• Endereço: Rua Araújo, 124, 1º Andar, São Paulo
  • Tel.: +55 (11) 3211-1233
  • Horário: Seg. à Sex., das 9h às 19h.

Compartilhe

Neste texto, que integra Bertha Lutz e a Carta da ONU, as autoras Amma e Angélica Kalil falam sobre o processo de pesquisa e criação da obra

 

Por Amma & Angélica Kalil*

 

Bertha Lutz queria ser lembrada. Antes de morrer, com mais de oitenta anos, doou para instituições todo o material que guardava sobre seu trabalho e ativismo. Sabia que tinha feito história e que a história das mulheres não era contada.

Por isso, quando resolvemos transformar em quadrinhos o que ela nos contou nas Reminiscências da Conferência de São Francisco, que fundou as Nações Unidas, decidimos que a narrativa continuaria nas mãos de Bertha, ela mesma estaria no controle. Bem ao seu gosto, aliás.

Nossa proposta sempre foi a de manter o máximo possível da escrita original, que traz conversas afiadas, pontos de reviravolta, mostra aliados e antagonistas e descreve o clima da época. Poucos momentos precisaram de textos de apoio, falas adicionais ou adaptações. O arco dramático foi todo mantido.

O maior desafio era entender o acontecimento histórico e supor onde cada fato aconteceu. De que forma os participantes chegavam a São Francisco? Onde teria sido o fatídico chá? Que roupas os membros das delegações vestiam? Em que locais se hospedavam, faziam as refeições, se reuniam, discursavam? Qual o estilo dos prédios e da decoração? Fazia muito frio? Como colocar em imagem, por exemplo, a ideia de  “uma mulher pequena representar uma grande nação”? 

Trecho de Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil, cor por Faw Carvalho

O resultado está na página 26. O texto das reminiscências foi parar na narração e em vários balões. A consultora do projeto, a historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques, dividiu conosco outros documentos datilografados por Bertha Lutz que usamos também para os textos dos diálogos. 

Isso pode ser visto nas páginas 56 e 57, quando nossa protagonista explica para seus colegas delegados a importância dos direitos das mulheres no combate ao fascismo. Já o termo “antifeminista anacrônica”, que adoramos, foi escrito por Bertha em uma carta para se referir à Virginia Gildersleeve – aproveitamos a expressão no balão de pensamento da página 33.

Trecho de Bertha Lutz e a Carta da ONU, de Amma e Angélica Kalil, cor por Faw Carvalho

Nossa escolha por usar textos históricos na composição da narrativa está também nas notícias de rádio das páginas 15, 27, 28 e 29, que foram tiradas de jornais da época.  A Conferência de São Francisco foi amplamente divulgada, em 1945, no Brasil e no mundo. Mesmo assim, é difícil encontrar informações aprofundadas dos bastidores do conclave e, mais ainda, claro, da participação das mulheres.

Elas eram pouquíssimas neste encontro dominado por homens brancos de todo o planeta, e descobrir mais sobre suas vidas foi uma parte fascinante do trabalho. Até mesmo as que se opuseram ou nada contribuíram para a inclusão da palavra mulher na Carta da ONU tiveram trajetórias de vida interessantíssimas e subverteram de alguma forma a ordem do lugar destinado ao seu gênero. Suas histórias também merecem ser contadas. E nós merecemos conhecê-las.

Além da documentação escrita, a pesquisa caminhou por fotos, cenas de filmes e trechos de documentários. Para criar as personagens, um mergulho nos figurinos da época e muitos testes até o traço final. Também contamos com o olhar atento da Faw Carvalho, responsável pela cor, e dos designers gráficos Gabriel Nascimento e Carol Rossetti, sempre conosco em nossos projetos. 

A mentoria da quadrinista e ilustradora Ana Luiza Koehler contribuiu imensamente para formatarmos o roteiro final e deixarmos mais presente na HQ a trajetória da brasileira para além da contribuição na conferência.

Parte da documentação doada por Bertha Lutz foi encaminhada por ela para o Arquivo Nacional. Outra, que inclusive contava com gravações de sua voz, virou acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro – todo esse material que ali estava com parte da memória do feminismo brasileiro foi perdido no incêndio que destruiu a instituição, em 2018.

*Sobre as autoras:

Amma (Mariamma Fonseca): Com formação em jornalismo e artes visuais, idealizou o site Lady’s Comics, sobre mulheres e quadrinhos, e coordena uma gibiteca em sua cidade natal, Eunápolis, no interior baiano. Atualmente, cursa a pós-graduação “O livro para infância: processos contemporâneos de criação, circulação e mediação” n’A Casa Tombada-SP. Mora em Belo Horizonte, onde trabalha como ilustradora freelancer.

Angélica Kalil: Roteirista e editora, tem experiência em produções audiovisuais educativas, com trabalhos para TV Cultura, Canal Futura, Sesc e Univesptv. É formada em jornalismo e tem pós-graduação em roteiro para cinema e televisão pela Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha. Nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo capital.

 

Títulos relacionados:

Compartilhe

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.