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Como duas feministas trouxeram o Manifesto Comunista para as Américas

Por Rogério de Campos

 

A primeira tradução do Manifesto Comunista nas Américas foi publicada por duas irmãs: Tennessee Claflin (1844-1923) e Victoria Woodhull (1838-1927), que foi também a primeira mulher candidata à presidência dos Estados Unidos, com uma plataforma em defesa dos direitos das mulheres, dos trabalhadores e do amor livre. As duas publicaram o Manifesto Comunista em 1872 no jornal Woodhull & Claflin Weekly, criado com parte do monte de dinheiro que ganharam em Wall Street, onde foram as primeiras mulheres a montar um banco de investimento. Uma das vantagens competitivas das duas no mundo dos negócios seriam seus supostos poderes sobrenaturais: Woodhull, por exemplo, recebia o espírito do orador grego Demóstenes. As duas irmãs causaram imenso escândalo e eram chamadas de “As Feiticeiras de Wall Street”. Woodhull, sete anos mais velha que a irmã e mais famosa, era chamada de “Mrs. Satan”.

Victoria Woodhull

Victoria (nascida em 1838), Tennessee (1844) e seus oito irmãos e irmãs tiveram uma infância de miséria e fome. Seu pai, Old Buck Claflin, era um charlatão que se anunciava ora como advogado, ora como professor, ou como médico. Vendia um remédio milagroso feito de óleo de cobra, que normalmente não fazia mal a ninguém (mas às vezes fazia, e Old Buck tinha que se esconder). As meninas mal tiveram educação formal e cedo foram colocadas para trabalhar como assistentes do pai, que anunciava Tenneseee como uma poderosa vidente.

Aos 14 anos, Victoria tinha problemas crônicos de saúde e foi levada a um médico “de verdade” (na época, não era necessária formação ou licença para exercer medicina). O médico, Canning Woodhull, apaixonou-se pela menina e eles se casaram logo depois. Em poucas semanas, Victoria descobriu que Canning era alcoólatra e que se apaixonava facilmente por outras mulheres. Ele era tão atarefado com o álcool, a morfina e as outras mulheres que a situação financeira do casal veio abaixo. Victoria passou a trabalhar para sustentar a família. Tentou diversas atividades até fazer sucesso com o que aprendera com o pai: tornou-se uma vidente. O casal teve dois filhos, Byron e Zula, e então se separou. Victoria levou os filhos e o sobrenome, Woodhull,

Tennessee Claflin

Em 1864, Victoria se anunciava como “médica espiritual” em Saint Louis e atendeu o coronel James Blood. Apesar de ter apenas 30 anos, Blood era já um veterano da Guerra Civil e, por seus bons serviços no campo de batalha, tinha sido recompensado com um cargo na administração de Saint Louis. Logo na primeira consulta, Victoria, em transe, fez sua previsão: os dois iriam se casar. O coronel Blood se convenceu na hora. Tinha o problema de ele ser oficialmente casado, assim como Victoria, mas isso não iria impedir o cumprimento da profecia: os dois providenciaram o divórcio e se casaram.

Se com o primeiro marido Victoria havia consolidado seu inconformismo com a posição da mulher na sociedade, com o incentivo do segundo marido ela se tornou uma líder feminista (ainda que o termo ainda não existisse na época). Blood largou tudo para se dedicar, em tempo integral, a apoiar o ativismo da esposa: passou a fazer o papel de secretário, revisor de seus textos e contador.

