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No dia 11 de agosto de 1965, o jovem negro Marquette Frye foi detido pela polícia de Los Angeles acusado de estar dirigindo embriagado. As pessoas do bairro de Watts que observavam a cena se revoltaram com a violência policial e começaram um tumulto que durou seis dias e resultou em 34 mortes (23 delas assassinadas pela polícia ou pela Guarda Nacional), mil prédios destruídos e danos avaliados hoje em mais de 300 milhões de dólares. Para o mundo dos bem pensantes, a revolta da população foi uma manifestação irracional. Mas a Internacional Situacionista saudou o movimento com um texto que hoje é um clássico, desde então atual.

 

O Declínio e a Queda da Economia Espetacular Mercantil

por Guy Debord

 

Entre os dias  13 e 16 de agosto de 1965, a população negra de Los Angeles se sublevou. Um incidente envolvendo guardas de trânsito e pedestres acabou em dois dias de motins espontâneos. Apesar dos reforços constantes, as forças da ordem não foram capazes de controlar as ruas. No terceiro dia, os negros saquearam as lojas de armas acessíveis e se armaram, de modo a poderem atirar até mesmo nos helicópteros da polícia. Milhares de soldados e de policiais – o peso militar de uma divisão de infantaria inteira, apoiada por tanques – teve que ser jogada na luta para cercar a revolta no bairro de Watts, e em seguida o retomar ao preço de inúmeros combates de rua durante vários dias. Os insurretos pilharam lojas e atearem fogo. Segundo as cifras oficiais, trinta e duas pessoas morreram, das quais vinte e sete negras, mais de oitocentas ficaram feridas e três mil foram presas.

As reações vindas de todos os lados foram claras, de modo que o levantamento revolucionário, ele próprio revelando em atos os problemas existentes, tem sempre o privilégio de conferir as diversas matizes de pensamento de seus adversários. O chefe de polícia, William Parker, recusou todas as mediações propostas pelas principais organizações dos negros, afirmando justamente que “esses amotinados não possuem líderes”. E certamente, uma vez que os negros não tinham líderes, era o momento da verdade em ambos os lados. Aliás, o que esperava nessa ocasião Roy Wilkins, secretário geral da National Association for the Advancement of Colored People? Ele declarava que os amotinados “deveriam ser reprimidos com toda a força necessária”. Enquanto isso, o Cardeal de Los Angeles, McIntyre, sempre disposto a fazer escândalo, não protestou contra a violência da repressão, como se poderia crer que fosse o esperado num momento de aggiornamento da Igreja Romana. Ao invés, ele protestou com muita veemência contra “uma revolta premeditada contra os direitos dos vizinhos, contra o respeito pela lei e a manutenção da ordem”, conclamando os católicos a se oporem à pilhagem, a “essas violências sem justificação aparente”. E todos aqueles que eram capazes de ver as “justificações aparentes” da cólera dos negros de Los Angeles, mas certamente não a justificação real, todos os pensadores e “personalidades” da esquerda mundial –  do nada que ela é – deploraram a irresponsabilidade e a desordem, a pilhagem, e sobretudo o fato das lojas de armas e álcool terem sido as primeiras a serem saqueadas, e além disso terem sido registrados dois mil focos de incêndio através dos quais os incendiários de Watts iluminavam sua batalha e sua festa. Quem então defendeu os insurretos de Los Angeles, do modo que mereciam? Nós o faremos. Deixemos os economistas chorarem os vinte e sete milhões de dólares perdidos, os urbanistas chorarem um de seus mais belos supermercados ter virado cinza, e McIntyre chorar seu xerife morto. Deixemos os sociólogos lamentarem o absurdo e a embriaguez dessa revolta. O papel de uma publicação revolucionária não é somente dar razão aos insurretos de Los Angeles, mas contribuir para lhes fornecer as suas razões, esclarecendo teoricamente a verdade cuja procura se exprime pela ação prática.

