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Por Rogério de Campos*

“Inclassificável” é uma palavra muito frequente em meio aos tantos elogios da crítica para Prof. Fall, criado pelo quadrinista Ivan Brun a partir do romance de mesmo nome escrito por Tristan Perreton. À primeira vista, trata-se de um thriller. A HQ foi indicada ao Polar de Angoulême, que premia histórias de suspense, o mesmo que foi dado ao Tungstênio, de Marcello Quintanilha em 2016. E, exatamente como Tungstênio, Prof. Fall pode ser classificado como uma história de suspense que surpreende por transgredir os esquemas típicos do gênero, mas que, ao mesmo tempo, mantém, por um fio sua ligação com tal gênero.

Assim, Michel Morel, o jovem e entediado burocrata lionês, segue os desastrados passos de tantos outros personagens famosos de histórias de suspense que, por acidente, envolvem-se com gângsters ou com a espionagem internacional. Michel nos lembra alguns personagens de Patricia Highsmith, envolvidos em crimes de maneira não tão involuntária.

E, mais especificamente, nos faz lembrar Kees Popinga, o protagonista de O Homem Que Via o Trem Passar, de Simenon, emaranhado em uma mistura de ódio à hipocrisia, tédio e sentimento de culpa. Mistura que, no caso de Michel, é temperada com antidepressivos e vinho. O sobrenome Morel faz, no entanto, qualquer leitor de Bioy Casares ficar de olhos bem abertos, alerta, na suspeita que tudo não passe de algum delírio de Michel.

Mas David Taugis, do site ActuaBD, vê outra linha de referência: Prof. Fall, segundo ele, “nos faz pensar imediatamente nos personagens de Michel Houellebecq, ao entrar na vida desses solitários tão frustrados, já incapazes de salvaguardar as aparências sociais”. Para Taugis, o protagonista da HQ, “expõe contradições nas quais muitos podem se reconhecer, e seu desespero permanece coerente”.

A revista digital Du9 vê ainda mais forte outra influência, que não é da literatura, mas do pensamento político de Guy Debord e dos situacionistas: “Michel não tem nada a ver com o ativismo, para desgosto de sua tia Jeanne, que o criou e sempre defendeu a ação revolucionária. Mas, de espectador da vida, Michel gradualmente se torna ator, começando, por parar de trabalhar. E seu olhar no mundo traz claramente a herança do pensamento situacionista, de Guy Debord, cujo filme in girum imus nocte et consumimur igni dá título ao décimo capítulo do livro. No correr da HQ reconhecemos vários pontos, tanto estéticos quanto ideológicos, tão centrais do movimento situacionista: a crítica ao consumismo, a psicogeografia e suas ‘derivas’ urbanas a vagar por situações, e também o détournement das imagens, principalmente as cinematográficas, com uma voz que convida a nos distanciarmos das imagens que desfilam (…) e se aproxima mais do espírito do livro A Sociedade do Espetáculo. Que convida não para apropriação de sua teoria, mas para ir além dela”.

Para mim, talvez pela coincidência de ter conhecido o Prof. Fall na mesma época em que finalmente conseguia negociar a publicação no Brasil de Discurso Sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire, a ligação é evidente da HQ com o texto clássico do poeta martinicano. Em vários aspectos, Prof. Fall parece ilustrar a ideia defendida por Césaire de que o nazismo foi consequência do colonialismo. Que os horrores praticados pelos colonialistas europeus não poderiam deixar de retornar à Europa de alguma forma. Michel como que adoece de uma doença adquirida na África e que apenas o marabuto africano Professor Fall poderia curar. Michel tem nojo do que come, do que vive, de seu desejo. Tem nojo da chamada civilização ocidental.

Eu, tão descrente, confesso que fiquei um pouco perplexo quando, em meados de 2019, o Marcelo D’Salete mandou um email me sugerindo conhecer o trabalho do Ivan Brun. Eu tinha acabado de assinar o contrato do Prof. Fall! Um livro que ele, Marcelo, não conhecia.

Ele, que já estava então terminando as ilustrações da nossa edição do Discurso Sobre o Colonialismo. Coincidências. Ou alguma coisa de outro mundo, que vem nos indicar maneiras de superarmos a situação em que nos encontramos neste mundo. Para isso que serve a literatura, não é?

 

*Rogério de Campos é editor, tradutor e escritor. É autor de Imageria – o nascimento das histórias em quadrinhos, O Livro dos Santos, Super-Homem e o Romantismo de Aço e Revanchismo.

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