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Tradutora de Nectarina, Ludimila Hashimoto escreve sobre o trabalho de estreia de Lee Lai

 

Por Ludimila Hashimoto*

Entre os lançamentos bombásticos de quadrinhos pela Veneta em 2022 está Nectarina, álbum de estreia da australiana-asiática trans Lee Lai, que assina a arte e o roteiro.

Não costumo resenhar livros que traduzo, mas Nectarina me pede esse movimento de apreender e divulgar a experiência dessa leitura de dentro para fora, ou seja, de recriar o texto para que seja lido na cultura da língua de destino. Porque a forma como a história é apresentada me impressionou no seu diálogo fluido entre desenho e texto, e pela simplicidade sutil que não se alcança sem muito trabalho e reflexão.

Trecho de Nectarina, de Lee Lai.

É importante apresentar a autora como fiz na segunda linha deste texto. Nessa história que já foi definida em resenhas gringas como honesta e emocional, a narradora de vinte e poucos anos traz a cada traço, a cada quadro, fios da bagagem psicossocial que só tem quem vive no tão pouco conhecido universo trans, racializado, silenciado. São enredos paralelos que buscam uma comunicação entre si impossível à primeira vista, na crise do relacionamento queer, nos emaranhados das mágoas familiares intocadas.

Lee Lai, autora de Nectarina.

Se você olhar bem, lendo os ângulos e o ritmo de entrada e saída das personagens, se o leitor se descolar do esqueleto narrativo onipresente no mundo másculo oficial, cresce a arte de contar histórias tão bem tratada por Lee Lai.

Os desafios dolorosos das personagens – há criança, adolescente, jovens, adultas, velhos, todos retratados com alma inteira –  podem ser comuns, típicos do nosso tempo, mas recebem da narradora algo raro neste mesmo tempo nosso: sabedoria.

As tensões são abertas como são uma fruta desconhecida, que você pode morder afoita ou atentar para o caroço duro, transpondo a casca do trauma, acessando a carne humana sensível.

Parafraseando vagamente Caetano Veloso a respeito de algum clássico que não me lembro agora, você pode ler Nectarina de uma tacada só, fechar e ficar com a normalidade do realismo, ainda que um realismo quebrado quando o desenho se faz feroz. Ou pode seguir ecoando uma palavra de gênero feminino que perpassa o livro, do título perspicaz ao estilo marcante de Lee Lai – inteligência.

 

* Ludimila Hashimoto é tradutora. Traduziu para a Veneta Nectarina (2022), de Lee Lai, A Voz do Fogo, de Alan Moore (2012) e Memórias de uma Beatnik, de Diane di Prima (2013)

 

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