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Amigo pessoal de Aimé Césaire, o ensaísta e ativista angolano Mário Pinto de Andrade escreveu este prefácio para a primeira edição portuguesa do Discurso Sobre o Colonialismo.  Você encontra aqui nossa edição do clássico de Césaire, com tradução de Claudio Willer e ilustrações de Marcelo D’Salete

 

 

Eis uma obra que dispensa o olhar dos prefaciadores. Moldado no estilo vulcânico de que o poeta Aimé Césaire possui o segredo, o Discurso é tão transparente que sua substância só se presta a uma interpretação: trata-se do processo dos valores da Europa capitalista, responsável por um odioso empreendimento etnocidário – a colonização; e, nesta perspectiva, é o requisitório mais virulento que um escritor negro jamais lançou, com tamanho talento, ao rosto dos opressores. Talvez convenha precisá-lo desde já: o autor dirigia-se aos intelectuais burgueses que pretendiam representar então a consciência liberal, mas também a todos os militantes convictos, do outro lado da barricada, na revolta nacionalista. Foram estes últimos, como se verá mais adiante, que melhor utilizaram este livro explosivo.

Se me permito a intrusão destas quantas páginas, prevalecendo-me dos laços de amizade que há vinte anos me ligam a Césaire, é para recordar aos leitores que vão descobrir o Discurso Sobre o Colonialismo na sua versão portuguesa, as circunstâncias e o contexto histórico em que este brulote foi aceso. Escrito inicialmente como um artigo, pedido ao autor por uma revista efêmera que estava longe de arvorar ideias progressistas, o texto foi objeto de uma primeira edição em 1950 e de outra, revista e aumentada, cinco anos mais tarde 1. Inscrevia-se repentinamente no âmago do principal acontecimento que, no amanhã da segunda guerra mundial, modelava o devir dos povos saqueados pela História, a saber: a reconquista da identidade, materializada pela luta de libertação nacional.

Situado no próprio terreno duma certa intelligentsia europeia, lá onde ela pretendia ser a única a julgar os homens, a valorizar as culturas e a compreender as sociedades, Césaire compõe este discurso (no sentido literal do termo, como era entendido no sécul0 XVIII), para expor e, no caminho, pulverizar a falaciosa argumentação dos grandes pontífices do saber “universal”.

Abordando os mais diversos domínios. culturais – literatura, política, etnologia, filosofia – ele revela e desmascara o racista que se ignora ou o moralista de generosas intenções colonizantes.

Mas situemos, entre as duas edições da obra, um texto da mesma veia, publicado em 1954: O Colonialismo não Morreu 2. Trata-se de uma vasta e brilhante ilustração dos primeiros postulados enunciados no Discurso. Auxiliado por numerosos exemplos colhidos nos testemunhos de colonialistas ferrenhos (Albert Sarraut), dos grandes pioneiros (Marechal Bugeaud, Coronel de Montagnac, Conde d’Hérisson), de administradores (Vigne d’Octon), de escritores (Pierre Loti), e apoiando-se, em contra-ponto, na denúncia de deputados africanos (Boganda) pronunciada em sessões da Assembleia da IV República, Césaire faz desfilar diante dos olhos dos leitores o vasto frescor dos horrores da dominação francesa na África, em Madagáscar, na Indochina e nas Antilhas. Tudo isso permite apreender melhor a essência do colonialismo que, segundo a sua demonstração, se reveste de dois aspectos: o de um “regime de exploração desenfreada de imensas massas humanas que tem a sua origem na violência, e só se sustenta pela violência”, e o de uma “forma moderna de pilhagem”. Sendo o genocídio a lógica normal, o colonialismo é  o portador do racismo 3. E é nesta gigantesca catarse colectiva que o colonialismo desciviliza simultaneamente o colonizador e o colonizado.

A condenação da civilização europeia foi irrefutável. Ao que sei, ninguém, entre os jornalistas da época se arriscou a responder ao panfleto, ainda que de natureza polêmica. Contentaram-se, aqui e ali, em catalogar Césaire entre os negros praticantes do racismo reverso ou pregadores do regresso ao passado nostálgico das tradicionais civilizações africanas…

As páginas mais rigorosas de Aimé Césaire sobre o colonialismo articulam-se, pois, como um momento de extrema intensidade dramática para os povos colonizados. Enraizam-se na trama dos acontecimentos que nessa época faziam a história da Ásia e da África, sobretudo através dos revolucionários vietnamitas, do A.D.A. (Assembléia Democrática Africana) e da F.L.N. da Argélia. Muito mais: exprimem o pensamento dos nacionalistas revolucionários. Por toda a parte onde comunidades de colonizados (especialmente nos países negro-africanos) se viam confrontados com a necessidade profunda de dizer a verdade das lutas populares, estes textos eram assimilados como a fonte nutridora da revolta, a alavanca da consciência anticolonialista. Essa é a razão porque o Discurso se tornou uma arma preciosa no combate ideológico, o livro vermelho dos militantes, fossem eles professores primários, jovens, funcionários, sindicalistas ou intelectuais.

