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Um dos principais fanzines brasileiros do fim dos anos 1990, a Sociedade Radioativa foi responsável por revelar grandes talentos do mundo dos quadrinhos como Ulisses Garcez (Agropunk, já em pré-venda aqui no site), Tiago Judas (Hídrico), Alê Teles (Caligari), Caeto, Rafa Coutinho, entre tantos outros.  Frequentador assíduo das festas e bebedeiras da Sociedade, o escritor e punk rocker Arthur Dantas nos conta um pouco mais dessa história.

por Arthur Dantas Rocha*

Capa de Sociedade Radioativa n. 14.

A história etílica do fanzine Sociedade Radioativa começa no ano de 1998. Mas, pela minha coleção aqui em casa, eu só tomei conhecimento desse extraordinário ajuntamento de meliantes em 1999, próximo do lançamento da terceira edição. Na capa daquela edição tá escrito “as melhores idéias (sim, ainda tinha acento em ideia) da boca do lixo”, mas fique claro que essa boca tinha pouco lixo, na realidade, e ficava nas cercanias do histórico Bar Real, em Pinheiros, point de roqueiros, zé pinguinhas e estudantes de colégios moderninhos do centro expandido de São Paulo. E quando digo “história etílica” é porque o povo era chegado numa birita com força – mais uma razão pra ganharem minha simpatia. Outro motivo era o amor incondicional aos quadrinhos, sobretudo aquela leva de Chiclete com Banana, Circo, Piratas do Tietê, Geraldão etc.

Os pais da criança eram o Caeto, o Ulisses Garcez e o Pedro Angeli (sim, filho d’O cara), “o hardcore do começo”, segundo Ulisses me contou. Mas logo o Pedro abandonou a seara quadrinística e foi se dedicar só à música. O zine durou exatos dez anos, de 1998 a 2008, 14 edições, além de especiais, fotonovelas etc. Pode-se acusá-los de tudo, menos de que não eram persistentes. Eu estudava na USP naquele período e morava no Crusp, a moradia estudantil tão mal afamada daquela instituição. E foi nessa universidade que conheci dois amigos (um deles, o João, colaborava no fanzine assinando microcontos muito bons como Dage), que logo me apresentaram aos bares e inferninhos de Pinheiros e da Vila Madalena, na zona oeste abastada paulistana.

Logo virei chapa do Ulisses, uma amizade movida a madrugadas bêbadas, fumo prensado e amor ao Sonic Youth (inclusive, no show deles de 1999, dividimos um ácido pra ver aquele espetáculo incrível!). Logo eu estava inserido no bando (“a gangue da calça arriada”, rs), entendendo aquela movimentação toda que era um tanto quanto exuberante pra um punkinho suburbano vindo do interior de Minas.

 

Sociedade Radioativa. Acervo pessoal.

Alexandre Teles, autor de Caligari, que fez parte do Sociedade Radioativa.

O fanzine agregava muita gente. Muita mesmo. Eu participei dos números 6 e 7 ajudando a entrevistar (com toda a “autoridade” de alguém que também fazia fanzines) a Laerte (na época, ainda “o”) e o Angeli. E, obviamente, foi um momento foda pra todos nós, que cultivávamos uma idolatria pura e irrestrita aos dois (e ao Glauco também, pena que não conseguimos entrevistá-lo, ele já tava completamente absorto nas coisas do Santo Daime).

De gente que “vingou” de um jeito ou de outro no mercado editorial, puxando de memória, tem o Caeto, o Ulisses, o Rafael Morales, o Rafael Coutinho, o Alê Teles, o Daniel Gisé, o Tiago Judas… Devo tá esquecendo de alguém (o escritor Fernando Bonassi colaborou também, mas ele já era “alguém” no rolê quando de sua participação), mas era uma turma grande mesmo. Como já deu pra perceber, era um Clube do Bolinha, com pouca participação de mulheres (me lembro da Sofia e da Luísa Doria), classe média e branco. Tinha o Ulisses e o O’Neall de pretos no rolê. Toda edição tinha festa de lançamento, que aconteciam em inferninhos da região do Bar Real, de início, e depois se espraiou pra Augusta e Barra Funda.

Pra mim, de alguma forma, muito mais do que um fanzine, Sociedade Radioativa era uma turma, uma movimentação de uma galera talentosa que tava se descobrindo e se testando. É até surpreendente comparar a produção dessa galera hoje com o que faziam naquele período. E é louco ver os fanzines agora e sacar como eles se esforçavam pra deixar aquela aura toda do que viviam nas páginas da publicação. E isso não diz respeito apenas às HQs autobiográficas (Caeto e Ulisses eram muito bons nisso), mas também a um espírito geral ébrio, divertido, às vezes um tanto machista, e 100% paulistano do centro expandido.

Trecho de “Kocinas”, por Tiago Judas, autor de Hídrico. Reprodução/ Sociedade Radioativa n. 10.

Acho que conseguiram, de alguma forma, ser a tradução exata da Chiclete com Banana para os anos 2000. E isso é um elogio enorme, que fique bem claro. Numa dessa passadas de bastão clássicas que renderam uma história foda, em 2006, o Ulisses fez uma HQ “Fritz, the cat”, na qual o bichano de Crumb contracena com um típico casal de jovens paulistanos. Cito essa história pra deixar claro a tradição de quadrinhos à qual eles se filiavam.

O mais louco é  pensar que a história foi toda construída no boca a boca, fora da internet, que já existia naquela época, mas era bem diferente do que é hoje. Acho que a única rede social que o Sociedade Radioativa alcançou foi o finado Orkut. Dei um Google e as referências ao fanzine são esparsas, inclusive com alguns alfarrábios vendendo cópias da publicação. Ficou marcado mesmo como um tesouro pra poucos que viveram aqueles dias.

 

*Arthur Dantas Rocha é escritor, gestor ambiental, pedagogo, punk rocker apaixonado por samba e pela cultura hip hop. É autor de Racionais MC’s: Sobrevivendo no Inferno (Cobogó, 2021), finalista do CCXP Awards.

 

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