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“Livro de Jó” é um conto inédito de Marcello Quintanilha.

Aplicar o armlock. Esquecer o frenesi do público. Esmerilhar aquele braço. O direito,  porque esse mar de sangue embaçando a vista de Susana foi culpa da direita, não da esquerda. A
esquerda é rápida, mas ainda não fizera tanto estrago.

O armlock trituraria a língua da adversária… Braço, Susana quer dizer. Braço. Língua nada mais era que o órgão acionado por Dira Leviatã para ridicularizá-la pela internet antes da luta.
Como foi mesmo? “Tem que bater muito pra consertar aquela cara de pia entupida que ela tem, nada pessoal.”. Por isso não daria a Dira o gostinho de imaginar que lhe arrancara o mordedor com um swing no finalzinho do 2º round. Não senhora. Ela mesma é que o cuspira fora, por vontade própria, até porque não se afetara nem um pouco com as chamadas na imprensa, nem com a hashtag #piaentupidatemconserto. Mostraria a Dira que Dira é muito boa abrindo as canhanha pra jornalista, mas que no octógono quem manda é ela, Susana Tomahawk, 32 lutas, 32 vitórias, 30 por nocaute, campeã da porra toda, e que no 3º round ela pode perfeitamente bloquear o braço de Dira a hora que ela quiser, já que não conseguira levar Dira para o chão. Quer dizer, “não conseguira”, não…! É que ela não quis mesmo, percebe? Porque, se quisesse, já teria pintado e bordado montada em Dira. Mas se a sirigaita tem medinho de rolar, então também não tem problema, ela assimila fácil outro direto de esquerda. E outro. E outro. Só esperando a hora certa de guentar aquele braço e…

Antes de ser Tomahawk, Susana rebocou muito chumaço de cana em lombo de burro. Quando mudou para São Paulo, viu como o trabalho no eito havia transformado seus músculos. Não
ia ser nenhuma morta de fome do Capão Redondo, com meia dúzia de combates no currículo que ia tirar dela o cinturão ganho à base de sangue, suor e lágrimas. Sobretudo sangue. E suor. E lágrimas.

Ao voltarem as luzes, Susana esteve a ponto de encrespar com o juiz por permitir aquela multidão em cima do ringue, urrando, abraçando e parabenizando Dira, e levantando o kimono com
o nome Leviatã debruado atrás. E para que tanto microfone encoxando Dira de repente?

Serginho, seu treinador, lhe jogou a bata sobre os ombros. Susana respirou:
— Não esquenta, não, Serginho, assim que esse povo descer, essa bruaca não vai ter mais onde se esconder.

 

* Marcello Quintanilha nasceu em 1971, em Niterói. Atualmente mora em Barcelona. Pela Veneta, é autor de Tungstênio (2014), vencedor do premio Angoulême, Talco de Vidro (2015), Hinário Nacional (2016), Todos os Santos (2018) e Luzes de Niterói (2019). Recentemente, lançou seu primeiro romance, Deserama (2020).

Confira também a HQ Arbítrio, outra história feita pra revista Internazionale.

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