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Leia o prefácio da edição brasileira de Marcuse em Quadrinhos, de Nick Thorkelson

Por Angela Y. Davis

Escrevo este prefácio em maio de 2018, em Paris, no momento em que estudantes e trabalhadores franceses fazem manifestações, sit-ins e ocupações com o objetivo de protestar contra os ataques do governo Macron aos direitos trabalhistas e contra as novas restrições ao acesso à educação superior. Esses protestos refletem uma consciência crescente das desigualdades estruturais profundas no Norte global – especialmente para pessoas de cor, imigrantes do Sul e, em geral, comunidades pobres de trabalhadores que sofrem os efeitos do capitalismo global.

Como acentuando o significado da publicação neste ano desta biografia em quadrinhos, Herbert Marcuse, Filósofo da Utopia, essas manifestações em Paris coincidem com o aniversário de cinquenta anos das manifestações de estudantes e trabalhadores em 1968, com as quais suas ideias utópicas foram historicamente associadas. Por acaso, Marcuse estava de fato em Paris durante os protestos de 1968, participando, ao lado de Lucien Goldmann e outros, de uma conferência da UNESCO sobre Marx. Os estudantes que haviam ocupado a École des Beaux Arts o reconheceram quando caminhava de volta da conferência para o hotel e o convidaram para falar na assembleia. Quando ele falou, trouxe saudações do movimento que se desenvolvia nos Estados Unidos e, segundo Andrew Feenberg, que o acompanhava, elogiou os estudantes por suas críticas ao consumismo capitalista 1.

Em 1968, fui aluna de Herbert Marcuse na graduação na Universidade da Califórnia, em San Diego, e todos nos beneficiamos de seu profundo conhecimento das tradições filosóficas europeias e do modo destemido como ele manifestava sua solidariedade com os movimentos que se opunham à agressão militar, à repressão acadêmica e ao racismo generalizado. Marcuse sempre nos aconselhava a reconhecer as importantes diferenças entre os domínios
da filosofia e do ativismo político, assim como as complexas relações entre teoria e transformação social radical. Ao mesmo tempo, ele nunca deixava de nos lembrar que a dimensão mais significativa da filosofia era seu elemento utópico. “Quando a verdade não pode se realizar dentro da ordem social estabelecida, ela sempre parece para esta como mera utopia” 2. Em um momento em que as novas gerações de estudiosos e ativistas refletem sobre o papel dos intelectuais no desenvolvimento dos movimentos radicais desta era, acredito que as ideias de Marcuse podem ser tão valiosas hoje quanto eram cinquenta anos atrás.

Pouco antes da morte de seu antigo colega da Escola de Frankfurt, Theodore W. Adorno, Marcuse debateu duramente com ele o significado do movimento estudantil. O principal ponto dessa então intensa discussão foi
a justificativa de Adorno para o fato de ter chamado a polícia em resposta à ocupação do Instituto de Pesquisa Social. Ao criticar essa confiança de Adorno na polícia, Marcuse insistiu que, “se a alternativa é a polícia ou os estudantes de esquerda, então estou com os estudantes[…]. Ainda acredito que nossa causa […] será melhor encampada pelos estudantes rebeldes do que pela polícia” 3. Marcuse enfatizaria que mesmo rejeitando a “tradução imediata da teoria em práxis”, ele reconhecia que a teoria podia ser acelerada pela práxis e que, embora o ativismo estudantil do período não estivesse ocorrendo dentro de uma situação revolucionária, nem mesmo, ele insistia, “pré-revolucionária”, exigia o reconhecimento de novas possibilidades de emancipação 4. O ativismo estudantil trouxe, ele disse, o necessário ar fresco quando o mundo parecia sufocar. “É o ar que nós[…] também queremos respirar
um dia, e certamente não é o ar do establishment5.

Embora Marcuse nem sempre concordasse com algumas táticas específicas dos movimentos radicais daquela época, ele era bastante claro quanto à extensão em que as demandas pelos direitos dos negros, pela paz, pela justiça
de gênero e pela reestruturação da educação representavam importantes tendências emancipatórias da época, e, de fato, ajudaram a levar a teoria em direções progressistas. Seu Ensaio sobre a libertação e Contrarrevolução e
revolta, assim como sua palestra na Universidade Stanford em 1974, sobre Marxismo e Feminismo, oferecem evidências de seus esforços para se envolver diretamente com ideias associadas aos movimentos do período 6.

Sua referência ao “socialismo feminista” nesse último ensaio previu a importante influência do feminismo anticapitalista e antirracista em muitos movimentos contemporâneos, entre os quais o do abolicionismo penal, as
campanhas contra a violência policial e pela justiça para portadores de deficiências. A dimensão explicitamente utópica do pensamento de Marcuse atraiu jovens intelectuais e ativistas durante a histórica conjuntura que associamos aos levantes de 1968. Cinquenta anos depois, ao confrontarmos as persistentes globalidades da escravidão e do colonialismo, as ideias de Herbert Marcuse continuam a revelar lições importantes. A insistência em imaginarmos futuros emancipatórios, mesmo sob as circunstâncias mais desesperadoras, permanece – como nos ensina Marcuse – um elemento decisivo tanto da teoria quanto da prática.

 

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1 Andrew Feenberg, “Remembering Marcuse”, in Herbert Marcuse, Philosophy, Psychoanalysis and Emancipation, Collected Papers of Herbert Marcuse, vol. 5, Douglas Kellner e Clayton Pierce (orgs.) (Londres: Routledge, 2011), pp. 235-6

2 Herbert Marcuse, “Philosophy and Critical Theory”, traduzido para o inglês por Jeremy J. Shapiro, in Negations: Essays in Critical Theory (Boston: Beacon Press, 1968), p. 143.

3 Herbert Marcuse, em Theodor W. Adorno e Herbert Marcuse, “Correspondence on the German Student Movement”, tradução para o inglês de Esther Leslie, New Left Review I/233 (janeiro-fevereiro de 1999), p. 125.

4 Ibid. Marcuse também escreveu a Adorno: “Você me conhece bem o suficiente para saber que rejeito a tradução imediata da teoria em práxis, tão enfaticamente quanto você. Mas acredito que haja situações, momentos, em que a teoria é levada adiante pela práxis – situações e momentos em que a teoria que se mantém separada da práxis se torna falsa para si mesma.” Marcuse, “Correspondence”, p. 125.

5 Ibid.

6 Ver Herbert Marcuse, An Essay on Liberation (Boston: Beacon Press, 1969); Herbert Marcuse, Counterrevolution and Revolt (Boston: Beacon Press, 1972); e Herbert Marcuse, “Marxism and Feminism”, Women’s Studies 2.3 (1974), pp. 279-288.

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