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Leia o prefácio de A Louca do Sagrado Coração

Por Rogério de Campos*

A Louca do Sagrado Coração foi publicado originalmente em três partes: os álbuns La Folle du Sacré-Cœur (1992), Le Piège de l’irrationnel (1993) e Le Fou de la Sorbonne (1998). Moebius era naquele início dos anos 1990 não apenas o grande nome dos quadrinhos franceses, mas provavelmente o mais cultuado e premiado quadrinista do planeta. Fellini o comparava a Picasso e Matisse, e, em 1979, escreveu a ele uma apaixonada carta: “Tudo o que você faz me agrada. Até seu nome me agrada. No filme Casanova, batizei com o nome Moebius um velho doutor-herbalista homeopata meio mágico meio feiticeiro. Foi minha maneira de demonstrar meu afeto e gratidão, por que você é muito maravilhoso”. 

A lista de cineastas fãs de Moebius é bem grande e variada. Vai de Fellini a George Lucas, de Ridley Scott e James Cameron aos japoneses Katsuhiro Otomo e Hayao Miyasaki, para quem “todos os autores de mangá foram muito afetados por Moebius. Fiz Nausicaä sob sua influência”. Também foi muito sob tal influência que Ridley Scott fez Blade Runner (1982), e que surgiram diversos elementos da série Star Wars (o fã George Lucas inclusive convidou Moebius para fazer o design do filme Willow, e escreveu o prefácio do table book The Art of Moebius, de 1989). Ridley Scott, que teve a colaboração de Moebius no filme Alien (1979), diz que todo o cinema de ficção científica desde então sofreu influência do quadrinista francês: “você vê isso em toda a parte, é algo tão forte que não há como escapar”. Não só na ficção científica do cinema: o escritor William Gibson conta que os quadrinhos de Moebius foram essenciais para o surgimento de seu pioneiro romance cyberpunk Neuromancer (1984).

No entanto, o fã George Lucas simplesmente deixou de lado os desenhos que Moebius fez para Willow, optando por algo mais convencional. E os filmes que tiveram a participação direta de Moebius são motivo de controvérsia. Tem quem ame Tron (de 1982, dirigido por Steve Lisberger), ou O Segredo do Abismo (de 1989, dirigido por James Cameron) ou o Quinto Elemento (de 1997, por Luc Besson), mas acho que não são muitas pessoas. O melhor filme que teve o trabalho de Moebius é justamente seu primeiro:  Alien, o oitavo passageiro, de Ridley Scott. Mas, nesse caso, os desenhos que ele criou para os trajes dos astronautas acabaram ofuscados (e dilacerados) pelo monstro alienígena criado pelo suíço H. R. Giger. Assim, pode-se dizer que o melhor trabalho de Moebius no mundo do cinema seja anterior a Alien: Duna, de Alejandro Jodorowsky, o “maior filme de ficção científica jamais realizado”. Neste caso, “jamais” significa mesmo “jamais”. Foi um projeto que nasceu e morreu em meados dos anos 1970.

Duna, de Jodorowsky, seria estrelado por Orson Welles, Salvador Dali, Mick Jagger, Gloria Swanson, Alain Delon, David Carradine e Hervé Villechaize (o Tattoo, da série Ilha da Fantasia). O Pink Floyd faria a trilha sonora. Moebius foi contratado para fazer o storyboard e o design do filme, tendo Giger e o britânico Chris Foss no apoio. Dan O’Bannon (coautor, depois, de “Long Tomorrow”, a tão influente HQ de Moebius) faria a direção de efeitos especiais. O filme teria 10 horas de duração. Hoje parece loucura, e de fato era mesmo. Mas é preciso entender que, na época, Jodorowsky vinha de um sucesso mais que improvável: o freak-faroeste El Topo (1970), um bang-bang místico psicodélico saudado pelo The New York Times como “estranha obra-prima” e pela Newsweek como “extraordinário”. Um cult movie adorado por Bob Dylan, Peter Fonda, Dennis Hopper, Roger Waters, Yoko Ono e John Lennon, que, tão fã, ajudou a financiar o filme seguinte de Jodorowsky: A Montanha Sagrada (1973), que só não teve George Harrison como um ator, porque este se recusou a contracenar pelado com um hipopótamo. Enfim, naquela época, ainda vivendo os efeitos do Maio de 68 e do explosivo sucesso comercial do rock, projetos malucos como Duna, de Jodorowsky, pareciam possíveis.

