me lembram muito os velociraptors. Eles e os outros dinossauros foram Me irritando até que fiz o que fiz. Depois achei ruim, ficou um vazio, um silêncio, que não Me agradou. Então não é por vocês, é por Mim. É melhor darmos um tempo. Vou para outros mundos, procurar um lugar onde os habitantes não Me irritem tanto, em que Eu não tenha vontade de explodir o planeta deles. Até já tenho um em vista, parece promissor: Kripton. Enfim, de agora em diante é isto: procure-Me e não Me encontrará.

– Mas falei para todo mundo que o Senhor era o Deus mais poderoso. Mais poderoso que Ra, que Baal, que Asherah e que aquele Bezerro que o Arão inventou para tomar o ouro do povo… Toda essa gente me seguiu por causa disso. E agora em nome de qual deus eu vou falar?

– Então… um dos principais problemas é justamente este! A partir de hoje, não é para você falar em Meu nome e não é para falar em nome de qualquer outro deus! Não é para servir a Mim e a nenhum outro deus! Parem com esses bonequinhos de pedra e esses santinhos! Não é para falar em nome de Deus algum, entendeu? E se aparecer alguém anunciando que falou Comigo, que Eu mandei fazer isso ou aquilo, ou que Deus está acima de tudo, pode esquecer Meu primeiro conselho, pode apedrejar. Vocês, humanos, conseguem resolver seus problemas, e se não conseguirem, conformem-se com isso! Seja como for, não quero mais saber.

Então Deus olhou mais uma vez seu bracelete e disse a Moisés:

-Agora vai, leva essa Minha última mensagem. Anda que o povo lá embaixo já deve estar preocupado. Explica lá para eles que eu não existo mais e que não é para se matarem, se torturarem, se explorarem e perderem tempo com oferendas, rituais e outras bobagens.

As lágrimas corriam pelo rosto de Moisés.

– Mas o Senhor vai mesmo deixar de existir?

Deus ficou com pena, e falou com suavidade:

– Deixo de existir aqui neste mundo. Mas o Universo é infinito, portanto tudo o que pode existir existiu, existe e existirá infinitamente. Esta conversa que estamos tendo, já aconteceu em infinitos outros mundos, está acontecendo neste mesmo momento em infinitos mundos e acontecerá novamente em outros infinitos mundos. Em infinitas variações. Em infinitas dessas variações, é um Moisés que está explicando isso a Deus. Em outras, somos dois coelhos. Em outras, somos dois arbustos flamejantes conversadores. Você não gosta disso? Não é bonito? A única possibilidade impossível é o Único. O Deus único, por exemplo. Enfim… fica bem, acredite em você mesmo e vai.

Moisés foi seguindo de cabeça baixa, obediente, como sempre, mas então parou e tentou se despedir:

– Adeus De…

– Moisés!

– Desculpa! Adeus Javé!

– Parece que Eu falei com uma pedra! Moisés, não tem mais Deus, Javé, Yahweh, Jeová, Jah ou Alá! Acabou! Posso te pedir para nunca mais falar Meu nome? Você pode fazer isso por Mim? Pode avisar lá ao povo pra fazer o mesmo? Obrigado. Agora pode descer. Vai, desce depressa.

 

 

E Moisés desceu o monte e contou quase tudo para o Arão, que também ficou tenso.

– Mas o que será da gente? Se Deus não existe, você será representante de quem? Como será reconhecido como chefe? E eu serei porta-voz de quem?

Moisés chorava e chorava:

– E não é por nós: o po-povo precisa da nossa liderança! Sem eu como guia, arrisca fi-ficarem va-vagando por vinte anos neste deserto se-se-sem encontrar a Terra Prometida!

– Calma! Vamos nos acalmar! Primeira coisa: não dá para levar essa mensagem assim, desse jeito, para as pessoas. Elas não estão preparadas.

– Elas ficarão apavoradas – E Moisés chorava aos berros!

– Precisamos ordenar as ideias. Vamos fazer uma lista. – E Arão pegou o estilete e uma placa para escrever.

– Li-lista do quê?

– A lista do que Deus ordenou!

– Nã-não diz o nome Dele! Ainda pode estar por perto!

Arão olhou preocupado para o alto do Monte Sinai. Mas era preciso ser prático e rápido:

– Vamos fazer a lista. Ele falou para não matar, não é? Então vamos colocar aqui: “Não matarás!”. E se alguém matar alguém, será condenado à morte.

– Ele também di-disse para não falarmos mal uns dos outros.

– Isso tá muito vago. Vamos assim: “Não levantarás falso testemunho”.

– A-arão, você é muito bom mesmo, fi-ficou muito melhor! E Ele também di-disse que não é para cometer adultério!

– Ele disse? Mas você não me contou isso!

– Ti-tinha esquecido.

– Tá bom então: “Não cometerás adultério!”

– Isso! Morte às mulheres adúltaras!

– Que mais? Ah, ele disse para descansarmos…

– É, quatro dias por se-semana.

– Hmm… mas acho que neste caso Ele se referia especificamente a pessoas como você e eu, que somos sacerdotes, líderes, dirigentes, com mais responsabilidades. O povo em geral é já bem preguiçoso, se falarmos que é para descansar quatro dias, vão começar a esticar e acabarão sem trabalhar dia nenhum. E aí como fica? Quem vai fazer nossas roupas, nossas casas, nossa comida, nossos monumentos? É melhor diminuir um pouco…

– Três dias?

– Um dia já está muito bom para eles!

– Ah! E Ele di-disse também que não era para roubar a casa, o boi, o jumento e a mulher do próximo!

– Vou colocar aqui.

– Mas, A-a-Arão, o que Ele frisou mesmo foi para nunca mais falarmos Seu nome.

– Calma, calma! Agora chegamos no pedaço mais controverso. Vamos lá, de novo, por partes: Ele disse para não cultuarmos outros deuses, não é?

– Si-sim.

– Então isso é consenso, vamos colocar assim: “Não terás outros deuses diante de Mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima nos céus, ou embaixo da terra, ou nas águas que estão debaixo da terra”.

– Pu-puxa!

– E Ele disse que é para castigar quem falar muito o nome Dele, não é?

– Sim.

– Então: falar muito é uma coisa, falar de vez em quando acho que tudo bem. Acho que Ele disse para não falarmos o nome Dele o tempo todo, falar à toa.

– Na verdade…

– Vamos colocar assim: “Não pronunciarás em vão o nome de Javé teu Deus, porque Javé não deixará impune aquele que pronunciar em vão o Seu nome”.

– A-arão, ficou bonito isso. Acho que foi bem isso que Ele disse.

 

Deus, na forma de arbusto flamejante, conversa com Moisés. Imagem de um saltério inglês do século XIII.

 

Moisés com seus chifres, na famosa escultura de Michelangelo.

 

Outra imagem de Moisés, do século XV, detalhe da catedral de San Salvador de Oviedo (Espanha).

 

Arão, também conhecido como Aarão.

 

 

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