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*por Marcelo D’Salete

O Quilombo dos Palmares carrega uma série de interpretações em nossa história. Nunca foi um fato hegemônico, fora de questionamentos. No século XIX, os historiadores do Brasil imperial viram Palmares como um “problema” relevante a ser “extirpado” da colônia portuguesa. Os pesquisadores do século XX, a partir de novos documentos, muitos dos quais encontrados em fontes portuguesas, reabilitaram Palmares em seu contexto maior, com seus personagens (além de Zumbi), principais fatos, formas de organização e estratégias.

Palmares não era mais um ruído dentro do contexto colonial, mas uma articulação original e contundente contra o sistema colonial escravista português. Vale lembrar que, sem o debate público gerado pelo movimento negro moderno nas últimas décadas, provavelmente Palmares ainda seria apenas um tópico estudado em cursos acadêmicos restritos. O movimento negro, com seus pesquisadores, artistas e articuladores, vem transformando Palmares merecidamente num dos principais fatos do Brasil do século XVII, culminando no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Assim como antes, entretanto, essa é ainda uma narrativa em disputa e construção.

Neste texto, seguem algumas pequenas observações relevantes sobre a história de Palmares e seu imaginário no século XX. Esses breves comentários surgiram no momento de elaboração do livro Angola Janga a partir da leitura de obras históricas, da apreciação de imagens e filmes, da conversa com colegas, pesquisadores e outros interessados.

Palmares, Zumbi e outros personagens

 

Obra presente na Praça da Sé, em Salvador, da artista plástica Márcia Magno

As narrativas ficcionais sobre Palmares são formas ricas de repensar a história. Essas obras, ao recontar e repensar os documentos, são relevantes justamente por tecer outras possibilidades de compreensão dos fatos. A partir da ficção, podemos vislumbrar novas e instigantes interpretações, nem sempre possíveis nos trabalhos históricos.

A infância de Zumbi ainda é algo pouco conhecido nos documentos, mas sua liderança em Palmares a partir de 1680 é relatada pelos historiadores em diferentes registros. Entre os diversos conflitos, é sabido que ele sobreviveu ao assalto final contra o forte de Palmares em 1694. Traído, foi assassinado em 20 de novembro de 1695 na serra Dois Irmãos, em Viçosa, Alagoas.

É preciso lembrar que os mocambos de Palmares existiram antes e depois de Zumbi. Ou seja, a história de Palmares e seus diversos personagens é maior do que Zumbi, e não o contrário.

Para além de Zumbi, há muitos outros personagens que merecem tratamentos mais profundos. Podemos destacar figuras como Ganga Zumba, Ganga Zona, Camoanga, Mouza e uma mulher importante denominada “Rainha de Palmares” (infelizmente sem maiores descrições nos documentos). Do lado dos soldados luso-brasileiros, temos a imagem complexa de Fernão Carrilho, personagem responsável por ganhar importantes conflitos em 1677, o que resultou no acordo de paz de Cucaú. O mesmo personagem, na década de 1680, foi preso e, pasmem, acusado de negociar terras com os palmaristas. Outro personagem importante desse período foi Inojosa. Segundo Luiz Felipe de Alencastro, o soldado lutou em batalhas dos dois lados do Atlântico, em Angola e no Congo, e depois contra os palmaristas da Serra da Barriga. A partir da perspectiva colonialista portuguesa, havia muito sentido em utilizar táticas militares parecidas, e de sucesso, em todo o Atlântico Sul.

Não podemos esquecer que Palmares é contemporâneo das diversas batalhas entre portugueses e brasileiros em Angola e no Congo, no século XVII, envolvendo inclusive o famoso império da rainha Nzinga em Matamba. Também falta situar melhor a participação do terço dos Henriques contra Palmares. O terço foi formado inicialmente como uma milícia de homens negros e pardos contra os holandeses. Após esse conflito, foi direcionado para os conflitos de Palmares e, em alguns casos, serviu como articulador de possíveis acordos de paz. Como podemos ver, ainda há diversas chaves possíveis para compreender e acessar Palmares.

Palmares nas artes visuais

 

Pintura de Antônio Parreiras, 1927

A única imagem do século XVII atribuída a Palmares é o fragmento de um mapa das antigas capitanias no nordeste brasileiro. A composição mostra um grupo de pessoas trabalhando próximo de um pequeno barco. No lado esquerdo da imagem, podemos observar uma torre (atalaia) usada para vigiar os arredores. O mapa explicita a necessidade de controle do território contra os ataques externos e todo o contexto bélico da região.

No século XVIII e XIX Palmares é citado por diferentes historiadores, mas não conhecemos imagens atribuídas ao conflito feitas nesse período. Somente em 1927, Antônio Parreiras irá pintar, ao que parece, a primeira representação de Zumbi. Altivo, empunhando um arcabuz, o personagem traz os contornos de uma grande liderança. Parreiras explora algo já presente na literatura da época sobre Zumbi e Palmares: a força e engenhosidade de um “inimigo” ímpar do império português.

