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Leia o prólogo da HQ Pinturas de Guerra, do espanhol Ángel de la Calle.

Por Paco Ignacio Taibo II*

Você está prestes a adentrar um dos romances gráficos mais brilhantes que já li na vida. E sigo me perguntando: por que ele precisa de um prólogo? Em alguma outra parte deste livro haverá uma nota biográfica que conta de onde vem alguém com um nome tão impossível como Ángel de la Calle; não é necessário oferecer contextos, porque este livro é o contexto; não é necessário explicar influências, porque este livro é uma alusão contínua que nos leva à Pont Neuf da Paris cortaziana e nos incita a ler O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, a rever À bout de souffle (Acossado) ou a nos perguntarmos onde estão escondidos em nossa biblioteca os manifestos de Guy Debord.

Trecho de Pinturas de Guerra

Estas notas de abertura são, portanto, absolutamente dispensáveis, e você pode pular direto para o que importa: Pinturas de Guerra. Como defini-las? São histórias da história. Algumas histórias totalmente desconhecidas que constroem o panorama de uma terrível tragédia (e a palavra “terrível” deveria ser lida em maiúsculas e repetida indefinidamente) e a epopeia de uma geração de pintores que cruza as nações da América Latina. Os anos 1960, 1970, os anos da revolução e dos sangrentos golpes militares, as discussões sobre a vanguarda estética, os exílios asfixiantes. E tudo isso com um ponto de chegada: Paris.

Mas o que torna Pinturas de Guerra genial é o manejo preciso dos códigos narrativos, permitindo que dezenas de personagens e suas histórias se juntem em uma história central: um agente da CIA, seu homólogo do serviço secreto francês que se envolveu na guerra suja contra a Argélia, uma pintora chilena, um pintor tupamaro, um sobrevivente mexicano do massacre de Tlatelolco, um pintor montonero argentino. Todos eles se reencontram em uma Paris de data incerta, graças ao engano que um jovem espanhol comete quando chega à cidade para escrever uma biografia de Jean Seberg, a princesa amaldiçoada do cinema estadunidense.

O personagem, um Ángel de la Calle que nunca existiu, cruza com todas essas histórias e todas essas questões.

Ángel sabe que, afinal, um romance gráfico é essencialmente um romance, e um romance (o pai de todas as guerras literárias) é uma peripécia que une mil histórias e um tempo, do qual um dos personagens dirá: “Nós que acreditávamos ser o país e éramos apenas a paisagem”.

Não se deixe enganar por esta nota (bom, eu disse que você poderia dispensá-la). Ángel organiza o caos: continuidades, retornos ao passado, narrativas em primeira ou terceira pessoa, cartas, eventos que vêm e vão no tempo, subtramas policiais (como a existência de um falsificador de arte); e mescla personagens reais, como Juan Goytisolo, Jean-Paul Sartre, os situacionistas, e os diretores franceses da nova onda do cinema com seus personagens ficcionais, que, às vezes, são mais reais que os primeiros. E, ao narrar, tudo é permitido: onirismo, digressões laterais e laterais da lateral, ou ir do realismo ao realismo mágico, por exemplo, nas maravilhosas páginas da fuga de Barragán após o massacre de Tlatelolco com Van Paalen, onde eu estava prestes a pensar que o avião que o tirava do México era pilotado por Malraux ou Saint-Exupéry.

 

Trecho de Pinturas de Guerra

 

Conforme adentro Pinturas de Guerra, submerjo na complexidade de uma época, ecos de velhas discussões chegam até mim, começo a ver rostos e debates esquecidos. E temos de agradecer a Ángel por suas paisagens urbanas, suas constantes recriações de pinturas, fotos e murais, seu amor pelos detalhes, sua capacidade literária de concentrar a história em um sapato perdido…

Fico surpreso com a lentidão com que leio, captando detalhes, desfrutando de subentendidos, revisitando uma página, tentando entrelaçar a história com lembranças, questionando-me.

Nada como o romance para criar um mundo e, quando digo romance, às vezes me refiro ao romance gráfico.

Pinturas de Guerra reivindica o meu amor pelos quadrinhos, essa linguagem única que não é a soma de partes (a escrita e o desenho), mas algo indefinível que serve para contar histórias.

Fazia meses que não me deparava com uma obra que muda a vida, que a melhora. Mas por que você tem que ligar para o que eu digo? Se chegou até aqui, avance uma página e compartilhe com quem agora escreve do prazer de ler um grande romance. Afinal de contas, somos leitores e é no caminho que avançamos.

 

Cidade do México, junho de 2015

 

* Paco Ignacio Taibo II é escritor, jornalista e ativista espanhol radicado no México. Escreveu as biografias de Che Guevara e Pancho Villa, entre muitas outras obras. É diretor do Fondo de Cultura Economica mexicano.

 

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