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Por Art Spiegelman*

 

Neste prefácio de O Livro da Selva, Art Spiegelman fala sobre a enorme influência de Harvey Kurtzman para os quadrinhos e para o humor norte-americano

 

Quando o editor me ligou convidando para escrever uma introdução para O Livro da Selva, eu me senti orgulhoso. Mesmo quando me disseram que havia sido convidado para escrever esta introdução porque Robert Crumb, a primeira opção do editor, estava “exausto de tanto escrever introduções nos últimos meses”, eu continuei me sentindo orgulhoso – humilhado, mas orgulhoso.

Fiquei contente pela oportunidade de reconhecer o impacto que Harvey Kurtzman teve na minha geração. Fiquei contente pela oportunidade de conscientizar os leitores do papel-chave que Harvey Kurtzman teve no desenvolvimento dos quadrinhos como uma forma artística. Mas, principalmente, fiquei contente pela oportunidade de ganhar um exemplar absurdamente luxuoso em capa dura, pelo qual, de outro modo, eu ficaria pelo menos vinte e cinco pratas negativo no banco! Ha ha ha! Não tenho tanto orgulho disso.

É uma fórmula do Kurtzman: você diz uma verdade elevada – de preferência, duas verdades elevadas – para criar o ritmo. Depois, você desinfla toda essa elevação dizendo uma coisa realmente verdadeira, mas baixa e terrena. Você mostra que o rei está nu, que os homens são movidos por ganância e volúpia. E, de preferência, você faz isso com uma cadência autodepreciativa e iídiche, de modo que ninguém fique com muita raiva de você por dizer as suas verdades.

… E, se você for Harvey Kurtzman, você faz isso com um ritmo impecável e uma forte noção de estrutura, que lembra Buster Keaton, que deixa o leitor não só com uma risada, mas com uma intuição.

Aí está. Só isso seria suficiente para me garantir um exemplar grátis. Mas, vou confessar (não contem ao editor): este é um livro pelo qual até pagaria, se fosse o caso, mesmo sendo um dos poucos sortudos donos de um exemplar da edição original em papel-jornal de 1959. Como a maioria dos outros exemplares que já vi, o meu parece mais uma pasta mofada de jornais. A cola barata da lombada da Ballantine Books mandou lembranças. Guardo todas as páginas soltas, amareladas, em um saco plástico. Tratei essas páginas com todo o cuidado devido a um texto sagrado, mas o meu exemplar já não vai suportar mais muitas releituras.

Cena da HQ “Thelonious Violence”, que integra O Livro da Selva

Esfarrapado, em decomposição, o meu Livro da Selva fica em uma estante ao lado das antologias da Mad em papel-jornal que formam a minha primeira entrada na Kurtzmania. Foram essas bem-sucedidas antologias que indiretamente deram origem ao Livro da Selva. Quando os livros da Mad passaram da Ballantine para a Signet, o editor original resolveu fazer um novo livro de cartuns do criador da Mad.

Kurtzman conseguiu produzir material para caber no formato comprido, vertical, do mercado de massa dos livros de bolso em papel-jornal . Essas reedições da Mad sempre foram uma coisa incômoda e limitadora de ser feita, que envolvia cortar e reposicionar as páginas originais do quadrinho para caberem de lado em uma página, comprometendo assim aqueles ritmos preciosos em que Kurtzman trabalhava tanto.

As sátiras da Mad eram muitas vezes dirigidas à “cultura infantil” de Howdy Doody, Mickey Mouse, Captain Video e coisas do gênero. O Livro da Selva tinha como alvo muito especificamente o entretenimento adulto médio. Foi um passo importante para que os quadrinhos em si se tornassem um entretenimento adulto.

Muito embora alguns dos alvos dessas sátiras (Peter Gunn, Gunsmoke) tenham se tornado pouco mais do que notas de rodapé da história da cultura popular estadunidense, esses quadrinhos sobreviveram muito bem.

Só o desenho já justificaria a reedição deste livro. Em nenhum outro lugar há tanto material desenhado pelo próprio Kurtzman. Muito frequentemente, seus desenhos funcionavam como guias para seus colaboradores. Mesmo no caso do mais inspirado deles, o lunático Will Elder, as proezas visuais gênios  densamente compactadas são executadas à custa da verve e da ilusória rapidez dos desenhos de Kurtzman.

