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“Vivre et en finir avec le mépris de la vie”, de Raoul Vaneigem, foi publicado originalmente no site La Voie du Jaguar, em 4 de maio de 2021. Segundo as palavras do autor, transmitidas por correio eletrônico, trata-se de uma “homenagem aos mascates que, antes e durante a revolução francesa, contribuíram com modestos panfletos para a subversão do velho mundo”.

A tradução para o português e as notas são do sociólogo Erick Corrêa, co-organizador do livro 68 – Como incendiar um país, um compilado que reúne os manifestos, quadrinhos, palavras de ordem, pôsteres e músicas que fizeram a França parar em 1968. Escritor e filósofo belga, Vaneigem é um dos principais articuladores, ao lado de Guy Debord, do núcleo central da Internacional Situacionista. É provavelmente o pensador que forneceu mais frases para as pichações que cobriram os muros de Paris em 68.

Do autor, a Veneta já lançou dois títulos pela Coleção Baderna: o clássico A Arte de Viver para as Novas Gerações, e o e-book gratuito Insurgência Viral, também organizado e traduzido por Erick, que traz textos recentes de Vaneigem e do situacionista suíço Gianfranco Sanguinetti sobre a pandemia. Você pode encontrar ambos aqui no nosso site.


Regresso paródico ao passado

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

O crime contra a humanidade é o ato fundador de um sistema econômico que explora o homem e a natureza. O curso milenar e sangrento da nossa história o confirma. Depois de ter atingido picos com o nazismo e o stalinismo, a barbárie recuperou seus ornamentos democráticos. Hoje em dia, se estanca e, ao refluir como a ressaca numa passagem sem saída, se repete sob forma paródica.

É esta repetição caricatural que os gestores do presente se aplicam em encenar. Vemos como nos convidam hipocritamente ao espetáculo de uma dilapidação universal, em que se mesclam gulags sanitários, caça aos estrangeiros, matança dos velhos e dos inúteis, destruição das espécies, asfixia das consciências, tempo militarizado do toque de recolher obrigatório, fábrica da ignorância, exortação ao sacrifício, ao puritanismo, à delação, à culpabilização.

A incompetência dos encarregados não diminui de forma alguma a atração da multidão pela maldição contemplativa do desastre. Pelo contrário! Milhões de criaturas regressam obedientemente ao confessionário, onde se acovardam em posição fetal até se tornarem a sombra de si mesmas.

Os gestores do lucro alcançaram o resultado que só uma reificação absoluta poderia aspirar: fizeram de nós seres tão apavorados pela morte que renunciamos à vida.

A propagação de uma mentalidade prisional

Em nome da mentira que a propaganda chama verdade, é permitido que o tratamento político e policial substitua o tratamento de saúde que a simples preocupação com o bem comum requer. Ninguém se deixa enganar por este truque: assim, os governos dissimulam e sustentam a destruição dos hospitais públicos que a ganância os obriga a recorrer.

A raiva e a indignação não alteraram a pressão do Estado, que testa o grau de abjeção ao qual pode chegar, sem se romper, o servilismo das populações. Aos canalhas no poder, pouco importam algumas explosões corporativas e sindicais. Não serão os insultos e a execração uma forma de reconhecê-los, quando não de lhes prometer fidelidade?

Enquanto analistas e sociólogos debatem sobre o capitalismo, as ubuescas máfias onipresentes do lucro e seus palotinos 1 estatais perseguem legalmente a rentável
mortificação dos vivos. Na espera pelo próximo alarme epidêmico, são servidos aperitivos de hedonismo àqueles que correram o risco de serem vacinados com produtos cuja única eficácia comprovada se inscreve no contexto de uma economia onde a cotação na bolsa e os benefícios concorrenciais têm um papel preponderante. Louvemos os cidadãos que corajosamente se lançaram à corrida pelas melhores lixívias, na qual um branco lava mais branco do que o outro. É verdade que não sentir medo não possui o mesmo sentido se as pessoas estão dispostas a se expor a radiações e venenos que as matam. Ou se, pelo contrário, elas se insurgem contra as degradações, as erradicam e ignoram os decretos que as legalizam.

O pensamento do poder é um pensamento morto, ele dá voos rasantes sobre os túmulos. Seu odor de carniça é o cheiro do dinheiro. Ele nos sufocará enquanto o combatermos nos seus cemitérios ao invés de construirmos lugares de vida e travarmos uma guerra de guerrilha com armas que não matam – e cujo alcance é, portanto, desconhecido pelos nossos inimigos.