Na Mensagem publicada em Argel em julho de 1965, após o golpe de Estado de Boumedienne, os situacionistas, expuseram aos argelinos e aos revolucionários do mundo a situação na Argélia e no resto do mundo como um todo, mostrando entre outros exemplos o movimento dos negros americanos, o qual, “se puder se afirmar de forma conseqüente”, revelaria as contradições do capitalismo mais avançado. Cinco semanas depois, essa “forma conseqüente” é manifestada nas ruas. A crítica teórica da sociedade moderna, no que há de mais avançado nela, e a crítica através de ações dessa mesma sociedade, coexistem neste instante: ainda separadas, mas direcionadas à mesma realidade, falando da mesma coisa. Essas duas críticas se explicam mutuamente, e cada uma é inexplicável sem a outra. A teoria da sobrevivência e do espetáculo é esclarecida e verificada por estas ações que são incompreensíveis à falsa consciência americana. Por sua vez, algum dia essa teoria será esclarecida por estas ações.

Até agora, as manifestações do negros pelos “direitos civis” tinham sido mantidas por seus líderes numa legalidade que tolerava as piores violências das forças da ordem e dos racistas, como no último mês de março no Alabama, quando da marcha sobre Montgomery. E mesmo após esse escândalo, um acordo discreto entre o governo federal, o governador Wallace e o pastor Luther King haviam levado a marcha de Selma, no dia 10 de março, a recuar diante da primeira intimação, com dignidade e rezando. O confronto esperado pela multidão de manifestantes acabou sendo apenas o espetáculo de um possível confronto. Ao mesmo tempo, a não-violência tinha atingido o limite ridículo de sua coragem: se expor aos golpes do inimigo para em seguida fazer a grandeza moral poupar-lhe a necessidade de usar novamente sua força. Mas o que é fato é que o movimento pelos direitos civis só colocava, por meios legais, problemas legais. É um tanto lógico agir legalmente para se apelar à lei. O que é irracional é mendigar legalmente diante da ilegalidade patente, como se ela fosse um não-senso que se dissolveria ao apontar do dedo. É evidente que a ilegalidade superficial, injuriosamente visível,  e ainda aplicada aos negros em muitos estados americanos, tem suas raízes numa contradição econômica-social que não está ao alcance das leis existentes, e que nenhuma lei jurídica futura poderá desfazer, diante das leis mais fundamentais da sociedade na qual os negros americanos por fim reivindicam viver. Na verdade, os negros americanos querem a subversão total desta sociedade ou nada. E o problema da necessidade da subversão aparece por si mesmo desde o momento que os negros começam a se utilizar de meios subversivos, já que a passagem ao uso de tais meios surge nas suas vidas cotidianas como a mais acidental e ao mesmo tempo a mais objetivamente justificada. Não se trata mais da crise do estatuto dos negros na América, mas sim da crise do estatuto da América, posta primeiramente pelos negros. Não se tratou em Los Angeles de um conflito racial: os negros não atacaram os brancos que estavam no seu caminho, mas somente os policiais brancos, e do mesmo modo o sentimento de comunidade negra não foi estendido aos proprietários de lojas e nem mesmo aos motoristas de carro negros. O próprio Luther King teve que admitir que os limites da sua competência tinham sido ultrapassados, declarando em outubro, em Paris, que “estas não eram revoltas de raça, mas de classe”.