Os “rabiscos” apressados e apinhados do Livro da Selva são uma ruptura com os desenhos de pinceladas grosseiras e expansivas de suas tiras de juventude em Hey Look! que serviam para encher páginas vazias, mas são igualmente energéticos e expressivos. Ele sempre faz seus desenhos parecerem tão sem esforço, tão parecidos com sua própria caligrafia – ele esculpe verdadeiros tipos. Até a página de créditos é manuscrita.

Em entrevistas, Kurtzman tendia a ser excessivamente modesto a respeito de suas habilidades como desenhista, e totalmente depreciativo quanto a suas habilidades como escritor: “Escrever é um exercício abstrato no qual algumas pessoas são verdadeiros gênios, mas no qual eu sou péssimo. Eu não lido bem com esse talento particular de manipulador de palavras”. A escrita neste livro é uma prova de que ele estava errado. Todas as quatro histórias demonstram um ouvido atento para a linguagem: paródias de falas de hipsters, jargões de publicitários, dialetos do oeste, sotaques caipiras.

Naquela mesma entrevista (Comics Journal, outubro de 1981) Kurtzman diz: “O que eu faço é visual. Eu lido com o tempo. Lido com ritmos. Lido com sequências. Crio movimento enquanto organizo a disposição dos quadros. Não saberia lhe dizer nada sobre as palavras, mas fale comigo sobre cartuns e eu saberei dizer tudo o que você quiser saber”.

Em uma das histórias mais fortes do livro, Decadência Degenerada, pelo menos uma sequência ficou marcada em brasa no meu impressionável cérebro de onze anos quando a vi pela primeira vez:

 

Cena de “Decadência degenerada”

 

… Não. Não apenas pelos – HOO HAH! – motivos óbvios, embora já fosse uma coisa quentíssima em 1959, mas porque aqui estava acontecendo alguma coisa com as imagens, com as palavras e com as imagens-enquanto palavras que não podiam acontecer em nenhum outro meio. As rupturas de Kurtzman são sempre tão bem pensadas e eficazes, que um quadrinista aspirante não encontrará um manual melhor sobre a gramática visual da narrativa.

A Suíte do Homem Organizacional de Terno Executivo de Flanela Cinza é a história que sempre tocou o nervo mais profundo em mim. As experiências do próprio Kurtzman no meio editorial obviamente forneceram o pano de fundo, a motivação e o veneno dessa história sobre a perda da inocência e dos ideais quando um idealista de olhos brilhantes é confrontado com a moralidade do capitalismo. A maior parte dos quadrinhos estadunidenses, seguramente aqueles da religião dos super-heróis, lida com fantasias de poder. O Homem Organizacional lida com as realidades do poder e seus efeitos corrosivos.

Para avaliarmos plenamente esse fato, talvez seja útil saber um pouco sobre as experiências editoriais do próprio Kurtzman: em 1954, ele criou a Mad, um dos produtos culturais mais significativos dos EUA. (Sua Mad era um produto muito mais estranho, profundo, engraçado e significativo do que essa máquina tediosa de fazer dinheiro que hoje é publicada com o mesmo título.) Depois de transformá-la de um gibi brilhante e idiossincrático em uma revista em formato grande, idiossincrática e brilhante, ele se separou do editor, William Gaines, em uma disputa pelo controle financeiro. Graças à Mad, Gaines é milionário. Kurtzman não é.

Cena de “A suíte do homem organizacional de terno executivo de flanela cinza”

Seja como for, em 1957, Hugh Hefner deu a Kurtzman a liberdade para criar uma gema preciosa, bem impressa, sofisticadamente produzida, na forma de uma revista de sátira, uma Mad mais adulta, chamada Trump. Ela faliu depois de dois gloriosos números.

Kurtzman e a maioria dos artistas decepcionados que ele havia reunido à sua volta seguiram em frente e publicaram de forma independente a Humbug, um patinho feio na forma de revista de humor.

Essa foi provavelmente sua tentativa mais brilhante, e certamente a mais idiossincrática, de encontrar um formato adequado ao seu tipo pessoal de humor. Violando todas as regras dos padrões do mercado de revistas, a Humbug foi um grande desastre financeiro. A revista morreu em 1958 depois de 11 números.

Foi enquanto se recuperava da catástrofe da Humbug que Kurtzman desenhou O Homem Organizacional. O protagonista, Goodman Beaver, prefigura o personagem que apareceria em uma série de histórias que Kurtzman fez com Elder em sua última tentativa de criar uma revista de humor: a “Help!”. (Ver a coleção Goodman Beaver da editora Kitchen Sink. O quanto antes.) Esse mesmo Goodman Beaver, por sua vez, prefigura a criação mais forçada e fraca de Kurtzman, Little Annie Fanny, que sairia na Playboy a partir de 1962.