Clóvis Moura e Álvaro de Moya realizaram em 1955 um quadrinho sobre os intensos conflitos da Serra da Barriga, intitulado Zumbi. O sociólogo Clóvis Moura, notável intelectual, percebeu o enorme potencial dos quadrinhos em levar a narrativa de Palmares para um público mais amplo. O artista Álvaro de Moya elaborou os desenhos. Sua estratégia de composição gráfica da página, com muitos recordatórios e balões, apresenta o conflito final de Palmares em cerca de 40 páginas, com destaque para Zumbi.

Antônio Krisnas e Allan Alex publicaram o seu Zumbi em 2002. Uma narrativa com desenhos em cores, muito dinâmica e que se aproxima do gênero de aventura e dos conhecidos super-heróis. Recentemente, Carlos Ferreira e Moacir Martins elaboraram uma narrativa muito visual e arrojada sobre Palmares. A obra explora os personagens principais da trama, como Zumbi, Ganga Zumba e Domingos Jorge Velho em uma relação bem construída em termos de imagem, composição e texto. Este trabalho ainda não foi publicado.

Há outros quadrinhos, de menor extensão, sobre Palmares. Observar as estratégias de cada artista em interpretar esse momento é relevante para compreender Palmares e o Brasil do século XVII. Mais do que isso, é um modo oportuno de perceber as nuances sobre Palmares e seus personagens no imaginário gráfico do século XX e XXI.

 

Quadrinho Zumbi, de Clóvis Moura e Alvaro de Moya

Mapa da Capitania de Pernambuco com representação de Palmares (1647), por Frans Post

Palmares no cinema

 

O filme Quilombo (1984), de Cacá Diegues, talvez seja a narrativa mais popular e difundida sobre Palmares. A obra traz grandes atores do período, como Tony Tornado, Zezé Motta, Zózimo Bulbul, Léa Garcia, Antônio Pompêo, Grande Otelo, Antônio Pitanga, Maurício do Valle, Vera Fischer etc., e as maravilhosas músicas de Gilberto Gil e Waly Salomão.

O diretor já havia tratado o tema em Ganga Zumba (1963), embora o foco deste seja a resistência e a fuga de escravizados na Capitania de Pernambuco. Não há cenas dos mocambos. O filme Quilombo levou em consideração a obra ficcional de João Felício dos Santos (Ganga-Zumba) e textos históricos de Edson Carneiro, Décio Freitas, entre outros. Embora seja interessante ver o filme ainda hoje, vale atentar para alguns detalhes.

A referência aos orixás na obra cinematográfica é diferente do contexto histórico, visto que a maioria das pessoas em Palmares era de origem banto da região de Angola – o nome dos mocambos atesta isso, assim como os dados do tráfico do site Slave Voyages. A religião dos orixás é certamente relevante na cultura afro-brasileira hoje, mas não no Brasil do século XVII, visto que grande parte das pessoas de origem iorubá chegou forçadamente ao Brasil em meados do século XVIII.

Com as pesquisas que temos hoje (pensando nos estudos de Robert Slenes, Tiganá Santana, Nei Lopes e muitos outros), é possível compreender um pouco mais profundamente os traços religiosos, linguísticos e culturais das diversas culturas de procedência centro-africana. Entender esse universo é fundamental para evitar encaixar toda experiência religiosa afro apenas em uma forma de culto, por mais que ela seja relevante. Hoje podemos vislumbrar entender uma África mais complexa e vasta, entre os inquices angolanos, os orixás, os voduns do Benin e mesmo os contatos e as negociações muito antigos com cristãos e muçulmanos.

Outro ponto é Dandara, figura que ganhou relevo em muitas recriações ficcionais de Palmares. Ela está presente no romance de João Felício, mas ausente dos trabalhos históricos sobre Palmares. O equívoco não está na imaginação e poética de João Felício e Cacá Diegues, mas talvez em certa distância do público entre as obras ficcionais e os trabalhos históricos. Entender as particularidades dessas duas formas de discurso poderia colaborar na compreensão das possibilidades de cada linguagem.

Ainda sobre Dandara, indico o texto “Dandara: ficção ou realidade?”, de Nei Lopes (citado pela Ana Flávia Magalhães Pinto).

Palmares na música

 

Uma das primeiras músicas sobre Palmares talvez seja da Orquestra Afro-Brasileira, criada por Abigail Moura, lançada no segundo álbum do grupo, de 1968. Esta é uma obra forte e melancólica sobre a destruição dos mocambos da Serra da Barriga: “Adeus Palmares”. Jorge Ben Jor, em 1974, anunciava nos versos “Eu quero ver quando Zumbi chegar” toda a potência revolucionária de um Palmares próprio do imaginário do movimento negro dos anos 1970. Em festas de família, esses versos foram meus primeiros contatos com uma visão artística vigorosa de Palmares.