A revolta de Los Angeles é uma revolta contra a mercadoria, contra o mundo da mercadoria e do trabalhador-consumidor hierarquicamente submetido às imposições da mercadoria. Os negros de Los Angeles, como os grupos de jovens delinqüentes de todos os países avançados – mas mais radicalmente por se tratar de uma classe globalmente sem futuro, de uma parte do proletariado que não tem como acreditar em grandes oportunidades de promoção e de integração – tomam ao pé da letra a propaganda capitalista moderna, sua publicidade da abundância. Eles querem imediatamente todos os objetos mostrados e abstratamente disponíveis, porque eles querem utilizá-los. Recusam assim o valor de troca, a realidade mercantil que é seu molde, a motivação e o fim último, e que a tudo selecionou previamente. Através do roubo e do presentear, eles reencontram uma utilização que, de imediato, desmente a racionalidade opressiva da mercadoria, que revela a arbitrariedade e não necessidade de suas próprias relações e produção. A pilhagem do bairro de Watts manifestou a mais sumária realização do princípio mestiço que diz: “A cada um segundo as suas falsas necessidades”, as necessidades determinadas e produzidas pelo sistema econômico que a pilhagem justamente rejeita. Mas pelo fato desta abundância ser tomada ao pé da letra, reincorporada no imediato, e não mais indefinidamente perseguida na corrida do trabalho alienado e do aumento das necessidades sociais variadas, os verdadeiros desejos se exprimem logo na festa, na afirmação lúdica, no potlatch de destruição. O homem que destrói as mercadorias demonstra sua superioridade humana sobre as mercadorias. Não permanece prisioneiro das formas arbitrárias que encobrem as suas necessidades reais. A passagem do consumo à consumação se realizou nas chamas de Watts. As grandes geladeiras roubadas pelas pessoas que não possuíam energia elétrica, ou que estavam com ela cortada, é a melhor imagem da mensagem de abundância tornada verdade em cena. A produção mercantil, no momento em que para de ser comprada, torna-se criticável e modificável em todas as suas formas particulares. Somente quando ela é paga pelo dinheiro, como um símbolo de um status de sobrevivência, é que ela é respeitada como um fetiche digno de ser admirado.

A pilhagem é a resposta natural à sociedade da abundância, mas essa abundância não é de modo algum natural e humana, ela é abundância de mercadorias. E a pilhagem, que instantaneamente faz ruir a mercadoria enquanto tal, mostra também a ultima ratio da mercadoria: a força, a polícia e os outros destacamentos especializados que possuem no Estado o monopólio da violência armada. O que é um policial? É o servidor ativo da mercadoria, é o homem totalmente submisso à mercadoria, através da ação do qual o produto do trabalho humano permanece uma mercadoria cuja a vontade mágica é ser paga, e não ser simplesmente uma geladeira ou um fuzil, uma coisa cega, passiva, insensível, submissa ao primeiro que venha fazer uso dela. Além da indignidade que é depender de um policial, os negros rejeitam a indignidade que é depender das mercadorias. A juventude sem futuro mercantil de Watts, escolheu uma outra qualidade do presente, e a verdade deste presente foi tão irresistível ao ponto de arrastar toda a população, as mulheres, as crianças e até os sociólogos que se fizeram presentes. Um jovem sociólogo negro desse bairro, Bobbi Hollon, declarou em outubro no Herald Tribune: “Antes as pessoas tinham vergonha de dizer que elas eram de Watts. Elas murmuravam para dizer isso. Agora eles o dizem com orgulho. Garotos que sempre usavam suas camisas abertas até a cintura e que teriam o cortado em pedaços em uma questão de segundos, voltam aqui toda manhã às sete horas. Eles organizam a distribuição da comida. É claro, não se deve ter ilusão, eles a saquearam… Todo esse blá-blá-blá cristão foi utilizado contra os negros durante tempo demais. Essas pessoas poderiam pilhar durante dez anos e não recuperariam a metade do dinheiro que lhes foi roubado nessas lojas durante todos esses anos… Eu mesmo, não passo de uma pequena garota negra.” Bobbi Hollon, que decidiu que nunca lavaria o sangue que sujou seus sapatos durante os motins, disse que “agora o mundo inteiro olha para o bairro de Watts”.

Como que os homens fazem a história, a partir das condições preestabelecidas para dissuadir sua intervenção? Os negros de Los Angeles são mais bem pagos do que todos os outros negros nos Estados Unidos, mas lá eles estão ainda mais separados da riqueza máxima – que é exibida justamente na Califórnia – do que no resto do país. Hollywood, o polo do espetáculo mundial, se encontra na sua vizinhança imediata. Promete a eles a ascensão, tendo paciência, à prosperidade americana, porém eles veem que esta prosperidade não é uma esfera estável, mas uma escada sem fim. Quanto mais eles sobem, mais eles se afastam do topo, por partirem em desvantagem, por serem menos qualificados, sendo por isso mais numerosos entre os desempregados, e finalmente porque a hierarquia que os esmaga não é somente a do poder de compra como um fato puramente econômico: ela é uma inferioridade essencial que lhes é imposta em todos os aspectos da vida cotidiana pelos costumes e preconceitos de uma sociedade na qual todo poder do ser humano está relacionado ao poder de compra. Da mesma forma que a riqueza humana dos negros americanos é odiada e considerada um crime, a riqueza monetária não pode os tornar completamente aceitáveis na alienação americana: a riqueza individual fará apenas um negro ser rico, porque em seu conjunto, os negros devem representar a pobreza de uma sociedade de riqueza hierarquizada. Todas as testemunhas ouviram o grito que proclamava o reconhecimento universal do sentido do levantamento: “É a revolução dos negros, e queremos que o mundo o saiba!” Freedom now é a senha de todas as revoluções da história, mas pela primeira vez não é a miséria, ao contrário, é a abundância material que deve ser controlada por novas leis. Controlar a abundância não é somente modificar a distribuição, é redefinir todas as orientações superficiais e profundas. É o primeiro passo de uma luta imensa, de implicações infinitas.

