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Numa época em que as artistas mulheres eram minoria até nos mangás femininos, Kuniko Tsurita surgiu rompendo tabus e tornando-se a primeira mulher a publicar regularmente na legendária Garo, a revista que liderou os mangás de vanguarda no Japão.

Já em pré-venda aqui no nosso site, A Tragédia da Princesa Rokunomiya traz, em mais de 500 páginas, um panorama completo dessa figura tão fascinante e misteriosa. Confira um trecho do posfácio, por Rogério de Campos*

 

Alguém se lembra de vê-la dançar ao som de “Paint it, Black”, dos Rolling Stones. Dizem que ela frequenta sozinha clubes de jazz e cinemas pornôs. Foi presa em um protesto contra a guerra do Vietnã. Usa minissaias, e a visão de suas belas pernas compridas irrita os outros quadrinistas. Foi vista em um gogo bar, na companhia apenas de uma garrafa de Johnny Walker. Toca alaúde. É a pessoa com a maior cultura literária no mundo dos mangás e aprendeu alemão para ler Goethe no original. Fuma em público (“Oh, só prostitutas fazem isso!” – diziam à época). É de uma franqueza intimidante, ignora todo mundo, passa por pessoas conhecidas sem as cumprimentar e some dos lugares sem se despedir, mas gosta de conversar com malucos desconhecidos que falam sozinhos nas estações de metrô. Dizem que voltou para a sua pequena cidade natal, para um casamento arranjado.

Kuniko em frente a casa de seus pais em Takasago, aos 24 anos, 1971.

 

Quase tudo o que se sabe de Kuniko Tsurita vem pelas lembranças de homens. Ela era uma rara mulher no mundo do mangá alternativo da época.

Capa da edição de dezembro de 1970 da Garo, dedicada a Tsurita.

Em dezembro de 1970, para uma edição especial da revista Garo, em homenagem a Kuniko Tsurita, o mangaká Shoichi Sakurai (irmão de Yoshihiro Tatsumi) toma um dos autorretratos dela e insere nele um maço de cigarros, um cinzeiro transbordando de bitucas, um guia de cinemas pornôs e casas de strip-tease e um rádio declamando uma arenga política. Além disso, Sakurai coloca à frente dela uma garrafa de shochu e, acima, o título “Essa pessoa abaixo é um homem? Ou uma mulher?”.

Outro desenhista da Garo, Susumu Katsumata, também faz a sua homenagem. Em seu desenho, Kuniko Tsurita aparece de óculos escuros e diz: “sou apenas uma mulher de rumores”.

Katsuichi Nagai, o legendário fundador da Garo, descreve Kuniko Tsurita como corajosa, determinada e genial (tensai shojo): “Fiquei surpreso que uma garota pudesse desenhar aquele tipo de HQ. Eu sabia que tinha algumas mulheres fazendo shojo, mas nem isso era comum. Eu não sabia que elas eram capazes de desenhar qualquer coisa, por causa dos meus preconceitos”.

Shinzo Takano, que também trabalhava na Garo, usa menos palavras para definir Tsurita: “garota estranha” (henna onna).

De tudo o que foi dito acima, é certeza que a história do tal casamento arranjado não é verdade. E, ao que se sabe, Tsurita não chegou a ser presa em alguma manifestação. Mas o que se sabe de fato sobre ela?

 

Tsurita tocando biwa, uma espécie de alaúde japonês, foto para a edição especial da Garo, 1970.

 

* Rogério de Campos é editor, tradutor e escritor. Nos anos 80 esteve à frente da revista Animal e, em 2012, fundou a Veneta. Dentre suas obras sobre quadrinhos, destacam-se Imageria: o nascimento das histórias em quadrinhos (Veneta, 2015) e, mais recentemente, HQ: uma pequena história dos quadrinhos para uso das novas gerações (Veneta e Edições SESC, 2022).

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