Em 1869, um jornal de Washington anunciou Woodhull como “a mulher do futuro” (“coming woman”). Nessa época, o casal já estava em Nova York, onde se reuniu com a irmã Tennessee, que também se tornara uma celebridade como vidente.  Tão famosa que o magnata Cornelius Vanderbilt (1794-1877), na época o homem mais rico da América, resolveu consultá-la. No vai e vem das vidências, o viúvo Vanderbilt e Tennessee tornaram-se amantes. Diversas historiadoras dizem que foi por isso que Vanderbilt aceitou financiar o surgimento da Woodhull, Claflin & Company, a primeira firma de investimento dirigida por mulheres em Wall Street. Mas porque ele teria justamente financiado um banco de investimento e não outro negócio qualquer? Parece-me mais verossímil a hipótese de outras historiadoras, de que Vanderbilt ficou tão satisfeito com os conselhos de investimentos que as duas videntes davam a ele, que resolveu botar seu dinheiro na criação de uma firma especializada dirigida por elas. A nova empresa foi detonada pela imprensa, que fez escândalo em torno da vida pessoal das duas recém-chegadas. Apesar disso, a Woodhull, Claflin & Company foi um grande sucesso. Talvez não pelos poderes paranormais das duas irmãs, mas por uma pequena revolução que elas realizaram em Wall Street ao abrir suas portas para o investimento de mulheres: viúvas, professoras, prostitutas… As duas irmãs ficaram ricas. E resolveram usar o dinheiro para criar um jornal que defendesse os direitos das mulheres e da classe trabalhadora, com o slogan: “Para defender os direitos dos milhões de baixo contra os dez de cima!”. Defenderam o direito de voto para as mulheres e também o direito das trabalhadoras sexuais. Não só publicaram o Manifesto Comunista[1], mas Woodhull, Claflin e Blood entraram para a Internacional Comunista e participaram de pelo menos uma manifestação a favor da Comuna de Paris[2].

O jornal também foi um sucesso, para desgosto dos direitistas e moralistas em geral. Chamada de todos os termos existentes à época para ofender uma mulher, Woodhull desafiou a turba com a declaração: “Yes. I’m a Free Lover!”. Numa época em que ser divorciada era já razão para escândalo, Woodhull avançou: “Tenho o direito inalienável, constitucional e natural de amar quem eu quiser, pelo tempo que eu quiser, e mudar de amor todo o dia que eu quiser”. Segundo um testemunho da época, a audiência da palestra em que Woodhull fez essas declarações ficou “selvagem”.

E ela seguiu: “Tem algo de muito errado em um governo que faz das mulheres propriedade de seus maridos. O sistema inteiro precisa ser mudado, mas os homens nunca farão tal mudança. Eles têm muito a perder” (…) “As mulheres não têm governo”.

Em 1872, o Equal Rights Party (Partido dos Direitos Iguais) lançou Woodhull à presidência dos Estados Unidos, quando o país nem permitia o voto para mulheres. Como vice, indicaram o ex-escravo e líder abolicionista Frederick Douglas (1818-1895). Ou seja, a primeira vez que uma mulher foi candidata foi também a primeira vez que um negro entrou em uma chapa concorrente à eleição presidencial.

Frederick Douglas

Woodhull anunciou sua plataforma: “Nos unimos pelo direito das mulheres votarem, pela regulação dos monopólios, pela nacionalização das ferrovias, pela jornada de trabalho de oito horas, pela tributação das fortunas, pela abolição da pena de morte, pelos direitos sociais e pelo treinamento vocacional para os pobres, entre outras coisas”.

Nesse momento, a campanha da grande mídia e das igrejas contra Woodhull era já uma enormidade. O escândalo ficou ainda maior quando se descobriu que na casa dela viviam o marido, os filhos, a irmã e também o ex-marido, Canning Woodhull. A explicação de Victoria era simples: o homem estava falido, não tinha onde morar, e ela acreditava que era boa a presença dele para os filhos.

Mesmo liberais da época se escandalizaram com a ousadia de Woodhull em se candidatar à presidência. A escritora Harriet Beecher Stowe, autora do clássico do abolicionismo (racista) A Cabana do Pai Tomás (1852), inspirou-se em Woodhull para criar a vilã Audacia Dangereyes de seu romance My Wife and I. Dangereyes (que tem olhos azuis como Woodhull) também tem a audácia obscena de se candidatar à presidência dos Estados Unidos. No mundo da não ficção Stowe classificou Woodhull como uma “bruxa sem vergonha”. Isso aparentemente não perturbou Woodhull, mas quando Henry Ward Beecher, irmão de Stowe e um dos mais famosos pastores protestantes da época, foi ao púlpito condenar a vida privada da candidata, ela ficou furiosa, até porque o pastor teria no passado recente tentado se aproximar dela um tanto demais. Woodhull fez publicar no seu jornal que o pastor era amante de uma das ovelhas de seu rebanho, esposa de um escritor famoso na época. “Eu não estou acusando ele de imoralidade – aplaudo sua visão iluminista. Estou acusando ele de hipocrisia”.

