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por Sofia Nestrovski*

 

Se você está lendo isto, é porque já se passou muito tempo, e o mundo onde eu existia acabou. Tenho 27 anos e pretendia chegar até os cem, desde que meus amigos e outras pessoas interessantes topassem chegar também. Mas em algum momento no meio do caminho, morremos todos de calor ou de sede ou de fome ou dentro de um furacão ou engolidos por uma nuvem preta de fumaça ou uma onda gigante do mar. Se você está lendo isto, é porque vem de uma outra espécie, talvez visitante de outro planeta, ou uma criatura inesperada que evoluiu. Gostaria de saber que cara você tem.

 

Este é o registro que deixo para que você possa nos conhecer. Somos humanos, gostamos das coisas e do mundo, e teríamos muito para dizer, se você pudesse nos ouvir. Teríamos muito para mostrar, começando pelas nossas rotinas mais simples. Comer, dormir e bocejar, por exemplo — que é quando abrimos a boca (fica no meio da cara) e deixamos entrar muito ar. Ventilamo-nos por dentro. Esticamos nossos músculos de manhã, e os ossos às vezes fazem crec. Uma palavra que é boa de falar na nossa língua é “crocante”. Posso falar de outras coisas boas sobre nós, a começar pelas mais simples, como uma lista do que gostamos de comer. Quais você acharia que são?

 

a) Cascalho molhado

Poção venenosa

Carvão ativado

Miolo da rosa

 

b) Telescópio

Mesozoico

Paranoico

Retumbante

      

c) Cabelos

Pelos

Espelhos

 

São todas palavras humanas, mas não, não comemos nenhuma dessas. O que nós comemos na verdade são alfaces, aspargos, rúculas e morangos. E pepinos, tomates, toranjas, cebolas, ovelhas, coelhos, carneiros, ameixas, mirtilos, castanhas, coentros, bananas e rãs. E também acerolas, alheiras, cachorros, galinhas, poejo, tomilho, macacos, tucanos, cominho, joelhos, amora, moranga, moringa, moela, marmelo, farinha, farelo, farofa. Cogumelos, azeites, figos e damascos e tâmaras; abacaxi, cardamomo, leite de coco e o coco inteiro, com exceção da casca. A parte crocante demais. Arroz de todos os jeitos, batatas, sardinhas, lentilhas, geleia, fermento, e uma coisa chamada bombom. Você consegue acreditar num nome desses? Comemos vacas, comemos cobras, comemos barbatanas de tubarão. E baleias, e focas e a suave água-marinha, e gatos, a depender.

 

Uma coisa muito boa de se fazer quando se é humano é se coçar.

Eu gostaria de escrever este relato para que você soubesse mais sobre nós. Comemos com as mãos, e não com os pés, usamos talheres de prata, de plástico ou pauzinhos de madeira. Somos ou já fomos muito inventivos.

 

* Sofia Nestrovski é mestre em Teoria Literária pela USP, dá aulas sobre Shakespeare e já escreveu para veículos como Quatro Cinco Um, Nexo e Folha de São Paulo. Pela Veneta, é coautora de Viagem em Volta de uma Ervilha, junto de Deborah Salles, criadora da animação que ilustra o texto.

 

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