Os negros não estão isolados na sua luta. Uma nova consciência proletária (a consciência de não ser o senhor de sua atividade, de sua vida) está se iniciando na América entre camadas sociais que recusam o capitalismo moderno, e que por isso se assemelha à luta dos negros. A primeira fase da luta dos negros foi justamente o sinal de uma contestação que se expande. Em dezembro de 1964, os estudantes de Berkeley, frustrados com a sua participação no movimento pelos direitos civis, foram levados a fazer uma greve que colocou em causa o funcionamento desta “multiversidade” da Califórnia e, a partir daí, de toda a organização da sociedade americana, que os destinam um papel passivo. E logo são descobertas na juventude estudantil as orgias da bebida ou da droga e a dissolução da moral sexual que antes eram imputadas aos negros. Esta geração de estudantes inventou desde então uma primeira forma de luta contra o espetáculo dominante, o teach in, uma forma que foi retomada pelos estudantes da universidade de Edimburgo, no dia 20 de outubro, a propósito da crise da Rodésia.  Essa forma de luta, evidentemente primitiva e impura, é o momento da discussão dos problemas que recusa se limitar no tempo (academicamente), e que também procura ir até o fim, sendo que este fim é naturalmente a atividade prática. Em outubro, dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas de Nova York e Berkeley contra a guerra do Vietnã, se juntando aos gritos dos amotinados de Watts: “Saiam do nosso bairro e do Vietnã!”. Na medida que os brancos se radicalizam, a famosa fronteira da legalidade é ultrapassada: são dados “cursos” de como fraudar os exames do recrutamento militar (Le Monde de 19 de outubro de 1965), são queimados diante das redes de TV as carteiras de reservista. Na sociedade da abundância, o desgosto por esta abundância e pelo preço que ela custa encontram expressão. O espetáculo é enlameado pela atividade autônoma de uma camada avançada que nega seus valores. O proletariado clássico, na própria medida em que tinha sido possível provisoriamente o integrar no sistema capitalista, não havia integrado os negros (vários sindicatos de Los Angeles recusavam os negros até 1959). Mas agora os negros são o polo da unificação para todos que recusam a lógica desta integração ao capitalismo, nec plus ultra de qualquer integração prometida. E o conforto nunca será confortável o bastante para satisfazer aqueles que buscam aquilo que não é possível encontrar no mercado, aquilo que o mercado precisamente eliminou. O nível alcançado pela tecnologia dos mais privilegiados se torna uma ofensa, mais fácil de exprimir do que a ofensa essencial da reificação. A revolta de Los Angeles é a primeira da história a poder se auto-justificar argumentando a falta de um ar condicionado durante uma onda de calor.