O impacto deste livro tão breve quanto incisivo provinha do fato de, na opinião dos militantes, ir direito ao essencial: a experiência do colonizado. Penetrar no essencial do colonialismo, significava, ao mesmo tempo, desmontar os mecanismos de exploração do sistema, desvendar as contradições do pensamento burguês na matéria, mas também indicar as vias que permitiam triunfar sobre “esta vergonha do século xx”.

Ora, neste último aspecto, se nos atermos exclusivamente ao Discurso, a visão do autor pode parecer, hoje, marcada por um certo idealismo. Ele admite-o sem reservas. É certo que Césaire estigmatiza sem rodeios os limites históricos atingidos tanto pelo sistema colonial como pelo capitalismo e lança o grito de alarme contra a eventual disposição dos colonizados “prontos para corre o grande risco ianque”. Mas, adotando o ponto de vista do partido ao qual então pertencia (o Partido Comunista Francês), o escritor, ao concluir a sua exposição, dirige-se à outra Europa nestes termos:

“De modo que, se a Europa Ocidental não assumir, na África, na Oceania, em Madagascar, ou seja, às portas da África do Sul, nas Índias Ocidentais, ou seja, às portas da América, a iniciativa de uma política de nacionalidades, a iniciativa de uma nova política baseada no respeito pelos povos e pelas culturas; garanto: se a Europa não galvanizar culturas moribundas ou produzir novas culturas; se ela não despertar pátrias e civilizações (isso sem deixar de levar em conta a admirável resistência dos povos coloniais, que agora está brilhantemente simbolizada pelo Vietnã, mas também pela África da RDA105), a Europa terá perdido sua última chance e, com as próprias mãos, puxará sobre si mesma a mortalha das trevas.”

Sobre este ponto, o pensamento político de Aimé Césaire merece ser clarificado e sobretudo atualizado, à luz dos seus escritos posteriores. Há quem argumente que o Discurso não insiste suficientemente na dinâmica do fator nacional criada pelos movimentos de libertação. Césaire vai justamente aprofundar uma noção pela qual se baterá no terreno concreto: o direito à iniciativa histórica dos povos, ou em outros termos, o direito à personalidade.

Na sua célebre intervenção no primeiro Congresso dos Escritores e Artistas Negros, nessa febril sessão na tarde de 20 de Setembro de 1956, o poeta, tirando a conclusão sobre as relações entre a situação colonial e a cultura, defende a necessidade militante dos intelectuais se comprometerem na via da libertação do demiurgo, ou mais claramente, na luta popular de libertação nacional.

“Soou a hora de nós mesmos” – acrescentaria, um mês depois, para bem mostrar que, em breve, a tomada da iniciativa seria total. Ou ainda: “Só a África pode revitalizar, repersonalizar as Antilhas”. Ora, a tomada de consciência nacional manifestou-se nas Antilhas – sob a dominação francesa – na luta contra o estatuto de departamentalização, da mesma maneira que as nações africanas se constituíram no decorrer da luta contra o colonialismo e no período que se seguiu à ascensão e à consolidação dos Estados independentes. Com efeito, a coesão psíquica engendrada pelo afrontamento direto do sistema colonial ganhou relevo com o efeito integrador veiculado pelo fator político-ideológico. E é por essa razão que o Partido de Césaire (o Partido Progressista Martinicano) foi o primeiro a proclamar a Martinica como nação.

De tal forma que o postulado da iniciativa precisou-se no pensamento de Césaire e tomou o mesmo sentido que Amílcar Cabral formulou nesta noção: o direito dos povos, em situação colonial, de terem a sua própria história 4.

Voltando ao Discurso Sobre o Colonialismo, somos devedores de Césaire por ter levado ao tribunal dos povos os mistificadores do nosso destino comum e do nosso ânimo reestablecido na vibração vaga dos movimentos de libertação nacional. Um sinal de fidelidade à África e muito além, à universalidade – de toda a fome e sede humanas. Aimé Césaire, sempre presente nas mutações da África, saúda-nos:

“da minha ilha longínqua

da minha ilha em vigília

eu vos digo Hô!

Vejo a África múltipla e una

vertical na sua tumultuosa peripécia

com os seus refegas, os seus nódulos um pouco à parte, mas ao alcance

do século, como um coração de reserva”5

Mário Pinto de Andrade, Maio de 1976

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1 Jean-Paul Sartre pronuncia-se no mesmo sentido: “De fato, a colonização não é uma mera conquista – como foi, em 1850, a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha- é, necessariamente, um genocídio cultural: não se pode colonizar sem liquidar sistematicamente os traços particulares da sociedade indígena ao mesmo tempo em que se nega aos seus membros que se integrem na Metrópole e se beneficiem das suas vantagens.” Le Génocide. Artigo in Les Temps Modernes. Dezembro de 1967.

2 “A libertação nacional de um povo é a reconquista da personalidade histórica desse povo, é o seu regresso à História, pela destruição da dominação imperialista a que esteve sujeito”. Fundamentos e objetivos da libertação nacional em relação com a estrutura social, in A arma da Teoria. Seara Nova. 1976.

3 Pour saluer le tiers-monde, in Ferrements, Éditions du Seuil. 1960.

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