O filme, como se sabe, nunca saiu do papel, mas o que Moebius colocou no papel foi nos anos seguintes estudado atentamente por designers e diretores de filmes de fantasia e ficção científica. Não é coincidência que boa parte da equipe desse Duna tenha sido reunida logo na sequência por Ridley Scott para fazer Alien.

Outro efeito colateral do projeto Duna foi a aproximação de Jodorowsky e Moebius. O diretor apresentou ao desenhista Erva do Diabo e outros livros de Carlos Castaneda: foi uma revelação para Moebius. Há muito que ele tinha o México como uma referência básica dos cenários de seus quadrinhos (visitou o país algumas vezes e chegou a viver lá com a mãe, em 1956, por nove meses), mas a descoberta de Castaneda foi como se nos desertos de tantos bang bangs, já tão conhecidos por ele, encontrasse o peiote. É tentador imaginar que El Topo tenha tido especial efeito em Moebius, que há muito vivia uma relação difícil com a série juvenil Blueberry, um faroeste tradicional que era seu ganha-pão e que ele assinava com o seu nome verdadeiro, Jean Giraud. A relação com seu parceiro na série, o roteirista Jean-Michel Charlier, já vinha abalada, pelo menos desde que, em maio de 1968, Giraud liderou um motim dos artistas/trabalhadores contra a revista Pilote, que era na época codirigida por Charlier e Goscinny (criador do Asterix). As diferenças políticas entre os dois se somaram pouco depois às diferenças artísticas, quando Giraud descobriu entusiasmado Robert Crumb e a cena underground norte-americana.

Jean Giraud queria ser Moebius. O pseudônimo surgira nos quadrinhos que publicara na desavergonhada revista de humor Hara-Kiri, entre 1963 e 1964. Eram histórias curtas bem influenciadas pelo trabalho de Harvey Kurtzman, criador da Mad. Essa primeira encarnação de Moebius durou pouco: também em 1963, Jean Giraud iniciou sua parceria com a Charlier nos quadrinhos juvenis de faroeste da Pilote, um trabalho que tomava todo seu tempo. Desistiu de Moebius, para perplexidade do editor da Hara Kiri, Cavanna, inconformado de Giraud desperdiçar seu talento com “kiddy comics”.

A experiência de trabalhar com Jodorowsky na pré-produção de Duna mudou Jean Giraud e o fez reviver Moebius. Em 1974, durante um dos intervalos do trabalho no filme, criou “Cauchemar Blanc” (Pesadelo Branco), uma HQ em preto e branco para a revista L’Écho des savanes. Uma sátira amarga a respeito da violência racista contra imigrantes na França. Ele a assinou como Moebius. O efeito de “Cauchemar Blanc” é até difícil de dimensionar: foi decisiva para o surgimento do nouveau realisme dos quadrinhos franceses (de Jacques Tardi, Chantal Montellier e outros) e me parece ser o Moebius que mais influenciou o Andrea Pazienza, por exemplo. Mas para Jean Giraud significou um momento de sua separação em duas metades. Ele seguiu assinando Jean Giraud seus westerns coloridos, que pagavam as contas. E, em paralelo, Moebius passou a fazer quadrinhos experimentais, quase sempre em preto e branco. 

Moebius fez o cartaz francês de El Topo e se Jodorowsky não conseguiu abrir as portas do mundo do cinema para Moebius, este abriu as portas das bande dessinées para o chileno. O primeiro trabalho dos dois foi o livro Os Olhos do Gato (Nemo, 2005), publicado originalmente em 1978, que mal parecia uma HQ, uma imagem em cada página, silenciosa, cruel e, é claro, em preto e branco. Os Olhos do Gato não tinha a ambição de ser um sucesso comercial e foi lançada originalmente como uma espécie de brinde para fãs.

E então, em 1980, a dupla criou a série Incal, que traduzia o pensamento místico de Jodorowsky e Moebius em forma de ficção científica acessível ao público juvenil. Sem que houvesse produtores de Hollywood para impedir, Jodorowsky pode finalmente atingir o grande público. Ainda que tocasse em temas constantes do roteirista, como o misticismo e a androginia, fazia isso de maneira camuflada em meio a naves espaciais, tropas estelares, policiais interplanetários desenhados com a exuberância moebiusiana. E tudo colorido. Foi um sucesso. 