Em 1983, o ganga Nei Lopes cantou o samba-enredo “Palmares, a epopeia de Zumbi”, indicando ali a resistência contra o poder colonial escravista. “E de repente, era um, eram dez, eram milhares / Sob as asas azul da liberdade, nascia o estado de Palmares”. Mussum também inventou e brincou ao cantar sobre os dissidentes de Palmares. Em uma obra um tanto inusitada para o contexto da época, ele ousou pensar Palmares para além dos conflitos e batalhas.

Gilberto Gil fez alguns dos versos mais oníricos e belos sobre Palmares na trilha sonora do filme Quilombo, de Cacá Diegues. Uma produção muito poética sobre os mocambos. “Quilombo / Que todos tiveram de tombar, amando e lutando”.
No rap, Thaíde & DJ Hum vincularam diretamente sua ascendência aos guerreiros de Palmares em “Afro-brasileiro”, do álbum Preste atenção, de 1996 (marcando os trezentos anos do assassinato de Zumbi): “seja escuro e verdadeiro”.

Por sua vez, Chico Science & Nação Zumbi, um dos grupos mais originais dos anos 1990, alinharam Palmares a outros conflitos populares pela América: “Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os panteras negras / Lampião, sua imagem e semelhança / Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia”. O grupo Z’África, em 2002, versou uma música longa e detalhada sobre os conflitos envolvendo palmaristas, paulistas e senhores de engenho. “O grande reino negro tornou-se poderoso / Não subestime a força de Palmares”.

Mais recentemente, ainda em versão rap, Dugueto Shabazz e o Thiago Elniño seguiram uma linha semelhante ao entrar na pele dos palmaristas para cantar “Eu vou para Palmares” ou “Eu vou para Angola Janga”. Fora esses, é possível citar muitos outros que já entoaram Palmares, como Leci Brandão, Céu, Carlinhos Brown, Lenine etc.
Vale lembrar que, em 1694, pouco antes da queda do principal forte de Palmares, em Macaco, os palmaristas tocaram e cantaram tão forte que sua música podia ser ouvida ao longe: “em toda aquela noite estiveram grandes bailes e folia e grande alarida, com o seu rústico instrumento de atabaques” (em relato de 1694). Estamos vivos. E a capacidade de recriar Palmares resiste em toques, versos e sonhos.

Orquestra Afro-Brasileira

Nei Lopes
Jorge Ben
Z’África
Dugueto Shabazz
Chico Science & Nação Zumbi
Gilberto Gil
Thaíde & DJ Hum
Céu
Leci Brandão
Thiago Elniño
Mussum
Skowa e a Máfia

Clique aqui e confira a playlist no Spotify.

Outros quilombos hoje

 

Em 1694, após a destruição do principal mocambo de Palmares, Macaco, as tropas coloniais massacraram e escravizaram pessoas, mas também houve a dispersão de muitos outros palmaristas pela região da Serra da Barriga, em Alagoas. Alguns anos depois, novas lideranças despontaram, retomando a tática de guerra do mato e o uso de pequenos mocambos pela serra.

O livro Mocambos e quilombos: uma história do campesinato negro no Brasil, de Flávio dos Santos Gomes, é um trabalho interessante para a compreensão panorâmica dos diversos quilombos antigos na história do Brasil. A estratégia de buscar refúgio, abrigo, articulação e revide a partir da organização em mocambos foi usada de norte a sul do país, em diferentes momentos. Nos séculos XVIII e XIX floresceram quilombos como Piolho (GO), Jabaquara (SP), Urubu (BA), Limoeiro (MA), Kalunga (GO), Ambrósio (MG), Oitizeiro (BA), entre muitos outros. Cabe dizer que, ao que parece, o contexto dos muitos quilombos, antigos e contemporâneos, é algo bem pouco abordado em nossa ficção, seja na literatura, no cinema ou nos quadrinhos.

Séculos depois, passando pelo império e pela república, ainda temos muitas comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil. Cada uma com sua história, especificidades, e onde, geralmente, a relação com o território é um ponto em comum. O professor Rafael Sanzio Araújo dos Anjos fez mapas muito pertinentes sobre quilombos contemporâneos nas últimas décadas. A certificação e a regularização das terras quilombolas, bem como o acesso a condições dignas de vida, trabalho, moradia, escolas, assistência médica etc. (o que deveria ser garantido desde a Constituição de 1988), ainda é um desafio .

Vale conhecer, hoje, em Alagoas, a comunidade de Muquém, certificada pela Fundação Palmares, que reivindica ter sido formada por dissidentes de Palmares. Como é possível ver, a história dos mocambos da Serra da Barriga continua ecoando possibilidades no imaginário de indivíduos e comunidades do Brasil atual, no campo e na cidade.

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* Marcelo D’Salete é professor, ilustrador e quadrinista. Estudou design gráfico, é graduado em artes plásticas e mestre em história da arte. Pela Veneta, publicou os quadrinhos Encruzilhada, Cumbe (vencedor de um Eisner),  e Angola Janga – uma história de Palmares (vencedor dos prêmios Jabuti e HQ Mix). Também é ilustrador da nossa edição do Discurso Sobre o Colonialismo, de Aimé Césaire.

Do mesmo autor:

         

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Referências
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