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Por Silvana Jeha*

Depois de pedir licença para os indígenas que se tatuavam e se tatuam do território que hoje é o Brasil, eu começo esse livro com os marinheiros. Porque escrevi uma tese sobre eles, e foi em velhos papéis da Marinha do século XIX que encontrei os primeiros registros de tatuagem ocidental no Brasil. Na corveta Imperatriz que combateu os cabanos no Pará em 1835 há diversos tatuados: ingleses, portugueses, caboclos baianos, etc. Depois dos marujos passo para os soldados: o quartel é um lugar tradicional de marcar a pele. No filme Tatuagem de Hilton Lacerda, o apaixonado soldado Fininha é tatuado por outro soldado com a inicial do seu amor dentro de um coração rústico.

O terceiro capítulo é sobre africanas e africanos. São cerca de 5 milhões que vieram escravizados para o Brasil entre os séculos XVI e XIX. Apesar da trágica história, sabemos cada vez mais de sua resistência e de seus descendentes e de seu protagonismo na história do Brasil. Estão reproduzidos muitos anúncios de fuga, uma documentação particularmente feliz, e fotografias e desenhos de belas mulheres e belos homens e suas escarificações, as quais também chamo de tatuagens. Procurei mostrar a diversidade dos povos investigando suas identidades pelas pistas deixadas na documentação e nas marcas de pele. 

Sigo para os imigrantes, portugueses, italianos, germânicos, okinawanas e principalmente sírios e libaneses que além de tatuados foram tatuadores no início do século XX no Brasil. Nesse capítulo vemos a diversidade dessa cultura universal aportando no país e como aqui é um lugar interessante para estudar a tatuagem mundial. Se no Brasil do século XIX havia pessoas de várias partes do continente africano, naquele do século XX, europeus e asiáticos de diversas partes vêm se somar a essa diversidade que deveríamos de fato valorizar.

No capítulo que chamo de Artistas, apresento homens e mulheres que desde o século XIX viajaram o mundo para apresentar seus corpos super tatuados em circos, zoológicos, teatros e feiras. Vários vieram para o Brasil e, inspirado neles, o poeta Jorge de Lima inventou duas personagens fantásticas em seu poema O grande circo místico (1935): Lily Braun e Margarete que tinha o ventre tatuado com a Paixão de Cristo,  talismã que a defendia de ataques de tigres.

O capítulo central é sobre trabalhadores e trabalhadoras, os principais tatuados da história do Brasil. A tatuagem, antes de se tornar uma cultura pop, era uma cultura popular. Há história de marceneiros, pedreiros, barbeiros, sambistas, lavadeiras, prostitutas e tantos outros que estão espalhados não só aqui, como no livro todo. Mostro também como as instituições médicas, policiais e os jornais ajudaram a criar um imaginário criminalizado sobre a tatuagem.

A parte sobre prisões e prisioneiros mostra a tradição centenária dessa cultura  que não aconteceu só no Brasil, mas em diversos ambientes prisionais do mundo ocidental. No Brasil, os primeiros registros encontrados são no Presídio da Ilha Fernando de Noronha na primeira metade do século XIX.

Em Religiosidades, sigo rastros da tatuagem religiosa desde o século XVI. Começo com os peregrinos europeus que iam a Jerusalém e como essa tradição se espalhou pela Europa, península ibérica e aportou no Brasil. Soma-se a influência da tradição africana de marcar a pele. Talvez a tatuagem religiosa seja a mais tradicional marca corporal brasileira.

O livro termina com um capítulo sobre os afetos que a tatuagem encerra. Paixões, saudades, dramas, sexo, amores de mãe, de filho, de prostituta e até ódio. Prevalece “o elemento dionisíaco” descrito pelo escritor Tenesse Williams, autor de A rosa tatuada como  “o fruto da videira feito de terra, sol e ar que o destila em sucos que privam os homens não da razão, mas de uma coisa diferente chamada prudência”.

* Silvana Jeha é doutora em história pela PUC-Rio. É redatora e pesquisadora de texto e iconografia para diversos livros, filmes e exposições. Sua tese sobre marinheiros no Brasil no século XIX inspirou a sua pesquisa sobre a história da tatuagem no país, esta última contemplada com uma bolsa da Biblioteca Nacional, que mais tarde se tornaria o livro Uma História da Tatuagem no Brasil.   Produziu diversos textos acadêmicos sobre indígenas, escravidão, marítimos e prostituição. Atualmente, realiza pesquisa de pós-doutorado sobre os artistas Aurora Cursino dos Santos e Artur Bispo do Rosário.

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