• Endereço: Rua Araújo, 124, 1º Andar, São Paulo
  • Tel.: +55 (11) 3211-1233
  • Horário: Seg. à Sex., das 9h às 19h.

Compartilhe

Confira o prefácio da HQ Filho de Ladrão, pelo romancista policial chileno Ramón Díaz Eterovic. Com o roteiro ágil de Christian Morales e o traço único e expressivo de Luiz Martínez, a obra adapta para os quadrinhos o clássico romance do escritor anarquista Manuel Rojas, protagonizado por um jovem nômade urbano que cruza as fronteiras da América do Sul. Já disponível aqui no nosso site e nas melhores livrarias.

***

Filho de Ladrão de Manuel Rojas foi publicado no ano de 1951 e, apesar do tempo transcorrido, continua sendo um dos romances centrais da narrativa chilena e latino-americana. Sua publicação deu aos leitores um personagem singular e inesquecível chamado Aniceto Hevia e também marcou uma ruptura na maneira de contar uma história em uso até aquele momento, incorporando técnicas narrativas inovadoras e apropriadas para conhecer a consciência de seu protagonista e os pontos de vista dos diferentes personagens.

Filho de Ladrão é um romance ainda vigente e atual, tanto pela qualidade de sua realização, como pelas ideias que percorrem suas páginas e que nos falam da necessária rebeldia contra todas aquelas restrições opressoras e limitantes.

Aniceto Hevia na HQ Filho de Ladrão

Talvez porque o mundo não tenha mudado tanto quanto acreditamos, nestes tempos em que tudo, até a solidariedade e a ética, são mercadorias destinadas a serem trocadas por dinheiro, as palavras de Manuel Rojas ou de Aniceto Hevia ecoam com uma indiscutível atualidade: “me dê tempo para olhar e fique contando sua mercadoria; me dê tempo para sentir e continue com seu discurso; me dê tempo para escutar e continue lendo as notícias do jornal; me dê tempo para desfrutar do céu, do mar e do vento e continue vendendo seus queijos ou seus preservativos; me dê tempo para viver e morra contando sua mercadoria, convencendo os estúpidos da bondade do seu programa de governo, lendo seu jornal ou traficando com seus produtos, sempre mais baratos do que paga por eles e do que os vende”.

Filho de Ladrão é um romance com uma proposta de formação ética; a do homem que assume a sua liberdade e que, apesar das armadilhas impostas pelas estruturas sociais em seu caminho, consegue se manter fiel ao seu impulso natural de se opor a todo tipo de injustiça, a toda ordem social que implique o menosprezo do ser humano.

Ler ou reler suas páginas provoca uma vontade irrefreável de sair por aí, de frente para o horizonte ou à beira-mar, respirando o ar que nos dá vida sem outro limite que o causado pelo cansaço dos nossos passos. Mas este impulso não é apenas um convite a uma viagem solitária para construir uma vida em função de nossos desejos, mas é também um convite à solidariedade, a dividir o pão e os sonhos com os homens e mulheres que encontramos no caminho.

Manuel Rojas (1896-1973) foi um escritor autodidata da velha geração que construiu sua amizade com a palavra escrita depois de exercer os trabalhos mais duros, marginais e mal pagos que se possa imaginar. Um escritor que escreveu com a pele de sua própria vida uma épica do desamparo e da liberdade. Como ele mesmo disse em Algo Sobre Mi Experiencia Literária: “minha vida de criança e de adolescente foi agitada e, como, além disso, conheci, andando pelo mundo, muitos homens que narravam, em um acampamento, em uma estação de trem, em uma delegacia, as histórias deles e de outros, tinha um amplo repertório de histórias que podia contar a quem quisesse escutá-las ou a quem me contasse outras”.

Desse conhecimento, ao qual dedicou sua atenção desde a infância, Ma-nuel Rojas tirou os traços e as cores que lhe permitiram criar seus personagens, autênticos e vitais inclusive na desgraça e no abandono. E como bem sintetiza o escritor Luis Enrique Délano em seu ensaio “Nuestro Máximo Gorki”, Manuel Rojas foi um “escritor viril, sensível, transbordando de solidariedade humana e educado nas universidades da vida”. Com outro olhar, sua filha Paz aponta no artigo “Lembranças do Meu Pai”: “É difícil ser como ele era. Mais que um escritor, mais que um professor, foi um antropólogo no amplo sentido da palavra. Um homem íntegro destes tempos”.

“Se virem para comprar algo que comer”, diz o pai de Aniceto Hevia a seus filhos quando se prepara para passar uma longa temporada na cadeia e depois de sofrer com a morte da esposa. Sem mãe nem pai, Aniceto e seus três irmãos começam a viver a orfandade que os lança nus a um mundo que quase não conhecem. Esse desamparo é a ferida que vai acompanhar Aniceto Hevia durante sua existência e a qual, a todo instante, procura superar.

E é o relato de sua vida, tão parecida com a de Hevia, que comove o leitor de Filho de Ladrão e o faz dividir suas andanças com entusiasmo, talvez porque todos somos um pouco Aniceto Hevia e em algum momento descobrimos que o mistério da vida está em resolver o desafio que existe entre a resignação e a rebeldia. E se isso for entendido, talvez possamos dizer junto com Aniceto: “de repente terminou o muro e apareceu o mar”.

Trecho de Filho de Ladrão

Palavras que acompanham Hevia quando sai da prisão e, a partir de sua aprendizagem errante, dispõe-se a conquistar um lugar de paz no mundo. Em sua Antologia Autobiográfica, Manuel Rojas fala de suas dificuldades para encontrar o tom que desejava para escrever o livro que o faria famoso. “Para dizer a verdade – conta –, não sabia exatamente o que queria. Só pretendia aproveitar algumas experiências próprias e de outros, descrever seres e ambientes, expressar como pudesse, os sentimentos ou as reflexões que tudo isso podia produzir”.