Como podemos tolerar por mais tempo que o medo de morrer de um vírus nos impeça de viver?

Com seus altos e baixos, a existência cotidiana não demonstra que nada restaura melhor a saúde do que a festa e o gozo? O prazer do corpo atento aos sabores, carícias e atmosferas quentes, estimula as defesas imunitárias do organismo. Nos protege contra os gritos de alarme que a dor empurra para a urgência, quando é demasiado tarde, quando o dano já está feito. Não é preciso ser um grande erudito para saber isto.

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

Nunca o crime contra os vivos foi glorificado com tal cinismo, com tamanha estupidez zombeteira. Tudo foi e está sendo feito ao contrário. Tal como a famosa dívida sem fundo nem fundamento, o abismo da pandemia engole tudo o que está ao seu alcance. As devastações da degradação climática, os efeitos mortais da poluição e dos alimentos envenenados, cancros, ataques cardíacos, agressões suicidas, distúrbios mentais, vamos lá, a sorte está lançada!

A verdade do sistema econômico dominante é a mentira que torna o mundo invertido a norma e a realidade. As máscaras encobrem o sorriso, abafam a fala, e atordoam crianças confrontadas com um familiar que se lhes torna estranho.

A maldição do trabalho se tornou uma assombração, os professores estão preocupados demais com gestos securitários para enriquecerem os seus conhecimentos e os dos outros. Nossas sociedades gangrenaram lentamente pela banalização de um comportamento obsessivo, como se denomina a angústia agressiva que se apodera dos habitantes de uma cidade sitiada. O recolhimento aterrorizado, a desconfiança e a paranóia inventam, a partir de então, inimigos internos para caçar.

Neste caso, o principal inimigo é claramente identificado: a vida e sua liberdade insolente.

Claro que estamos de longa data habituados às práticas da selva social, já que estamos confinados nela desde o nascimento. No entanto, as piores épocas de obscurantismo e despotismo absoluto mantinham uma janela aberta para outra realidade. Por mais ilusório que tenha sido, o princípio da esperança galvanizava os desejos de revolta.

A reclusão perpétua a qual a era glacial do lucro nos condena previu barreiras que aprisionam nossos sonhos. Já pensaram neste paradigma, pretensiosos ecologistas?

A grande inversão

Privados do direito à vida, que o próprio privilégio da espécie humana tornou inalienável, não temos outra escolha senão restaurá-lo e lhe assegurar uma soberania pela qual nunca deixamos de aspirar.

O princípio “nada é verdadeiro, tudo é permitido” respondeu, durante milênios, à maior preocupação do Poder hierárquico: favorecer o caos onde a recordação da Ordem justificaria e reforçaria sua autoridade. Não há nada como o espectro da anarquia, do não-poder, da desordem, para nos proteger dos baderneiros, nos empurrando para os braços securitários do Estado fora-da-lei.

No entanto, invertido e apreendido numa perspectiva de vida, o mesmo princípio assinala uma determinação radicalmente diferente. Exprime o desejo de recomeçar tudo pela base, de reinventar tudo, de reconstruir tudo nos libertando de um mundo congelado pela glaciação do lucro.

Nenhuma varinha de condão quebrará as correntes que a nossa escravidão forjou, mas gostaria muito de ver incluída no peso excessivo que lhes são atribuídas a crença – transmitida e reforçada de geração em geração – de que elas são irrefutáveis, de que nenhum esforço as pode romper.

Um verdadeiro feitiço dá credibilidade à fábula da impotência natural de mulheres e homens. Frustra de início as tentativas de emancipação que têm sido feitas ao longo da história. Há séculos que as vitórias da liberdade celebram suas derrotas, que o culto das vítimas honra a vocação sacrificial e desvanece nossas sociedades ao militarizá-las.

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

A quebra do feitiço não passa pelo “que fazer?” leninista, não procede de um desafio insurrecional. A que se devem a coerência e a racionalidade paradoxal deste feitiço universal? A uma gestão dos seres e das circunstâncias que, por muito tempo, o Poder atribuiu a uma intervenção sobrenatural. A fábula de um mandato celestial entregue pelos Deuses emprestava a um bruto ardiloso e tirânico as características temíveis de um extraterrestre, lançador de relâmpagos e feitiços.

A decapitação de Deus e de Luís XVI, último monarca de direito divino, pôs fim não ao Poder, mas ao medo de ser capturado por ele ao menor sinal de contestação.

