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Por Marcello Quintanilha.

 

Nunca mais Roberta iria interferir quando viessem roubar a clientela esparramada pelas mesas do Hotel Colón, na praça em frente à catedral de Barcelona. Nunquinha. Mas isso é que não. Não depois de ter suportado aquela cigana que vivia rondando a área lhe ameaçando com o gesto de rasgar a garganta com o polegar, dizendo uma coisa ininteligível, que acabava em “foi” ou algo parecido, só para receber uma descompostura da inglesa gengivuda, a quem Roberta devolveu o laptop que acabara de resgatar.

— Hey! What the hell are you doing with my…?!

Roberta tentou explicar-lhe em inglês macarrônico que a peça havia sido subtraída às expensas de sua britânica distração e que não marcasse bobeira porque…

— I didn’t give you permission to touch this! — replicou a mulher, erguendo-se para ir reclamar na recepção.

Que imaginaria? Que Roberta se apossara do computador para uso particular e agora o devolvia cinicamente, e não que arriscara a própria vida em uma luta quase corporal com a ladrona para recuperar um bem que nem era seu enquanto ela afogava 275 pounds de vassalagem à dinastia de Windsor em gin tônica e batatas fritas?!

A verdade é que Roberta esperava um pouco mais de apoio da gerência do estabelecimento:

— A ver, Roby,… A ser posible, no vuelvas a acercarte a la señora Utterson, de la habitación 408, ¿de acuerdo? Que lo de coger a los ordenadores de los huéspedes sin permiso esta muy mal, ¿eh? A ver si no nos vas a dar un disgusto por haberte contratado…

— Señor Cuesta, pero si yo…

Não. Não houve maneira de que o superior entendesse exatamente o que havia ocorrido… Aparentemente o castelhano de Roberta não era menos macarrônico que seu inglês naquela época, sem mencionar o catalão.

Pois a partir de então, veriam só se valia ou não valia seu salário de garçonete. Restringiria-se tão somente a empanturrar as mesas e, ao primeiro gringo que reclamasse que havia sido furtado, perguntaria apenas se o cavalheiro achava que ela tinha cara de policial por acaso; se no país do distinto não havia roubo. Paciência. Já estava batizado. Adeus às pregas. Ou, em outras palavras: foda-se.

Só que Roberta tinha dessas coisas, desses arroubos. Sei lá… Vai ver que foram os anos de Vila da Penha, no Rio de Janeiro, antes de emigrar para a Catalunha…

No que a cigana voltou a circular pela terraza, Roberta já ficou alerta, rastreando-a dissimuladamente, preparada para dar o bote assim que a gatuna fizesse das suas. “Foi”, Roberta lembrava… A única coisa que mais ou menos captara do que a mulher — relativamente obesa, mas ágil como uma faísca — lhe atirara na cara ao perder a posse do laptop. “Vamos ver quem ‘foi’ dessa vez, querida”, pensava.

E, então, aconteceu. No instante em que a ladra esticava o braço furtivamente para surrupiar um celular emborcado para fora da mochila mal afivelada de um japonês, a luz do sol raiou em Roberta como se um Pentecostes fosse celebrado exclusivamente em seu nome. Não era “foi” o que ouvira da última vez… Era “estoy”. Estoy… Roberta era agora capaz de recordar a frase completa, em alto, puro e cristalino idioma hispânico, carregado de sotaque romeno: “Oye, guapa, que tu estarás trabajando, pero yo también estoy…!”. Estacou petrificada. Observou a cigana extrair o celular da mochila do rapaz, concentrado na edição do La Vanguardia, e sumir no alvoroço das cercanias da catedral.

Roberta respirou fundo, esperou que o cliente virasse mais uma página do jornal, ajeitou o peso dos copos na bandeja, e foi atender outra mesa.

 

 

 

* Marcello Quintanilha nasceu em 1971, em Niterói. Atualmente mora em Barcelona. É autor de Tungstênio (2014), vencedor do premio Angoulême, Talco de Vidro (2015), Hinário Nacional (2016), Todos os Santos (2018) e Luzes de Niterói (2019). Recentemente, lançou seu primeiro romance, Deserama (2020).

Confira também o conto Livro de Jó, outra história feita pro nosso blog.

 

 

 

 

 

 

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