Editora Veneta


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Por Leticia de Castro

Nascida em São Paulo em 1980, Anelis Assumpção começou a escrever e a compor músicas ainda criança. Filha de Zena e do músico Itamar Assumpção, um dos grandes expoentes da vanguarda paulista, é irmã de Serena (1977-2016) e de Celina.

Serena finitude, terceiro lançamento do Outra história | Oh!, nosso selo infantojuvenil, é sua estreia na literatura, ao lado de Aline Bispo. Com uma linguagem poética e vigorosa, o livro mostra a relação de cumplicidade das irmãs Serena e Curiosa. Enquanto observam os ciclos da natureza, elas divagam sobre as diferentes fases da vida e tentam compreender a morte. A obra é uma homenagem a Serena Assumpção, também cantora, compositora e produtora cultural, morta em 2016 em decorrência de um câncer.

Conversamos com Anelis sobre sua infância e a relação com os livros e a escrita.

 

VENETA: O que você mais gostava de fazer quando criança?

Zena, Itamar e Anelis Assumpção. Acervo pessoal.

 

ANELIS ASSUMPÇÃO: Eu gostava de correr, de ficar na rua. Onde eu morava, no bairro da Penha, tinha muitas crianças e passávamos o tempo todo brincando na rua de todo tipo de coisa: amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, mãe da rua, corda. Mas eu amava mesmo era brincar de elástico!

Eu adorava conversar, falava muito na aula, mas era boa aluna, porque era curiosa! Eu gostava de chupar cana no quintal com meu pai e minha irmã, de caçar insetos e encontrar moranguinhos no jardim. Adorava estourar as bolsinhas de sementes das Maria sem Vergonha que tinha no quintal e, por isso, vivia cheio delas em toda parte! Gosto de fazer isso até hoje.

 

V.: Gostava de ler? O que?

A. A.: Eu não gostava muito de ler, talvez por não ter tido tantos livros infantis. Me lembro bem dos poucos que tivemos, e o que eu mais gostava era De onde viemos (Zastras, 1988). Eu lia mais gibis e encartes de discos!

 

V.: Quando começou a escrever e o que gostava de escrever quando criança?

A. A.: Eu sempre escrevi, desde pequena. Primeiro as obrigações escolares e depois comecei a escrever letras de música, ainda com uns 8 anos.  Eu gostava de organizar em melodia as informações dos rótulos das coisas. Minhas primeiras músicas foram:

“Cuidado! Inflamável!

Só pode ser usado sob a supervisão de um competente!”

 

Anelis Assumpção e Itamar Assumpção. Foto: Marcela Haddad.

V.: Você acompanhava a vida artística do seu pai? Frequentava shows e ensaios? Como se sentia nesses eventos?

A. A.: Sim, eu acompanhei desde muito neném. Meu pai me levava sempre, desde muito pequena, pros ensaios. Tinha muitas outras crianças também, as filhas da Alzira, as filhas da Tetê, (1) os filhos dos outros músicos. Tinha sempre uma criançada. Era quando eu saía do meu mundo na Penha e vinha pros lados de cá, da zona oeste. Eu adorava, amava rodar a cidade com o meu pai, fazer show e ensaio com ele, voltar pra casa tarde… Eu gostava dessa bagunça.

 

V.: Serena finitude fala de um assunto delicado, que está presente na vida de adultos e crianças. Especialmente agora, durante a pandemia, muitas crianças perderam parentes. Você se lembra qual foi o seu primeiro contato com a morte e como passou a entender o seu significado, ainda na infância?

A. A.: Sim, meu primeiro contato com a morte foi o falecimento da minha avó Irene, mãe da minha mãe. Ela faleceu em casa, dormindo numa poltrona enquanto via televisão, no meio da festinha de aniversário de sete anos da Serena. Eu tinha quatro anos. Tinha muitas crianças… Ela morreu dormindo, no meio da criançada. Eu me lembro que senti muito, eu era muito apegada a essa avó. Mas me lembro que foi bonita a forma como minha mãe e meu pai conversaram sobre o assunto com a gente. Minha mãe é espírita, meu pai é filho de pais de santo. A gente sempre teve muito contato com religiões que dão suporte pra algum entendimento sobre a morte. Quem tem conexões espiritualizadas encontra algum afago pra lidar com essa dor. Depois faleceu o irmão da minha mãe, o Paulo Leminski. Mas a forma como os adultos lidavam com a morte sempre me assustou.

 

 

Rubi (à esquerda), Benedito (ao centro), Bento, filho de Serena (ao fundo), Anelis (ao centro) e Curumin (à direita). Acervo pessoal.

V.: Quais são as brincadeiras ou atividades que você mais gosta de fazer com os seus filhos hoje? Dá pra brincar todo mundo junto, mesmo com a diferença de idade entre eles?

 

A. A.: Dá sim. Eles brincam muito de videogame e jogos de tabuleiro: Uno, Dama, Detetive. Desses a gente também participa, eu e o Curumin. A gente gosta muito de andar de bicicleta, caminhar todo mundo junto com os cachorros. Acho que as atividades que mais dão certo hoje em dia são passeios. Quando a gente viaja, gostamos de fazer trilha. São as atividades em que a gente mais consegue conexão entre os adultos, adolescentes e a criança. Mas a gente brinca de muita coisa junto: sessão de cinema, dormir na sala, fazer sessão da madrugada. Essas aventuras são as que têm um interesse comum maior.

 

Crédito da imagem de capa: Gloria Flugel.

(1)  As cantoras Alzira e Tetê Espíndola foram parceiras de Itamar Assumpção.

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