Os negros americanos têm o seu próprio espetáculo, sua própria imprensa, suas próprias revistas, suas próprias estrelas, e desta forma eles o percebem e o vomitam como espetáculo falacioso, como expressão de sua indignidade, uma vez que eles o veem como espetáculo de minoria, um simples apêndice de um espetáculo geral. Eles percebem que esse espetáculo de seu consumo desejável é uma colônia do espetáculo dos brancos, vendo então mais depressa a mentira da totalidade do espetáculo econômico-cultural. Querendo efetivamente desde já participar da abundância, que é o valor oficial de todo americano, eles exigem a realização igualitária do espetáculo da vida cotidiana na América, exigem que se ponha à prova os valores semi-celestiais, semi-terrestres desse espetáculo. Entretanto, é da essência do espetáculo não ser realizável imediatamente nem igualitariamente mesmo entre os brancos (os negros exercem justamente a função de uma perfeita caução espetacular desta desigualdade estimulante na corrida à abundância). Quando os negros exigem ao pé da letra o espetáculo capitalista, eles rejeitam nesse instante o próprio espetáculo. O espetáculo é um ópio para escravos. Ele não tenciona ser levado ao pé da letra, mas ser seguido um passo atrás (se não houver esse pequeno atraso, a mistificação se revela). De fato, nos Estados Unidos, os brancos são hoje em dia os escravos da mercadoria, e os negros, seus negadores. Os negros querem mais do que os brancos: esse é o âmago de um problema insolúvel, ou solúvel apenas com a dissolução desta sociedade branca. Por isso os brancos que querem se libertar da sua própria escravidão devem se associar à revolta dos negros, não como afirmação de cor, evidentemente, mas como recusa universal da mercadoria, e em última análise, do Estado. A defasagem econômica e psicológica dos negros em relação aos brancos permite que eles vejam aquilo que é o consumidor branco, e desta forma o justo desprezo que eles têm pelo branco se transforma em desprezo por todo consumidor passivo. Os brancos que também rejeitam este papel só terão alguma chance se unificarem cada vez mais sua luta à luta dos negros, descobrindo eles mesmos suas motivações e sustentando até o fim as que forem coerentes. Se a sua convergência se romper diante da radicalização da luta, um nacionalismo negro que condenaria cada lado a se enfrentar segundo os mais velhos modelos da sociedade dominante se desenvolverá. Uma série de mútuos extermínios é um outro quadro a que se pode chegar a partir da situação atual, uma vez que a resignação não pode mais ser mantida.

As tentativas de se construir um nacionalismo negro, separatista ou pró-africano, são sonhos que não podem dar uma resposta à opressão real. Os negros americanos não possuem pátria. Na América, eles estão em casa e alienados, como os outros americanos, porém sabendo que o são. Dessa forma, eles não são o setor atrasado da sociedade americana, mas sim o setor mais avançado. Eles são a negação em ação, “o lado negativo que produz o movimento propulsor da história ao constituir a luta” (Miséria da Filosofia). A África não tem nada a ver com isso.

Os negros americanos são o produto da indústria moderna da mesma forma que a eletrônica, a publicidade e o ciclotron. E eles carregam contradições. São os homens que o paraíso espetacular deve ao mesmo tempo integrar e repugnar, de forma que as suas demandas terminam por fazer confessar completamente o antagonismo entre o espetáculo e a atividade dos homens. O espetáculo é universal como a mercadoria. Mas devido ao mundo da mercadoria ser fundado sobre uma oposição de classes, a mercadoria é ela mesma hierárquica. A obrigação da mercadoria – e portanto do espetáculo que informa o mundo da mercadoria – de ser ao mesmo tempo universal e hierárquica, leva a uma hierarquia universal. Mas pelo fato desta hierarquização ter que permanecer inconfessa, ela se traduz em valorizações hierárquicas inconfessáveis, porque irracionais, no mundo da racionalização sem razão. É esta hierarquização que cria racismos em toda parte: a Inglaterra trabalhista acaba de restringir a imigração das pessoas de cor, os países industrialmente avançados da Europa estão se tornando racistas novamente ao importarem seu subproletariado da zona mediterrânea, levando a cabo uma exploração colonial dentro de suas fronteiras. E a Rússia continua anti-semita uma vez que ela continua a ser uma sociedade hierárquica na qual o trabalho deve ser vendido como ma mercadoria. Como a mercadoria, a hierarquia se recompõe sempre sob novas formas e se ampliando: quer entre o dirigente do movimento operário e os trabalhadores, ou mesmo entre proprietários de dois modelos de carros artificialmente distintos. Esta é a tara original da racionalidade mercantil, a doença da razão burguesa, doença cujo legado é a burocracia. Entretanto o revoltante absurdo de certas hierarquias, e o fato de que toda a força do mundo da mercadoria salte cega e automaticamente à sua defesa, leva a se enxergar, desde o momento que começa a prática da negação, o absurdo que são todas as hierarquias.

