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Ivan Brun

*por Rômulo Luis

Autor de Prof. Fall, nosso mais novo lançamento, Ivan Brun é um artista multifacetado. Desde o início da década de 1990, ele vêm se consolidando como uma das figuras mais importantes na cena underground de Lyon, França. Seja nos quadrinhos, publicando em revistas de destaque como a L’Écho des Savanes, seja como um dos fundadores do coletivo Organic Comix, que desenhava tiras gigantes em murais, ou na música, a frente de sua banda de hardcore Coche Bomba.

Primeira obra do autor publicada no Brasil, Prof. Fall é adaptado do romance homônimo de Tristan Perreton (nosso próximo entrevistado). O quadrinho é uma viagem brutal e alucinógena pela violência da guerra civil em Moçambique, seguindo a história do jovem burocrata Michel, que se vê amaldiçoado por forças misteriosas após presenciar o suicídio de um ex-mercenário. Você pode comprar o livro aqui.

Brun conta atualmente com seis livros publicados, entre coletâneas e histórias longas, dos quais três foram indicados ao Angoulême (incluindo Prof. Fall). O autor concedeu uma entrevista especial para o nosso blog, onde comenta como tem passado a quarentena, os bastidores de seu processo criativo e quais foram suas inspirações na criação do quadrinho.

– Então, vamos começar com uma pergunta bastante atual, afinal é o que está na cabeça de todos agora. Como você tem lidado com a quarentena? Anda desenhando alguma coisa? E como um artista extremamente envolvido com a crítica sociopolítica, quais são suas opiniões sobre a situação da França hoje?

Ivan: A França está atualmente em confinamento desde 16 de março, e agora foi estendido para 11 de maio. Bem, essa situação não mudou muito minha rotina pessoal, como um cartunista que trabalha em casa. Eu tento continuar trabalhando nos meus projetos atuais de ilustração. Não reagi desenhando coisas sobre os eventos recentes porque eu senti que não seria relevante, prefiro analisar em perspectiva.

Eu me preocupo com os resultados desta crise sanitária mundial, especialmente com as consequências econômicas que certamente serão resolvidas com mais medidas de austeridade. O rastreamento e o monitoramento da população também parecem uma possibilidade crível, receio que a bagunça em que estamos tenha um impacto negativo na nossa liberdade individual. A Doutrina do Choque (Nova Fronteira, 2008), de Naomi Klein, me vem à mente.

Localmente, nosso governo patético está realmente dominado pela crise e incapaz de tomar decisões claras. Estamos enfrentando escassez de máscaras de proteção, falta de equipamentos médicos e campanhas de testes, instruções contraditórias do governo e controle policial rigoroso para aplicar as restrições de bloqueio. Já que a repressão parece ser a única resposta adequada pras falhas do governo na gestão da saúde pública. Essas são as consequências de passar os últimos 10 anos fatiando o setor público por causa de políticas de austeridade, depois da crise de dívida pública do Euro, em 2010.

Não é muito surpreendente, mas sempre senti e achei que nosso futuro na França seria algo parecido com a América do Sul no fim dos anos 70.

Prof. Fall é uma adaptação do livro homônimo de Tristan Perreton. Foi sua primeira vez trabalhando com uma adaptação? Como foi seu contato inicial com o livro e de onde surgiu a ideia de transforma-lo em um quadrinho? Tristan teve algum papel ativo durante o processo criativo?

Ivan: Tristan e eu nos conhecemos há muitos anos, porque operamos nos mesmos circuitos do underground de Lyon: em volta da música, dos fanzines e das artes gráficas. Eu acabei me deparando com uma cópia do Prof. Fall original, que foi auto publicado, xerocado em 100 cópias como um livro bastante confidencial que Tristan vendia em shows e exposições de arte. Fiquei interessado em adapta-lo para uma graphic novel.

Eu me identifiquei imediatamente pelas reviravoltas estranhas, pela atmosfera fantástica e sombria e pelas questões sócio-políticas da trama. Também pelo retrato crítico da nossa cidade de Lyon, que é um lugar profundamente triste, apesar dos esforços dos nossos políticos locais para transforma-la em uma metrópole moderna, global e atraente.

Foi minha primeira adaptação de um romance existente, tomei a matéria nas minhas próprias mãos para sequenciar os capítulos e as cenas, mas é uma adaptação bastante fiel do texto escrito. Tristan apenas reescreveu algumas modificações depois que todos os desenhos e páginas já estavam prontos.