Por mais mortífera que seja, a autoridade do Estado perdeu o que restava de sua serventia, de tão sobrecarregada por suas ridículas incontinências. A isto se junta a rebelião das mulheres que, com o seu dedo inexorável, perfuram o “mau-olhado” que o patriarcado insiste em lançar sobre elas.

O contrário de tal decadência não é menos óbvio. Um irresistível movimento de alternância se desencadeia em todo o mundo. Ele tem seu próprio ritmo e condições. O renascimento da vida marca os primeiros passos dos seres humanos numa terra da qual foram espoliados. Este ressurgimento dispensa profetas, Cassandras ou arúspices. É indiferente aos desafios, a resistência lhe é suficiente.

O capitalismo apocalíptico e o catastrofismo anticapitalista formam, como um arco elétrico, os dois pólos contrários de onde está prestes a surgir um flamejante regresso à vida.

Sob a resignação de milhões de existências condenadas à repressão e ao tédio (esse grande dissolvente de energias), se acumula uma força insurrecional que, no tempo incomensurável de um relâmpago, varrerá as nossas pequenas lutas corporativistas, políticas, competitivas e sectárias.

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

Uma revolução latente, fragmentada, parcelar e repartida procura confusamente o ponto de junção onde, numa cólera comum, o indivíduo e o coletivo reencontrarão sua lucidez e unidade.

Na época de Goebbels, o peso da mentira e a sua credibilidade tinham o peso de uma verdade, à qual a mística nacionalista e o dinamismo do capitalismo emprestavam uma coerência ilusória.

Qual é a situação atual? O dinamismo do capitão de indústria – que o foco financeiro e especulativo do capitalismo deixou para trás – já não alimenta a mínima esperança de melhoria social. As multinacionais cortam na carne as políticas protecionistas, nacionalistas e soberanistas.

A falência comprovada das grandes verdades científicas, corrompidas pelo lucro, levou à bancarrota a ideia de progresso, por muito tempo percebida como benéfica, devido ao conforto que proporcionava à sobrevivência.

Os herdeiros dos peritos que juraram que a nuvem de Chernobyl tinha evitado os belos céus da França desacreditaram irremediavelmente a comunidade científica em geral e a medicina em particular. Não sei se a autodefesa sanitária 2 irá tão longe como a auto-medicação assistida, mas não há dúvida que a relação entre paciente e prestador de cuidados dará um giro menos mecânico, menos mercantil, mais humano, mais afetivo.

Em contraste com sondagens, barômetros estatísticos e outras oficinas de opinião pré-fabricadas, a inovação e a inventividade terão rédea livre, explorando novos territórios, espalhando uma miscelânea de aberrações e criações geniais. A inteligência sensível ordenará, refinará e reconhecerá a sua própria inteligência ao recolher os dons que a natureza oferece, sem reservas nem discernimento. A inteligência sensível é a nova racionalidade.

Confiar na autonomia individual e coletiva

Sim, tenho confiança nessa inteligência sensível que durante tanto tempo foi ocultada e desacreditada pela inteligência intelectual. Como o desmoronamento progressivo da pirâmide hierárquica revela, o intelectual nunca foi mais do que o instrumento da classe superior, o espírito do mestre reinando sobre o corpo e sobre as partes inferiores da sociedade.

Sua função dirigente é exercida mesmo na corrosão crítica com que ele infesta o velho mundo para o qual trabalha. O desprezo com que ele tem julgado o movimento de “brutamontes incultos e incontroláveis” que supõe ser os coletes amarelos, desde o seu surgimento na França, é indicativo do mal-estar que o corrói. Enquanto uma parte do homo intellectualensis tenta compensar o seu erro inicial e se perdoar agitando a bandeira carcomida da “convergências das lutas”, a parte desperta da consciência revela nele, como em cada um de nós, o drama do pensamento separado da vida, da abstração que nos exila de nossa substância viva. Pois a intelectualidade é uma tara tão comum a todos e a todas quanto a divisão do trabalho e o estatuto invariável de explorado e explorador.

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

Quando apelo ao regresso à vida, à unidade do eu e do mundo, é esta parte da consciência que invoco, pois ela participa do devir humano e tem sido, desde sempre, a luz que nos guiou.

