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Por Sirlene Barbosa*

 

Há 107 anos, em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, em Minas Gerais, veio ao mundo Carolina Maria de Jesus, Bitita, a menina que sabia que não passaria “em branco”.

Em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro, a vereadora Marielle Franco, outra mulher negra, e seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados.

Foram mulheres que não souberam se portar? Falaram demais? Gritaram demais? Denunciaram demais?

Carolina morreu no esquecimento, não foi enterrada como a grande escritora de Quarto de despejo. Ela foi morrendo aos poucos. conforme deixou de ser uma novidade “exótica” para a classe média branca. Foi abandonada pelo establishment cultural e morreu em Parelheiros, em 13 de fevereiro de 1977, há 44 anos.

Carolina disse, em seus livros, entre muitos temas, que o Brasil não era o país da democracia racial. Apresentou, de forma detalhada, o abismo social brasileiro.

Marielle denunciou, filmou, gritou e foi calada… na bala.

Há três anos, ainda pedimos justiça pelo assassinato da vereadora.

Por isso que não tivemos muito para comemorar neste 8 de março do pior ano para se viver, sobretudo no Brasil, em que a pandemia da Covid-19 segue completamente descontrolada.

Poucos dias antes do Dia das Mulheres, numa quarta-feira chuvosa, numa sala de Educação de Jovens e Adultos (EJA) ocupada apenas por mulheres, em que eu era a professora, iniciamos um bate-papo sobre experiências de vida, que acabou desembocando em um tema conhecido por todas: abuso. Naquela sala, todas as mulheres já haviam sofrido algum tipo de abuso sexual. Eram mulheres negras, moradoras da periferia, mães-solos, trabalhadoras e chefas de família.

Em minha experiência como professora, em todos os meus quase 40 anos de vida, nunca ouvi tantas mulheres me contarem que foram violentadas.

Em um trecho de Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus diz que as vizinhas não suportavam o fato de ela não ter um homem, ao que ela responde: “eu vou virar pandeiro de homem?” e “que homem há de querer dividir cama com mulher que tem debaixo do travesseiro lápis e papel?”.

Em Bitita, obra póstuma, Carolina cita um momento em que seu avô, homem que ela tanto admirava, inclusive por sua inteligência, bate na companheira porque esta aceitou um trabalho e comprou a farinha de que ele tanto gostava. Ela apanhou porque trabalhou e não o avisou e porque saiu de casa sem sua permissão, mesmo tendo comprado algo que o agradava. Nesse momento, a narradora afirma que prefere ser como as meretrizes, pois estas têm liberdade, usam o vestido e o batom que quiserem, elas simplesmente vivem.

 

Carolina foi mãe-solo de três filhos, chefa de família, vivia na insegurança alimentar,

TO-
DOS
OS
DI-
AS,

E, ainda assim, à noite, após um pesado dia de trabalho, no barraco onde vivia com os filhos, ela escrevia.

As estudantes citadas nesse texto, depois de toda a labuta e inseguranças diárias, vão à escola à noite estudar. Adoram dizer que são livres, que os filhos estão criados e “deus me livre de homem, professora. Homem? Só pra dar uns beijinhos, mas na minha casa, não”.

As estudantes, as Carolinas e as Marielles ainda estão por aí.

 

*Sirlene Barbosa é coautora da HQ Carolina (Veneta, 2016), em parceria com o roteirista e artista João Pinheiro, professora de língua portuguesa da Prefeitura de São Paulo e doutoranda em Educação (FEUSP) – pesquisa relações étnico-raciais na educação básica das escolas municipais de São Paulo

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