Infelizmente, O Homem Organizacional representa o compreensível e crescente desencantamento e cinismo de Kurtzman em relação ao mundo editorial. Trata-se de uma obra autobiográfica dilacerante, assim como uma reportagem penetrante e uma sátira incisiva.

Diferentemente de Goodman Beaver, Kurtzman nunca fugiu com a folha de pagamentos da empresa. Seu nome não é familiar, exceto entre os conhecedores. Mas sua influência foi ampla e profunda. Na revista “Help!”, ele publicou os primeiros trabalhos de uma geração de cartunistas que cresceram aprendendo o ponto de vista dele e a abordagem dele dos quadrinhos e da comédia. Além de seu gênio como editor, escritor e artista, Kurtzman possui uma habilidade rara para descobrir e alimentar talentos. Ele publicou Robert Crumb, Gilbert Shelton, Jay Lynch, Terry Gilliam e, se a revista tivesse durado só mais um número, ele teria me publicado também. (Ao menos ele disse isso em um bilhete escrito no verso da minha primeira tira recusada).

Kurtzman é indiscutivelmente o Padrinho dos quadrinhos alternativos dos anos sessenta e, por meio deles, sua influência foi seminal para o renascimento dos quadrinhos europeus dos últimos quinze anos.

Mas esqueçamos um pouco a genealogia dos quadrinhos. Sempre achei que a contribuição mais importante de Kurtzman foi em formar (ou talvez eu devesse dizer deformar?) a cabeça de uma geração de crianças estadunidenses inocentes. Ele as ensinou a pensar, a não confundir a realidade da mídia com a realidade real.

Eu disse ao Kurtzman que achava que ele tinha sido um fator mais importante que a maconha e o LSD na formação dos anos sessenta. Ele discordou, disse que era bobagem, mas descobri, surpreso, outro defensor dessa minha opinião assistindo recentemente ao telejornal Today Show. O assunto era os cards da Gang do Lixo. (Durante vinte anos, venho fazendo trabalhos para uma empresa chamada Topps Bubble Gum, passando adiante minhas lições kurtzmanianas em cartões, adesivos e figurinhas como Wacky Packs, Garbage Can-dy e, atualmente, os Garbage Pail Kids, a Gang do Lixo).

Pelo visto, um certo James Manchin, secretário do tesouro da Virgínia Ocidental, quer que Dinda Linda, Adam Geddon e o resto dos moleques sejam proibidos em seu estado natal.

A apresentadora Jane Pauley perguntou: “Qual é o perigo?”.

E ele respondeu (literalmente): “O perigo é o seguinte, Jane. Ao longo dos anos, temos repetido essa ladainha de menosprezar muitas das nossas instituições importantes. Isso começou nos primeiros anos da guerra do Vietnã – no pré-Vietnã -, quando nossas crianças foram ensinadas sobre a vida social e a não se preocupar muito com o próprio país, a menosprezar, a zombar, com essa coisa de vida social. E eu acho que isso produziu esse tipo de atitude, produziu uma geração de jovens que protestavam por qualquer coisa que acontecia no país.”

Jane Pauley perguntou: “Quer dizer que o senhor associa tudo isso a coisas como, tipo, sei lá, a revista Mad?”

E meu aliado respondeu: “Eu associo à sátira, à zombaria, ao menosprezo, e é a mesma coisa que acontece com essa Gang do Lixo…”

Fiquei orgulhoso. Humilhado, mas orgulhoso. Obrigado, Harvey. Obrigado por tudo.

Art Spiegelman em 2018.

 

 

 

 

– Art Spiegelman
Nova York, 29 de julho de 1986

… esta introdução ficou muito maior do que eu esperava. Talvez eu mereça um daqueles exemplares especiais, assinados e numerados, de luxo, edição limitada…

 

 

 

 

 

* Arthur (Art) Spiegelman nasceu em 1948 em Estocolmo (Suécia). Foi co-fundador e editor da Raw, a famosa revista vanguardista de artes gráficas. É autor, entre outros livros, de Maus (Quadrinhos na Cia., 2005), HQ vencedora do Pulitzer sobre a experiência de seu pai em campos de concentração nazistas Atualmente, Spiegelman vive em Nova York.

 

Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

 

Este texto foi publicado originalmente em 1986, na edição especial de O Livro da Selva da Kitchen Sink Books.

 

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