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Uma homenagem à Aldir Blanc por Marcello Quintanilha*

        Em meados de 1999, obtive o contato de Aldir Blanc através de meu amigo Edmundo Barreiros. Pretendia convidá-lo para escrever o prefácio de Fealdade de Fabiano Gorila, meu primeiro álbum. A ideia partira de Rogério de Campos, que publicaria a HQ pela Conrad naquele mesmo ano.

        Sem saber ao certo o que esperar, me apresentei em sua casa para deixar uma impressão do material. A conversa foi rápida — não havia tempo a perder no fim do século XX.

        Dias depois, estávamos no Bar da Dona Maria, na Tijuca, cercados de amigos de longa data. aos quais eu acabava de ser apresentado. O convite havia sido aceito. Já nos despedíamos, mas Aldir não quis encerrar aquele segundo encontro sem me perguntar o seguinte:

        — O que você acha de eu fazer uma apresentação no lançamento do seu livro?

        — Você garante? — disse Rodrigo Ferrari, dono da Livraria Folha Seca, então sediada no Centro Cultural Hélio Oiticica, no Centro do Rio, que abrigaria a tarde de autógrafos, quando lhe transmiti a proposta do Aldir.

        — Garanto — disse eu.

        — Garante mesmo? — disse ele.

        — Garanto — disse eu.

        Rodrigo não dava crédito ao que acabava de ouvir:

        — Como vai ser isso?

        — Tipo uma jam session — na época se falava assim —, ele disse que chama um pessoal.

        — Tipo quem?

        — Moacyr Luz, Walter Alfaiate… Um pessoal…

        Rodrigo acreditou menos ainda.

        Fealdade de Fabiano Gorila debutou acalentado pelos versos que sancionaram a anistia nos estertores da ditadura militar; versos que reivindicam a atmosfera dos subúrbios como traço indelével na formação do caráter; que não abrem mão de herança de dor, mágoa, pena, desvario e drama que abastece a cisterna da cultura brasileira.

        Nos vimos pela última vez na concentração do Bloco Mis a Mis, no carnaval de 2001, creio. Eu não deixava de repetir: “Qual é a tua, Braulio?”, frase de Um cara bacana da 19a. Era minha forma desengonçada de agradecer. Aldir sorria.

        Muitos anos se passaram. Mas nenhum verso passou. E eu não sou menos desjeitoso hoje do que fui então, Aldir…

        Canário da Terra. Maia Lacerda. Bomba de flit.

 

*Marcello Quintanilha é quadrinista, autor de Tungstênio (2014), vencedor do premio Angoulême, Talco de Vidro (2015), Hinário Nacional (2016), Todos os Santos (2018) e Luzes de Niterói (2019), entre outros.

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