Apesar de suas dúvidas, o que Manuel Rojas consegue é criar um romance singular e estabelecer uma fronteira ou linha divisória na narrativa chilena. Daí em diante, os escritores locais não podiam continuar navegando pelas águas do “criollismo” (1) e do naturalismo em voga até aquele momento. Com Filho de Ladrão nasce uma nova forma de se apropriar da realidade e um novo estilo para contar.

A intimidade e a consciência de Aniceto Hevia eram algo a levar em conta e para Manuel Rojas foi o início de um projeto narrativo que se materializou nos romances Mejor que el Vino, Sombras Contra el Muro e La Oscura Vida Radiante. Com elas, Manuel Rojas escreveu com letras grandes seu nome na história da narrativa chilena. Sua obra foi traduzida a outros idiomas, a crítica reconheceu seu sucesso e seus leitores popularizaram suas criações. No ano de 1957, recebe o Prêmio Nacional de Literatura.

Manuel Rojas morreu em 11 de março de 1973. Em sua despedida no Cemitério Geral compareceram muitos escritores para mostrar sua admiração pelo autor de contos inesquecíveis como “El Vaso de Leche”, “Laguna” e “El Delincuente”. Autores e personalidades de todas as estaturas e cores elogiaram a obra de Rojas e expressaram seu pesar. De todos eles, quem melhor expressou sentimento daqueles que se despediam do escritor e jornalista, foi seu amigo e presidente da República, Salvador Allende: “O Chile, o povo, perde um de seus maiores escritores e, além disso, um homem de uma extraordinária coerência com suas ideias e princípios. Romancista de prestígio internacional, soube destacar a vida do povo. Deu-nos a lição de sua própria existência, criada com mui-to esforço; o que narrou, viveu, e sempre viveu perto dos humildes”.

Passam os anos. Filho de Ladrão continua ganhando leitores, atraindo e comovendo pessoas que seguem os caminhos de Aniceto Hevia, nosso herói popular que fala de um país com injustiças e misérias que continuam existindo até a atualidade. Um personagem que continua apelando à nossa consciência para que aceitemos o compromisso de percorrer um caminho no qual sempre esteja presente o desejo de viver sem travas ou renúncias. Filho de Ladrão, o romance gráfico, o livro que motiva essas linhas, é outra forma de ingressar na narrativa de Manuel Rojas.

Os quadrinhos e o romance gráfico são formatos criativos de grande impacto em muitos leitores atuais, jovens e adultos, e se transformou em um meio privilegiado para o acesso à leitura, e em alguns casos, como ocorre com a presente obra, uma aproximação a grandes romances da literatura chilena e universal. Seus autores, Christian Morales e Luis Martínez, assumiram com especial responsabilidade e talento o desafio de dar uma renovada vida à obra central de Manuel Rojas.

Os textos de Morales, responsável pelo roteiro e a adaptação do romance, seguem fielmente o fio da história e são o suporte adequado para potencializar as elaboradas ilustrações de Martínez, que reproduzem com perfeição o contexto urbano e social que cercam as peripécias de Aniceto Hevia. Destaca-se a rigorosidade histórica do texto e das imagens; a preocupação pelos detalhes de cada ambiente, e pelas expressões dos personagens quando mostram suas vidas ou a dor que logo os invade. O trabalho de Christian Morales e Luis Martínez, com o apoio de Marco Herrera, condensa de forma acertada e bela os principais episódios de Filho de Ladrão.

Os autores entregam uma obra que vai captar o interesse dos leitores desde os primeiros desenhos, e que além de seus inegáveis méritos artísticos e literários constitui uma homenagem de alto e árduo voo criativo para um escritor imprescindível; e, claro, para um livro que há muito tempo conseguiu romper os limites do tempo, das modas e do esquecimento.

***

(1) Movimento literário surgido no final do século XIX e influenciado pelo processo de independência dos países latino-americanos do domínio espanhol. Suas principais características são o foco nos problemas das comunidades indígenas e rurais e os questionamentos sociais.

Sobre o autor do prefácio:

Ramón Díaz Eterovic nasceu em Punta Arenas no Chile, em 1961. É conhecido principalmente por seu personagem Heredia, detetive particular que já protagonizou mais de 10 romances e ganhou uma adaptação para a TV. Também é um dos fundadores do Festival Iberoamericano de Novela Policial Santiago Negro e da revista de literatura La Negra.

O jovem Manuel Rojas (ca. 1935)

Sobre o autor do romance:

Assim como seu personagem Aniceto HeviaManuel Rojas nasceu em Buenos Aires e teve uma infância bem pobre. Abandonou a escola aos 11 anos para trabalhar e ajudar a sustentar a família. Como Aniceto, trabalhou como pintor de paredes, mas também colheu uvas, foi peão numa companhia ferroviária, estivador, eletricista, alfaiate etc. E como o protagonista de Filho de Ladrão, tinha 16 anos quando atravessou a pé a cordilheira dos Andes para ir viver no Chile (em 2012, para comemorar o centenário dessa travessia, o Ministério da Cultura chileno instituiu o Prêmio Iberoamericano de Narrativa Manuel Rojas e o primeiro premiado foi o escritor brasileiro Rubem Fonseca).

Bem cedo, Rojas se tornou um anarquista e começou a colaborar com publicações revolucionárias da Argentina e do Chile. Era um autodidata com uma cultura impressionante. Além de ter se tornado jornalista e professor universitário (chegou a dar aulas até nos Estados Unidos), sua produção literária é enorme, com vários romances e dezenas de livros de poesia, contos e ensaios.

 

Títulos relacionados:

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.