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Leia o prefácio da edição brasileira de Péplum, de Blutch

Por Rogério de Campos*

Quando Péplum estreou nas páginas da revista (À Suivre), em 1996, Blutch ainda não era “o herói de uma geração de quadrinistas franceses” , a “figura inspiradora e intimidadora para toda uma geração de autores” , o “Mozart da bande dessinée” . Tinha 28 anos e era visto como um jovem astro em ascensão. Seus quadrinhos de humor na Fluide Glacial eram comparados a Buñuel, seu traço era comparado ao de Will Eisner, ou ao de Morris (Lucky Luke) ou ao de Jean-Claude Forest (Barbarella)… Tinha já publicado alguns livros, pela própria editora da Fluide Glacial e também pelas pequenas porém influentes editoras Cornélius e L’Association. Mas estar na (À Suivre) era um passo à frente. Afinal, a revista da Casterman (uma das mais tradicionais editoras francesas, fundada no século XVIII) era a mais respeitável dos quadrinhos europeus, publicava Hugo Pratt, Tardi, Moebius… Em geral, as HQs eram lançadas na (À Suivre) em capítulos, que depois eram reunidos em um consagrador álbum da Casterman.

O plano para Péplum era ser uma adaptação do Satíricon, o romance satírico criado por Petrônio por volta do ano 60 da Era Cristã. Como do livro de Petrônio só sobreviveram fragmentos, Blutch pretendia fazer uma adaptação bem livre, que, por exemplo, imaginasse o que haveria nos trechos perdidos. Mas a liberdade sempre quer mais liberdade, e Blutch foi além. O texto de Petrônio aparece, mas na boca de personagens diferentes, em situações diferentes, com outros significados. Os protagonistas de Satíricon (Encólpio, seu amante Ascilto e o servo Gitão) quase desaparecem. Enquanto no original a história acontece nos tempos de Nero (que reinou de 54 a 68 d.C), Péplum acontece quase cem anos antes, no momento em que a República romana aproxima-se de seu fim, na época em que Júlio César foi assassinado (15 de março de 44 antes da Era Cristã), e é na representação que Shakespeare faz desse assassinato, na peça Júlio César, que Blutch encontra Públio Cimbro. Na peça de Shakespeare, Públio Cimbro é apenas mencionado, como desculpa que os conspiradores usam para se aproximar e assassinar César. Um personagem sem corpo. Em Péplum, como se verá, também o nome Públio Cimbro se descola de seu corpo.

Mas Shakespeare está longe de ser o único colaborador recrutado por Blutch. A figura da mulher congelada, por exemplo, vem de um balé dos anos 1950, criado por Roland Petit. O rosto dela vem da Dama de Auxerre, uma pequena estátua grega do Museu do Louvre, e seu corpo é o de uma escultura egípcia. Diversos elementos foram inspirados na já bem livre adaptação que Fellini fez de Satíricon; outros vêm de filmes de Pasolini (Gaviões e Passarinhos, Medeia, O Evangelho Segundo São Mateus) ou de Orson Welles (Otelo, Falstaff). E também o balé de Diaghilev, as rochas da Sicília e até mesmo Robert Crumb! E um general romano é criado à imagem do ator Michael Caine. “Quando acho algo que posso usar, eu pego”, diz Blutch, “coisas maravilhosas fazem a gente querer roubá-las” .

Hoje é fácil dizer que foi Péplum o principal passo para Blutch ser consagrado em 2009 com o Grand Prix de Angoulême, pelo conjunto da obra. Este livro é um marco, não apenas na carreira de Blutch, mas na história dos quadrinhos europeus contemporâneos. Mas em 1996 isso não estava tão claro. Na verdade, ainda que a Casterman tenha aprovado o projeto e as primeiras páginas de Péplum, ela ficou perdida diante do que veio depois. Talvez a editora tenha se iludido pelo título: péplum é o nome de certa vestimenta leve usada na antiga Roma e também o nome do subgênero cinematográfico de aventuras ingênuas levemente baseadas em episódios da antiguidade. Gladiadores, legionários, imperadores cruéis e pervertidos, e os cristãos, como refeição de leões. Os filmes péplum (também chamados de “espada e sandália”) faziam muito sucesso nos anos 1950 e 1960.

A partir de certo ponto, os editores da (À Suivre) passaram a pressionar Blutch para que resumisse a história. Cortaram as páginas que não tinham diálogos. Tal edição em nada ajudou a tornar a história mais “fácil”.

