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Por Seham Furlan

 

Amma e Angélica Kalil, autoras de Bertha Lutz e a Carta da ONU, têm as vidas marcadas por palavras e imagens desde a infância. Quando criança, Angélica escrevia jornaizinhos e organizava apresentações no prédio onde morava. Já Amma (Mariamma Fonseca) costumava desenhar nas paredes da casa e em qualquer suporte que aparecesse pela frente.

Foi o feminismo que juntou as duas autoras. Criadora do canal de YouTube Você é feminista e não sabe, Angélica Kalil queria convidar uma mulher para criar a logomarca do projeto. Por intermédio do cunhado, chegou ao blog Lady’s Comics, pioneiro na divulgação do trabalho de quadrinistas e ilustradoras, idealizado por Amma.

Desse encontro, surgiu uma grande amizade e, até o momento, dois livros: Amigas que se encontraram na História, ganhador do Jabuti 2021 na categoria Juvenil, e, agora, Bertha Lutz e a Carta da ONU. Batemos um papo com Amma e Angélica Kalil sobre o novo livro, que inaugura em grande estilo nosso selo infantojuvenil Outra História|Oh!

Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil, segue disponível no site da Veneta e nas melhores livrarias.

 

Veneta: Como surgiu a ideia de transformar a história de Bertha Lutz em quadrinhos? Qual a importância de resgatar e apresentar essa história para jovens leitores?

Amma: Narrar essas histórias faz com que elas permaneçam vivas. Falar da Bertha, para todos os públicos, mas sobretudo para jovens e crianças, faz com que a experiência vivida por essas mulheres se conecte com eles e apresente a potência de sermos autores de nossas histórias.

É dar a possibilidade a meninas e meninos de identificar-se e entender o mundo atual por outro prisma. O mais legal nisso tudo é que cada criança ou jovem vai ler à sua maneira a história da Bertha. Mas para isso precisamos contá-la.

 

Angélica Kalil: Em 2016, li a HQ Olympe de Gouges (1), de Catel Muller e José-Louis Bocquet, sobre esta incrível personagem da Revolução Francesa e fiquei impressionada com o fato de que eu nunca tinha ouvido falar sobre ela. Por que uma figura de tal importância não está nos livros de história? Inspirada por essa leitura, eu, que venho do audiovisual – uma linguagem próxima dos quadrinhos -, comecei a fomentar a ideia de fazer uma HQ sobre alguma mulher brasileira. 

Nessa época, já conhecia a Amma, era o início de uma grande amizade, e nós começamos a amadurecer a ideia de encarar a aventura de produzir uma HQ juntas (e foi mesmo!). Quando eu fiquei sabendo que existia um documento escrito pela Bertha Lutz contando sobre o trabalho dela para incluir a palavra mulheres na Carta da ONU, achei que ali poderia ter um caminho interessante para nós. Foram alguns meses procurando por essas memórias da Bertha até ter acesso pelas mãos da historiadora Teresa Marques, da UnB.

Quando eu li, vi a HQ inteirinha, pois a linguagem da Bertha em suas reminiscências é muito visual.  Eu acho importante que as histórias das mulheres sejam contadas não apenas para crianças e adolescentes, mas para todes, de qualquer idade.

É uma forma de fazer justiça. Mostrar para o público leitor que as mulheres não foram coadjuvantes, como querem que a gente acredite, mas, sim, co-protagonistas da história, nos ajuda a ressignificar os papéis de gênero, uma das grandes questões do nosso tempo. 

No caso das crianças e adolescentes, ter acesso a versões mais completas dos acontecimentos, saber desde cedo que as mulheres também fazem história é libertador para meninas e meninos, pois abre mais janelas internas, coloca mais possibilidades de experimentar a vida e de imaginar o futuro.

Trecho de Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil

Veneta: Quais desafios destacam ao longo desse processo?

Amma: Recriar cenas históricas, trazer dinâmica narrativa a partir de um documento histórico e dar cara aos personagens que não conhecemos de perto foram alguns dos desafios para mim enquanto artista. 

Como é o meu primeiro quadrinho, tinha também a questão de criar cenários mais elaborados, mostrando a arquitetura de onde tudo aconteceu. Em alguns deles, demorei cerca de 4 horas para fazer o cenário. 