A consciência humana é este fundo de pensamento universal, a realidade mais partilhada e a mais recalcada

de nossa história. O que a interditava desmorona, o que vai lhe atear fogo – ou mesmo iluminá-la, em todos os sentidos do termo – é pouco mais do que uma faísca,

mas não vai se extinguir. Logo, porque não apostar na combustão que se

abrasa no âmago dos nossos desejos?

O renascimento da terra e do corpo faz parte dos meus sonhos. Reivindico sua loucura subjetiva. Autorizo-me a querer realizar os seus desígnios, enquanto se multiplicam, em nós e à nossa volta, os jogos do possível e do impossível.

Os militantes da esperança e do desespero têm fundamento, concordo, ao taxar de otimismo, de quimera, de fantasia, muitas das minhas ideias que contribuiriam para alimentá-los, se não as ingerissem como uma pura gororoba intelectual.

O despertar dos vivos é uma ameaça aos pequenos marqueses da ideologia. Os pontapés no rabo do Poder os atingem pela base.

A vida é uma festa, celebremos a vida

Tendo a pensar que uma consciência desperta abala o mundo mais facilmente do que uma avalanche de entusiasmo gregário. A radicalidade é uma radiação atrativa, um atalho que corta os caminhos ordinários da reflexão laboriosa.

Criar minha felicidade promovendo a dos outros está mais de acordo com a minha vontade de viver do que as lamentações da crítica-crítica, cujo muro se fecha ou, pelo menos, obscurece nossos horizontes.

Há explosões de impaciência quando eu grito de bom grado “Larguem tudo! Ao esgoto os bajuladores do dinheiro! Rompam as amarras do velho mundo, avancem a passos largos para a única liberdade que nos torna humanos, a liberdade de viver!”.

Trecho da peça “Ubu Roi“, de Alfred Jarry, dirigido por Jean-Christophe Averty, 1965

Estou ciente de que o recurso a palavras de ordem e objurgações dá mais importância ao manto da inércia do que à consciência que irá fissurá-la e quebrá-la no seu tempo. Mas nada nem ninguém me impedirá de regozijar-me com o pensamento de que não estou sozinho a apelar por um furacão festivo que nos livrará, como se de uma cólica se tratasse, dos mortos-vivos que nos governam. O regresso da alegria de viver não se importa com vingança, acerto de contas, ou tribunais populares. O sopro dos indivíduos e das coletividades passa ao lado das estruturas corporativas, sindicais, políticas, administrativas e sectárias. Evacua o progressismo e o conservadorismo, est

as encenações de um igualitarismo de cemitério, que é agora o terreno das democracias totalitárias. Abre ao individualista, amargurado pelo cálculo egoísta, as vias de uma autonomia onde a descoberta de si mesmo como um indivíduo, único e incomparável, oferece a melhor
garantia de se tornar um ser humano pleno.

O indivíduo aceita conselhos, mas recusa ordens. Aprender a retificar seus próprios erros dispensa-o das reprovações. A autonomia se inscreve no dolce stil nuovo destinado a suplantar o reino do inumano.

Deixar apodrecer o que está apodrecendo e preparar a colheita. Este é o princípio alquímico que preside à transmutação da sociedade de mercado em uma sociedade viva. Não é a aspiração de viver para além da sobrevivência que move a insurreição da vida cotidiana por toda a parte? Há nela um potencial poético que nenhum poder pode superar, nem pela força nem pela astúcia. Se a consciência demora em se abrir para tais evidências, é porque estamos habituados a não enxergar um palmo diante do nariz. Interpretamos as nossas lutas cotidianas em termos de derrotas e vitórias sem compreender que é o anel no nariz que nos
conduz ao matadouro.

Vagando entre a decomposição e o ressurgimento, adquirimos o direito de nos esquivar e de abandonar uma dança macabra, cujos passos todos conhecemos, para explorar uma vida da qual, infelizmente, só conhecemos os prazeres furtivos.

A nova inocência da vida redescoberta não é nem uma benção nem um estado edênico. É o esforço constante que exige a harmonização do viver em conjunto. Cabe a nós experimentar a aventura e dançar sobre a sepultura dos construtores de cemitérios.

 

Raoul Vaneigem
21 de abril de 2021

 

Notas:

1 Tal como Alfred Jarry designa os lacaios do Rei Ubu em sua peça de 1896.

2 Ver, do mesmo autor, o texto “Decretemos a autodefesa sanitária”, publicado no e-book gratuito Insurgência viral: autodefesa sanitária e despotismo ocidental (Veneta, 2020).

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