Blutch rejeita com veemência a ideia de que seja um autor “difícil”: “O que tento fazer é bastante simples e nada intelectual. Nas minhas histórias tento destacar a ação”. E é verdade: Péplum tem piratas, feiticeiras, legionários, perseguições, fugas, roubos e muitas lutas… Mas o ritmo narrativo, por exemplo, é muito diferente do que era habitual nas bandes dessinées. É interessante comparar Péplum com outra obra-prima dos quadrinhos inspirada na Roma Antiga, o álbum Polonius, que Jacques Tardi criou em 1977. Em Polonius a história acontece em apenas 46 páginas, então cada página tem que contar muito, e seu ritmo narrativo, que é bem mais lento que o das tiras de aventuras dos anos 30 ou 40, é muito mais rápido que o de Péplum.

Além do mais, Blutch não se esforça em deixar claras as motivações de cada personagem. A ambiguidade é um objetivo.

Então vem o que parecia ser o golpe fatal: a Casterman anunciou que não estava mais interessada em transformar Péplum em álbum. Blutch fala com outras das grandes editoras, mas nenhuma quer o livro. Na opinião de Jean-Louis Gauthey, amigo de Blutch e editor da Cornélius, a Casterman cometeu uma traição: “Foi muito cruel o que aconteceu. As outras editoras chegaram à conclusão: ‘se a Casterman não quer fazer, é porque o livro certamente tem um problema’” .

Mas talvez possa se dizer que houve ali uma crise de gerações, o choque entre editores habituados com o formato tradicional de publicação dos quadrinhos (em revista e depois em álbuns que em geral têm 48 páginas, coloridas) e os jovens autores da nouvelle bande dessinée, que irão privilegiar o lançamento já em livros, em preto e branco, com mais de 100 páginas. Significativamente, a (À Suivre) deixou de ser publicada em 1997.

Gauthey insistiu com Blutch que Péplum deveria ser publicado por uma grande editora, mas Blutch decidiu lançar o livro na editora do próprio Gauthey. A Cornélius era na época uma editora bem pequena, com tiragens minúsculas feitas em serigrafia. O resto, como se diz, é história. O sucesso de Péplum foi tamanho que a própria Cornélius deslanchou de vez em seu caminho para se tornar uma das mais importantes editoras da bande dessinée contemporânea.

Mesmo assim, é preciso admitir que este livro talvez frustre aquele leitor que espera a versão resumida e simplificadora de um clássico, como as de tantos tediosos gibis paradidáticos. Frustrará também os que procuram mais um retrato da decadência romana, com calientes cenas de pansexualismo que tanta revolta hipócrita causam nos moralistas cristãos, sempre tão lascivos. Importante dizer que Blutch não julga seus personagens. Em certo sentido, julga menos até que o cínico Petrônio. Cenas que são motivos de riso por parte de Encólpio e seus amigos, Blutch trata-as com delicadeza. Em vez de condenar ou rir da diferença, Blutch se encanta por seu mistério: “Satíricon é completamente obscura, fantasmagórica, fervilhante, convulsiva, brutal… e inacabada, com suas elipses, seus finais abruptos e inesperados. Em tudo oposta à reconstituição hollywoodiana da Antiguidade. É uma espécie de óvni literário vindo da quarta dimensão. E é esse livro que determinou o espírito e o estilo da história em quadrinhos”. Assim, não há como discordar de Vivien Bessiéres quando ele diz: “Se Péplum não respeita a letra do romance, respeita seu espírito (…) Blutch trai Petrônio como Fellini também traiu ao fazer seu filme… para ser mais fiel a ele. Qual fidelidade? Fidelidade à satura, como mistura de narrativas, de gêneros, de estilos e de registros, e como sátira do mundo contemporâneo: Péplum representa um mundo outro, onde as figuras do Pai e da autoridade não mais existem, onde as sexualidades alternativas põem abaixo o modelo heterossexual dominante, um mundo muito distante do gênero péplum ao qual o título retorna como forma de se distanciar criticamente” .

Péplum é um óvni vindo da quarta dimensão.

*Rogério de Campos é editor, tradutor e escritor. É autor de Imageria – o nascimento das histórias em quadrinhos, O Livro dos Santos, Super-Homem e o Romantismo de Aço e Revanchismo.

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