 

Enfim, no dia da eleição Victoria não poderia votar mesmo que o voto fosse permitido para mulheres: estava presa acusada de obscenidade.

A partir daquele momento, Victoria, Tennessee e Blood foram engolidos pelo tsunami. Uma das crises do mercado destruiu a empresa de investimento. A campanha presidencial e os processos sugaram o dinheiro que havia, e a família passou a viver precariamente na própria sede do jornal, que fechou as portas em 1876, quando também acabou o casamento de Victoria e Blood. Os dois continuaram amigos, e Blood foi morrer em Gana, procurando ouro.

As duas irmãs partiram para a Europa. Tennessee casou-se em 1885, em Sintra (Portugal), com Sir Francis Cook, visconde  de Montserrate, um grande colecionador de arte e um dos três homens mais ricos da Inglaterra. No ano seguinte, Francis Cook foi transformado em barão pela Rainha Vitória. Assim, Tennessee passou as últimas décadas de vida sendo a Baronesa de Cook. Mas ainda participando do movimento sufragista com a irmã, que seguiu propagandeando sua causa no Reino Unido. Em uma de suas palestras, Victoria conheceu o banqueiro John Biddulph Martin, que estava na audiência. Ele também era um dos homens mais ricos da Inglaterra. Victoria e Martin começaram a se encontrar, e se casaram em 1883. Victoria virou uma lady inglesa rica. Fazendo escândalo mesmo que involuntariamente. Por exemplo: apaixonada desde sempre por tecnologia, foi a primeira mulher a dirigir automóveis na Inglaterra. A “sociedade” ficou chocada.

Diversas historiadoras dizem que Woodhull foi ficando mais conservadora a partir do final da década de 1870, mas as palavras de incentivo que ela deu à líder suffragette Emmeline Pankhurst em 1889 parecem demonstrar que a chama da fúria subversiva ainda queimava naquela fornalha: “Os espíritos estão voltando para rasgar o maldito sistema de escravidão sexual em farrapos e destinar seus restos carbonizados para as profundezas do inferno eterno”.

Mas prefiro fechar com essa outra de Victoria Woodhull:

“Eu me esforço para aproveitar o máximo de tudo”

No desenho feito por Thomas Nast, Woodhull convida uma mulher a juntar-se a ela: “Seja salva pelo Amor Livre”. E a mulher, que carrega nas costas os filhos e o marido cachaceiro, responde: “Afaste-se de mim, Mrs. Satan! Prefiro sofrer na dura jornada do casamento que seguir seus passos”

Victoria Woodhull e Tennie Claflin homenageadas pelas suffragettes inglesas, em 1910

 

[1] A rigor, não foi a primeira edição do Manifesto publicada nas Américas. Uma outra edição tinha sido feita meses antes em Chicago, mas em alemão, para a comunidade alemã. A edição das duas irmãs foi, assim, a primeira tradução do livro publicada nas Américas. A primeira edição da América Latina, ao que se sabe, foi feita em 1888, no México.

[2] A passagem pela Internacional, no entanto, durou pouco. Apesar de ser então a mais famosa comunista da América, Woodhull (junto com Blood e Tennessee) acabou sendo expulsa da organização em um grande expurgo que aconteceu em 1872. Marx, de longe, apoiou a expulsão e usou contra Woodhull alguns termos típicos de seu vernáculo: “farsante pequeno-burguesa”, “trapaceira yankee”… Talvez por isso, Woodhull não seja muito mencionada nas histórias do socialismo. Também as então líderes feministas norte-americanas, em geral mulheres de moral muito rígida, encantaram-se inicialmente com a força da oratória de Woodhull, mas se afastaram depois dos tantos escândalos em que ela se viu envolvida. E as gerações posteriores ficam frequentemente perplexas com as contradições de Woodhull. Ela, por exemplo, era radicalmente contra o aborto, ainda que insistisse no direito da mulher decidir o que fazer com o próprio corpo, sem qualquer interferência do Estado. Por tudo isso, ela, que foi a mulher mais famosa da América, é com frequência esquecida nas histórias do movimento feminista.

 

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