O mundo racional produzido pela revolução industrial libertou racionalmente os indivíduos de seus limites locais e nacionais, ligando-os em escala mundial. Mas o seu contra-senso é tê-los separado novamente, segundo uma lógica oculta que se exprime em ideias insanas, em valorizações absurdas. A estranheza cerca por todos os lados o homem tornado estranho ao seu mundo. O bárbaro não está mais nos confins da Terra, ele está aqui, constituído em bárbaro devido justamente à sua participação forçada nesse mesmo consumo hierarquizado. O humanismo que cobre tudo isso é o oposto do homem, a negação de sua atividade e de seu desejo: é o humanismo da mercadoria, a benevolência da mercadoria para com o homem que ela parasita. Para aqueles que reduzem os homens aos objetos, os objetos parecem ter todas as qualidades humanas, e as manifestações humanas reais se convertem em um resultado de uma inconsciência animal. “Eles começam a se comportar como um bando de macacos em um zoológico”, pôde assim afirmar William Parker, o policial humanista de Los Angeles.

Quando “o estado de emergência” foi proclamado pelas autoridades da Califórnia, as companhias de seguro lembraram que elas não cobriam os riscos neste tipo de situação: isto é, na situação que vai além da ordinária sobrevivência. Os negros americanos, de forma geral, não têm sua sobrevivência ameaçada – pelo menos se eles se mantiverem bem comportados – e o capitalismo tornou-se bastante concentrado e imbricado no Estado para distribuir “assistência” aos mais pobres. Mas pelo simples fato de eles estarem na traseira do processo de ampliação da sobrevivência socialmente organizada, os negros colocam os problemas da vida, sendo a vida o que eles reivindicam (e não a sobrevivência). Os negros não têm pertences para por no seguro: eles têm que destruir todas as formas de segurança e de seguros privados conhecidos até hoje. Eles surgem como o que realmente são: os inimigos irreconciliáveis – certamente não da maioria dos americanos – mas do modo de vida alienado de toda a sociedade moderna. O país mais avançado industrialmente apenas nos mostra o caminho a ser percorrido em todos os lugares, caso o sistema não seja derrubado.

Certos extremistas partidários do nacionalismo negro, na tentativa de demonstrar que eles não devem aceitar nada menos do que um Estado separado, expuseram o argumento de que a sociedade americana mesmo lhes reconhecendo um dia toda a igualdade civil e econômica, não chegaria jamais, no plano individual, a admitir o casamento inter-racial. Esta sociedade americana deve portanto desaparecer, na América e no mundo inteiro. O fim de todas as formas de preconceito racial, assim como o fim de tantos outros preconceitos ligados às inibições em matéria de liberdade sexual, se encontra evidentemente além das fronteiras do próprio “casamento”, além das fronteiras da família burguesa, muito abalada entre os negros americanos, que reina tanto na Rússia quanto nos Estados Unidos como modelo de relações hierárquicas e de estabilidade de um poder herdado (dinheiro ou posição sócio-estatal). Se diz corretamente já a algum tempo que a juventude americana, após trinta anos de silêncio, surge como força de contestação, que ela encontrou a sua revolução espanhola na revolta negra. Dessa vez, é preciso que seus “batalhões Lincoln” compreendam todo o sentido da luta na qual eles se engajam e a apoiem totalmente no que ela tem de universal. Os “excessos” de Los Angeles não foram um erro político dos negros, assim como a resistência armada do POUM em Barcelona, em maio de 1937, não foi uma traição à guerra antifranquista. Uma revolta contra o espetáculo se situa no plano da totalidade, porque – mesmo que eclodisse apenas no distrito de Watts – ela é um protesto do homem contra uma existência desumana, porque ela começa no plano do único indivíduo real e porque a comunidade, da qual o indivíduo revoltado está separado, é a verdadeira natureza social do homem, a natureza humana: a superação positiva do espetáculo.

 

Internacional Situacionista, dezembro de 1965

 

 

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