Quando, no início dos anos 90, foi anunciado que os dois haviam se reunido para criar uma nova série, havia uma grande expectativa de que surgiria um novo Incal. Sabia-se que não seria algo experimental como Os Olhos do Gato. Seria algo mais comercial, colorido, porque agora todos os trabalhos de Moebius eram coloridos: era isso que os mercados, principalmente o norte-americano, exigiam (até mesmo suas antigas HQs preto e branco estavam sendo colorizadas! Horror! Horror!).

E então veio a Louca do Sagrado Coração, quase como uma gargalhada na cara do mercado. Os autores abandonaram a ficção científica e, com ela, a maior parte dos elementos gráficos que há muito tempo haviam se tornado a marca registrada de Moebius. A história se passa em nossos tempos, a maior parte dela em cenários corriqueiros, e seu protagonista não é um aventureiro interplanetário, mas um professor universitário nos últimos dias da meia idade. Definitivamente, não é uma HQ juvenil. Tem erotismo, mais que em qualquer outra grande HQ de Moebius, e isso poderia ser um chamariz para meninos de todas as idades. Mas o erotismo aqui é bem distante da maior parte daquele produzido pela indústria pornô e não serve para alimentar as fantasias masculinas de poder sobre a mulher. Muito pelo contrário: simpático desde há muito às ideias feministas, Jodorowsky ridiculariza as pretensões machistas de superioridade masculina.

Mais problemático comercialmente que o erotismo explícito, o fato da história se passar em nosso mundo, em nosso tempo, sem os disfarces exóticos dos alienígenas da ficção científica, torna explícito contra quem Moebius e Jodorowsky despejam seu sarcasmo. O catolicismo, óbvio, é um dos alvos, mas também as outras religiões. E também o blábláblá sem sentido de acadêmicos especialistas em Heidegger e outros filósofos de universidade. A dupla de quadrinistas ri deles e de todo mundo: do jornalismo, dos estudantes maoístas, do imperialismo norte-americano, da publicidade, do racismo e machismo da elite cultural parisiense, da espetacularização de tudo pela indústria cultural. E parecem rir deles mesmos, pelo fato, por exemplo, de terem se tornado gurus ou, como Moebius diz ironicamente, unicórnios.

A Louca do Sagrado Coração chegou a ganhar um prêmio em um festival de quadrinhos da Espanha. E tem sido publicado em todo mundo em meio às obras completas de Moebius. Mas, para muitos fãs do artista, ficou como uma espécie de excentricidade, até perigosa em sua ousadia blasfema. No Brasil, onde se publicaram tantos de seus livros, alguns deles repetidas vezes, este ficou inédito.

Se de um lado A Louca sofreu uma espécie rejeição por parte de muitos daqueles consumidores do Moebius de sempre, de outro sofreu injustamente a indiferença dos leitores dos quadrinhos de vanguarda. Eu, pelo menos, ignorei a série à época do lançamento. Achava que Moebius, então, não tinha mais nada a me dizer, que apenas repetia o que havia sido inovação em “The Long Tomorrow” e outras HQs em preto e branco dos anos 1970. Descobri a Louca tardiamente, apenas depois que, em 2004, a editora francesa Les Humanoïdes Associés publicou os três álbuns em um só volume, em preto e branco. E, que surpresa, livre da colorização que era obrigatória nos anos 1990, toda a beleza do traço de Moebius vem à tona. Li, reli e mesmo quando traduzia o livro, com a Leticia de Castro, parei diversas vezes para dar risada. Enfim, mais uma vez fui obrigado a admitir que é preciso respeitar os mais velhos. 

É nessa edição de 2004 que baseamos esta nossa. No entanto, no início da história, há a questão da cor violeta: o professor Alain Mangel e seus discípulos costumam usar roupas dessa cor. Como se verá, depois o violeta é descartado. Pedimos então que, nas primeiras páginas deste livro, os leitores usem sua imaginação para perceber a cor violeta das roupas do professor e de seus alunos. Usem a imaginação.

*Rogério de Campos é editor, tradutor e escritor. É autor de Imageria – o nascimento das histórias em quadrinhos, O Livro dos Santos,Super-Homem e o Romantismo de Aço e Revanchismo.

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