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Confira o prefácio de Tiago Ferro para o livro HQ: Uma pequena história dos quadrinhos para uso das novas Gerações, de Rogério de Campos, já em pré-venda

 

Por Tiago Ferro*

Ilustração: Aline Zouvi/ Ugra Press

 

Se você acha que história em quadrinhos é coisa de nerd norte-americano ou de artista underground, ou, ainda, passatempo para criancinhas, bem… assim como eu, você vai descobrir ao final da leitura deste livro que não sabia quase nada sobre o assunto.

Segundo o autor, tudo começa no Oriente. Muito distante de super-heróis ou marginais da sociedade de consumo, vamos conhecer a tradição dos sacerdotes bhopas na Índia, que contavam histórias acompanhadas de rolos com ilustrações. Sim, aí está também o pontapé inicial do que um dia viria a ser a sétima arte. Muitos dos pontos de contato entre diversas formas artísticas que se dispuseram a contar histórias por meio de imagens são apresentados neste volume.

Trecho de Kent State: Quatro Mortos em Ohio, de Derf Backderf

Essa proto-HQ indiana foi, em grande medida, responsável pela difusão do budismo pelo Leste Asiático, como nos explica o autor, e um dos personagens mais famosos dessa tradição seria admirado no futuro por ninguém menos do que Mao Tsé-Tung. Mao usaria a linguagem gráfica para panfletar as vantagens do comunismo, e, assim, chegaria a um grupo maoísta de Veneza, do qual participava o jovem italiano Milo Manara, que, por sua vez, viria a ser um dos mais importantes quadrinistas do mundo.

Não cabe neste espaço seguir acompanhando passo a passo essas tramas históricas desenhadas por Rogério de Campos. Elas são justamente as joias desta breve, mas incomum e nada ligeira, história dos quadrinhos. Muitos fios insuspeitos são puxados com consequências importantes para a compreensão de toda a cultura ocidental moderna.

Reparem na seguinte lista: Bob Dylan, Sex Pistols, Picasso, Super-Homem, revista Mad, Asterix, Roberto Marinho e Victor Civita, Mickey Mouse, Hemingway, James Joyce e Bertolt Brecht, Peppino di Capri, Andy Warhol, Lacan e a Escola de Frankfurt, os Panteras Negras, FBI, Nixon, Moebius, Druillet, Alain Voss, Marvel, Turma da Mônica, Frank Miller, Jeff Bezos, e muitos, mas muitos outros nomes povoam este volume. Dessa trama, é possível intuir que estamos no campo mais amplo da história da cultura, com consequências políticas fortes.

Trecho de Angola Janga, de Marcelo D’Salete

Indo direto ao ponto: o que temos aqui é uma outra história da cultura ocidental, ou, ainda, uma história alternativa da modernidade, ou, se preferirem, a história do Ocidente – Lado B. Com suas raízes no Oriente, o quadro montado pelo autor articula política, arte e também mercado. As formas simbólicas escapam, driblam, confrontam e outras vezes aderem aos chamados da indústria. E é desse nó apertado que podemos compreender sob uma nova luz o que o nosso tempo significa em uma duração mais longa da história.

Este livro pode e deve ser lido por fãs de HQs, por quem se interessa pelo assunto mas nunca mergulhou nesse universo, e, também, por aqueles que acham que tudo isso não passa de gibi, de coisa banal.

Como não poderia ser diferente para um autor que assume suas posições políticas (juntamente com os riscos inerentes a isso), os dias atuais estão presentes, com comentários sobre a indústria cultural turbinada pela Era Digital, projetada desde o Vale do Silício e suas promessas de democratização virtual, até os riscos para a própria existência da vida no planeta (não, não se trata de ficção científica), quando o botão de armas nucleares podem ser pressionados pelo instável Donald Trump (sim, é ele um personagem real…).

Mas desse presente obscuro não nasce o pessimismo. Rogério de Campos joga a garrafa no mar, real e virtual, da escrita e da imagem, mas principalmente para aqueles que se mantêm sensíveis às criações humanas mais delicadas e sofisticadas, fazendo sua profissão de fé em artistas dos quadrinhos espalhados por todo o mundo: “Quadrinhos são palavras e imagens. Você pode fazer qualquer coisa com palavras e imagens”.

 

*Tiago Ferro é escritor, editor e ensaísta. Autor do romance O pai da menina morta (vencedor do prêmio Jabuti), fundador da revista Peixe-elétrico e da editora e-galáxia.

 

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