– A guerra parece ser um tema bastante consistente nos seus trabalhos. Mesmo antes de Prof. Fall, em outros quadrinhos como War Songs (ainda inédito no Brasil) e nas suas ilustrações, você parece ter algum interesse ou sensibilidade especial pelo assunto. Poderia nos contar um pouco mais sobre isso?

Ivan: War Songs foi uma reflexão sobre a guerra assimétrica, inspirada pela intervenção dos Estados Unidos no Iraque em 2003, e a forma como essas táticas também podem ser aplicadas em períodos de paz civil. A maioria dos meus trabalhos aborda os temas do capitalismo neoliberal e da globalização, especialmente seus cantos sombrios. Dado que o atual sistema capitalista beneficia apenas uma minoria rica em detrimento da classe trabalhadora e da classe média, isso pode ser considerado um ato de guerra contra a população, utilizando meios de propaganda e coerção violenta para fazer as pessoas acreditarem e aceitarem que essa é a única opção viável para nossas democracias. Pode parecer um pouco vago, mas eu tento me expressar e deixar uma ideia clara usando meios artísticos simples.

– Eu sei que você provavelmente recebe essa pergunta o tempo todo, mas eu sempre gosto de saber. Quais são suas principais influências? Dentro e fora dos quadrinhos, podem ser até referências ideológicas.

Ivan: Fui fascinado desde muito cedo pelas obras maravilhosas de quadrinistas como Moebius, Liberatore, a revista Metal Hurlant (original francês da Heavy Metal) e isso me inspirou a querer me tornar um quadrinista. Em vez de imitar os mestres, senti que tinha que encontrar minha própria voz. Por isso, coleciono influências de todos os tipos de fontes: filmes, literatura, ensaios, pintura clássica e contemporânea. O clima social e político atual também deve ser levado em consideração pois vivemos tempos interessantes.

– Em Prof. Fall, seu traço muda significativamente com relação aos trabalhos anteriores, seguindo um caminho mais sóbrio, até mais “realista”. Quais decisões artísticas te levaram por esse caminho?

Ivan: Eu fiz dois livros anteriormente, No Comment e War Songs, seguindo um protocolo restrito: quadrinhos sem palavras trocando os diálogos por pictogramas, e usando um design de personagens cartunescos, como aqueles personagens de mangá pequenininhos com caras de bebês fofos.

Senti que tinha esgotado os limites desse processo narrativo e queria mudar minha abordagem e minha técnica, voltando às raízes dos quadrinhos mais tradicionais. Tive que encontrar o tom certo, algo que se encaixasse melhor na narrativa e na história de Prof. Fall. Mesmo que não seja tão óbvio olhando pras páginas, encontrei influências nos quadrinhos americanos clássicos de 1950, como Milton Caniff ou Alex Raymond por exemplo.

– Por fim, Prof. Fall é seu primeiro trabalho publicado aqui no Brasil. Quais suas expectativas sobre como os leitores brasileiros vão receber a história? Você já teve contato com quadrinhos brasileiros? E os sentimentos que cruzam a mente de Michel, a obsessão com a “queda” e a opressão diante da modernidade, você acredita que esse mal-estar é universal?

Ivan: Obrigado pelo interesse de vocês no livro e por publica-lo no exterior. A propósito, espero que os leitores brasileiros se interessem e se identifiquem com ele. Não conheço muitos quadrinhos do Brasil, exceto obras do Marcelo D’Salete, que conheci na Argentina há 10 anos atrás, os fanzines do Luiz Berger e o todo-poderoso artista cósmico Sergio Macedo. Estive na região do ABC em 2005, mas infelizmente não tive a oportunidade de procurar livros ou revistas locais …

Angola Janga (Marcelo D’Salete, Veneta, 2017), Chuva de Merda (Luiz Berger, Ugra Press, 2015) e Xingu! (Sergio Macedo, Devir, 2007)

Os sentimentos e questões levantados pelo personagem principal de Prof. Fall podem ser sentidos por qualquer um que viva em uma sociedade moderna pós-capitalista, especialmente agora nestes tempos perturbados. A queda pode ser um processo interessante, mas esperamos aterrissar de alguma forma em um lugar melhor e mais seguro.

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