• Endereço: Rua Araújo, 124, 1º Andar, São Paulo
  • Tel.: +55 (11) 3211-1233
  • Horário: Seg. à Sex., das 9h às 19h.

Compartilhe

Leia o prefácio de Reanimator, de Juscelino Neco.

Por Rafa  Campos Rocha *

A literatura popular fantástica – principalmente aquela produzida entre o final do século XIX e os anos 1930 do século XX –, em que pese sua enorme contribuição temática e imagética à cultura popular, cinematográfica e quadrinística dos anos que se seguiram, costuma ser de baixa qualidade artística. Isso, é claro, não tem importância.

Drácula, apesar de ser um romance verboso e desconjuntado, moralista e piegas, ajudou a gerar o maravilhoso Nosferatu, de Murnau; e os belos desenhos de Gene Colan, ainda que acompanhados dos sofríveis textos de Marv Wolfman. Frankenstein, de Mary Shelley, mesmo contando com uma real, verídica e correta denúncia feminista da destrutiva misoginia patriarcal, ainda é, esteticamente, muito inferior à versão do mesmo monstro, em quadrinhos, de Dick Briefer.

Na verdade, o que faltava em capacidade técnica à literatura fantástica popular, sobrava em temperatura e relevância. Se a escrita em si podia escorregar em pedágios para a alta cultura, como adjetivos absurdos e citações históricas fora de contexto, as premissas de seus autores lançaram as bases do imaginário do século XX, que continuam valendo para o século XXI. Afinal, aristocratas literalmente sanguessugas, brutamontes russoninanos com tendências racistas e golens criados in vitro são todas ideias geniais, quase anônimas, extraídas diretamente do caldo de preconceitos, medos supersticiosos e esperanças desesperadas do homem comum. Ao saber captar essa energia social e canalizá-la em um produto, autores como Stoker, Burroughs e Shelley deram voz a si mesmos e ao seu tempo, dando aquele passo que separa a arte individual da cultura. Resumindo, eles levantaram muita bola para artistas mais talentosos que eles enfiarem no gol. Na pintura, aconteceu algo semelhante quando as cafonices pueris de Dalí e outros surrealistas prepararam o terreno e inspiraram artistas muito superiores, como Pollock e Crumb.

Lovecraft por Wagner Willian, na galeria de artistas convidados de Reanimator

Contudo, a verificação histórica da baixa qualidade artística de várias obras fundamentais da literatura fantástica dos últimos 120 anos não a torna, como um todo, inferior. Exemplo disso é o romance realista do século XIX, que de resto é tão ficcional quanto qualquer texto fundador da cultura ocidental, da Ilíada ao Novo Testamento. Artistas como Baudelaire e seu herói, o americano Poe, estão entre os maiores artistas de todos os tempos; e os animais falantes de Kipling não devem nada à busca de Flaubert pela literatura pura. O gênero não faz a qualidade da arte. Mas havemos de convir que os chipanzés de Kipling fazem os poetas de Lovecraft parecerem símios furiosos; e o corvo de Poe faz os vilões de Howard parecerem galinhas descerebradas.

Ou seja, em qualquer meio ou linguagem, existem bons e maus artesãos. Sem falar nos migliore fabbri – para usar um termo caro a Pound: os melhores artesãos, os intelectuais orgânicos da linguagem. Em outras palavras, os artistas. O artista, como o “intelectual orgânico” gramsciano, é o profissional que pensa a sua profissão em um amplo espectro; seu lugar na ordem das coisas e no tempo histórico. Seu desenvolvimento como atividade autônoma e seu lugar no mundo.

Lovecraft não era sequer um grande artesão, mas isso também não importa, como o rock e, mais que ele, o punk rock, provou inúmeras vezes. Um artista menos dotado é perfeitamente capaz de fazer uma obra mais oportuna, historicamente falando, do que um virtuose incapaz de pensar sua própria profissão em termos amplos. Mas isso também não era o caso de Lovecraft, um artesão obviamente limitado e um artista incapaz de seguir as veredas que ele mesmo abria a golpes desajeitados de marreta. Sua dificuldade técnica fica ainda mais evidente em Reanimator, uma de suas obras menos felizes, mas capaz de gerar tantas pérolas pelas mãos de artistas mais dotados que o próprio, como o quadrinista Juscelino Neco.

Juscelino é um caso peculiar do quadrinho nacional: geograficamente isolado, evitou se unir a cenários específicos do quadrinho “independente” ou, um nome ainda mais infeliz, “autoral”. Seu desenho lascivo, voluptuoso – e não estou falando do tema, estou falando do traço –, desenvolve-se sem exibicionismos inúteis por páginas de diagramação simplificada e textos totalmente voltados para o núcleo do enredo. Neco usa o conto de Lovecraft como tábula rasa para o desenvolvimento de sua linha sinuosa, da mesma forma que Manet usava os vasos de flores para exibir sua pincelada sensual e que parece untar a tela com tinta a óleo.

 

Juscelino também concretiza algumas intuições de Lovecraft melhor que ele mesmo, como os desfechos escatológicos – no sentido bíblico – de dissolução das diferenças sociais em um todo cósmico e randômico. Apesar da aparente entropia da narrativa, ele acredita em uma escatologia redentora, tipicamente cristã, na qual somente a descida pelas pernas cabeludas do instinto pode levar a uma elevação, uma verticalização do desejo no sentido de realização máxima; a união com o todo e a dissolução definitiva da unidade individualizada. Evito propositadamente a palavra ego, destruída pelas malditas iniciativas do anarquismo individualista burguês, que cafetina as buscas espirituais do Oriente para justificar seu próprio egoísmo classista. Que morram todos.

Voltando a Juscelino, sua catequese escatológica é permeada da mesma violência dos escritos luteranos, depois calvinistas, depois jacobinos, depois bolcheviques e anarcossocialistas dos séculos passados, nos quais a purificação pelo fogo e o fanatismo eram a via para a destruição da ditadura espiritual, social e econômica. E eu não conheço artista bom que seja moderado. O grande artista é necessariamente um fanático e um otimista. Um sonhador de uma utopia possível, ainda que seja regada de sangue dos inimigos do povo. Juscelino sangra a sociedade individualista de consumo com o ódio dos revolucionários. Depois, faz dançar seu pincel sobre a enorme poça de sangue dessa burguesia desqualificada, tal como a garça acima dos açudes.

 

 

* Rafa Campos Rocha é escritor, artista plástico, quadrinista e pesquisador de quadrinhos. É autor de Lobas (Veneta, 2016) e Deus aos Domingos (Veneta, 2018), entre outros.

PRODUTO RELACIONADOS

            

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Clique aqui
Olá, deixe sua mensagem em caso de dúvidas.

Nosso horário de atendimento é das 10:00 às 18:00.

Obrigado
Powered by