Depois que fechamos o eixo narrativo, junto com as pessoas envolvidas no projeto, tudo ficou mais fácil. Inicialmente, queria trazer para o quadrinho um traço a lápis. Acho que, quando penso em ilustrações históricas, me vem essas cores em escala de cinza. 

Gosto muito do trabalho da Isabelle Arsenault, e a HQ Jane, a raposa e eu foi uma inspiração. Depois, fui buscando um traço que ficasse confortável, já que, nos quadrinhos, existe uma repetição grande de desenhos. 

Narrativamente, eu me inspirei no conceito de livro ilustrado, no qual a imagem conta uma história que não está no texto. Há um personagem que pode passar despercebido ali na HQ, mas que faz parte da trama. 

Para isso, também pensamos que as cores poderiam ajudar. Entra aí o trabalho de colorização da Faw Carvalho, que deu mais uma camada de história para a HQ e fez tudo se encaixar perfeitamente. 

 

Angélica Kalil: Na parte prática, o grande desafio foi conseguir recursos para o projeto. Existe uma recusa em relação a obras sobre mulheres e/ou criadas por mulheres, mais ainda quando relacionadas ao feminismo. 

Só conseguimos recursos em 2020, por meio do edital do ProAc – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo.

Na parte criativa, em relação ao roteiro, o desafio foi entender melhor o contexto internacional complexo de 1945. Foi preciso aprofundar trecho a trecho escrito pela Bertha e pesquisar muito para de fato entender o que estava acontecendo em cada situação contada pela ativista brasileira. Aprendi muito, foi um trabalho incrível de fazer.

Trecho de Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil

Veneta: Ao longo da HQ, tomamos conhecimento de que algumas mulheres foram opositoras às “lutas que beneficiam elas próprias”. Como foi conhecer e retratar as contradições de tais personagens?

Amma: Ficamos um pouco em dúvida sobre como colocar. As pessoas poderiam achar que estávamos criando uma rivalidade entre as personagens mulheres e abraçando a narrativa dos homens (já que, alguns deles apoiaram a Bertha), mas foi o que, de fato, aconteceu.

De qualquer modo, eram mulheres em uma época nada fácil. A forma que encontramos para destacar o pioneirismo delas e reconhecer o trabalho que fizeram em seus países foi acrescentar, ao final da HQ, uma minibiografia de cada uma, mostrando suas histórias. 

 

Angélica Kalil: Nas questões feministas, isso acontece muito. O patriarcado molda a sociedade e, muitas vezes, contribuímos, sem perceber, com as estruturas que nos oprimem. Em muitos momentos, relacionei a decepção da Bertha com suas iguais com diversas situações que eu e tantas outras amigas que lidam com este tema já passamos. Durante a pesquisa sobre as outras mulheres que a Bertha cita no texto, eu pensava: “Nossa, como uma mulher com essa história de vida não apoiou a brasileira?”. É importante não julgar e se colocar no lugar e no tempo histórico em que elas estavam. 

Todas ali romperam com o que a sociedade esperava de uma mulher. Se não é fácil hoje, imagina lá atrás. Interessante também observar que, entre as mulheres que apoiaram a Bertha, estavam representantes de países latino-americanos – República Dominicana, México, Uruguai e Venezuela – e da Austrália. 

Trecho de Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil

Veneta: Ao fim da HQ, vocês chamam a atenção para o fato de que diversas documentações sobre seu trabalho e ativismo foram doadas pela própria Bertha a instituições brasileiras. Uma parte encontrava-se no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e acabou perdida no incêndio de 2018. O que isso nos mostra sobre nossa relação com a História?

Amma e Angélica Kalil: Mostra que nós não valorizamos nossa cultura. E um povo que não cuida da própria memória não sabe quem de fato é. Além disso, é uma triste metáfora do que acontece com a história das mulheres.

 

(1) Olympe de Gouges (1748-1793) é o pseudônimo de Marie Gouze, ativista política, feminista e abolicionista francesa. É autora da obra Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791), na qual reivindica a igualdade de direitos entre homem e mulher, fazendo uma releitura da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, criada durante a Revolução Francesa. Devido aos seus escritos políticos, foi guilhotinada.

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