Karmarket

Karmarket (Rest in Pieces): "Tenho medo de morrer, então desenho"

Karmarket fala do medo de morrer, de um horror que nem era o ponto e do que aprendeu ao desenhar as histórias de Rest in Pieces.

Por Guilherme Ziggy e Peggy Yu 09/10/2026 7 min de leitura

Karmarket (Rest in Pieces): "Tenho medo de morrer, então desenho"
Página de Rest in Pieces.

Karmarket diz faz histórias sobre a morte porque tem muito medo de morrer, e desenhar é um jeito de tentar se convencer de que ela não é tão assustadora. Em Rest in Pieces, essa conversa consigo mesmo vira um ciclo: do funeral ao nascimento da Terra, da explosão da vida a um futuro impossível, e de volta ao fim.

Nesta entrevista concedida à Peggy Yu, sua tradutora no Brasil, Karmarket conta como uma história começa, fala de sua relação com o gênero horror e sobre a influência de Mœbius e de Tsuge.

Entrevista feita por escrito. As perguntas e respostas foram traduzidos por Peggy Yu, tradutora do quadrinho.

Autorretrato de Karmarket
Autorretrato de Karmarket.

01Como uma história costuma começar para você? Você parte de uma imagem, de uma atmosfera, de uma ideia narrativa ou de algo da sua própria experiência?

Para mim, o ponto de partida de uma história pode assumir várias formas: uma pessoa que passa na rua, um prédio, uma frase dita por alguém. Às vezes outras obras (romances, filmes, música) também me inspiram com jeitos diferentes de narrar. Mas, em geral, esses fragmentos não bastam para formar uma história completa. Tenho um arquivo de texto onde anoto esses fragmentos, e ele fica ali, esperando que eu volte para escavá-los. Com sorte, os fragmentos acumulados começam a se conectar e a se fundir, ganhando uma forma própria, e dão origem a imagens que despertam em mim a vontade de desenhar. É só então que começo a pôr a mão no papel.

Página de Rest in Pieces
Página de Rest in Pieces.

02O horror e o grotesco aparecem de formas muito diferentes ao longo do livro, mas há também muito humor, absurdo e surrealismo. Por que o horror se tornou uma linguagem tão importante para você? E o que combinar horror e uma abordagem surrealista permite expressar que uma narrativa mais realista talvez não permitisse?

Na verdade, não acho que o horror tenha sido o objetivo principal que eu buscava em Rest in Pieces. Era mais uma questão de imaginar e explorar a morte; o clima de horror acaba surgindo, mais ou menos, ao longo desse processo.

Acho que as palavras e a linguagem são algumas das causas do distanciamento entre as pessoas, enquanto a imagem é mais universalmente entendida, atravessando fronteiras. Também acredito que há emoções que, quanto mais você se esforça para descrever em detalhes, mais difíceis se tornam de transmitir com precisão. É como descrever o ar: mil palavras talvez não valham um balão.

Página de Rest in Pieces
Página de Rest in Pieces.

03Você escreveu que talvez crie histórias sobre a morte porque tem muito medo de morrer, como forma de se convencer de que a morte não é tão assustadora. Ao mesmo tempo, em Rest in Pieces, você imaginou um ciclo que vai de um funeral ao nascimento da Terra, à explosão da vida, ao surgimento da inteligência, a um futuro impossível e, por fim, de volta à morte. Como a sua relação com a morte mudou ou se desenvolveu ao longo da criação deste livro?

O medo da doença e a ansiedade em relação a ela sempre existiram dentro de mim. Ao criar Rest in Pieces, tentei dissolvê-los por meio das histórias, mas, até hoje, essas emoções ainda voltam de vez em quando. Acho que vou ter de conviver com elas pelo resto da vida e, ao mesmo tempo, elas provavelmente continuarão sendo uma das forças que me movem a criar.

Do livro
Página de Rest in Pieces Página de Rest in Pieces Página de Rest in Pieces
Páginas de Rest in Pieces, reproduzidas no livro.

04Você cita Moebius como uma influência importante e diz ter percebido só depois que a frase “I felt the heat”, em “Somewhere on Fire”, vinha de O Olho do Gato. O que, na obra de Moebius, você quis trazer para os seus quadrinhos? E há outras influências que você só reconheceu depois de já ter criado uma história?

O que mais me marcou em Mœbius foi a atmosfera de suas histórias curtas. O Olho do Gato apresenta um cenário fictício e, ao mesmo tempo, incrivelmente real, como se eu tivesse espiado, por um instante, um momento qualquer num planeta de alguma galáxia distante: não precisa de explicação nem de ambientação elaborada, mas existe de fato. Quase não há falas, e ainda assim o eco que fica pode ser mais forte que o de muitos quadrinhos longos. Quero aprender o jeito dele de recortar com precisão uma fatia de mundo e apresentá-la como história.

Acho que fui influenciado por incontáveis coisas, e é difícil apontar com exatidão, depois de criar, o que veio de quem. Mas gosto muito quando leitores me contam quais trechos lhes lembraram outras obras; isso sempre amplia a minha visão.

05“Somewhere on Fire”, seu primeiro quadrinho, foi fortemente influenciado por Nejishiki, de Yoshiharu Tsuge. O que você encontrou nessa obra que ressoou em você quando começava a desenhar? A abordagem de Tsuge para os sonhos, o absurdo e narrativas que nem sempre explicam tudo ainda influencia o seu trabalho hoje?

A liberdade que Nejishiki demonstra dentro da estrutura do mangá japonês foi revigorante para mim, tanto no tema quanto no modo de narrar. Era uma obra cheia do prazer de reler e de continuar pensando nela depois, e me fez pensar: “Eu também quero desenhar quadrinhos assim!”

Por isso, quando faço quadrinhos, embora raramente saia da estrutura convencional, procuro deixar imagens e palavras se desenvolverem com a maior liberdade possível, e tento fazer o meu traço oscilar de forma ambígua entre o realista e o cartunesco. Gosto de explorar à vontade dentro da zona segura dos quadrinhos, mas espero ter, no futuro, a coragem de romper mais fronteiras.

Página 5 de Somewhere on Fire
“Somewhere on Fire”.

06Suas histórias costumam mudar bastante durante o processo. “O Senhor do Lago Salgado”, por exemplo, começou com uma ideia muito diferente da versão publicada, e “O Mergulho” e “Amor Dissecado” também passaram por grandes mudanças em relação aos storyboards e esboços originais. O que faz você perceber que uma ideia precisa ser abandonada ou transformada? Você costuma descobrir o que uma história realmente é enquanto a desenha?

Quando a história chega a certo ponto, mostro a alguns amigos e peço a opinião deles, para reexaminar se os detalhes estão sendo compreendidos pelos leitores do jeito que pretendo. Também costumo deixar os storyboards de molho por um ou dois meses, até esquecer mais ou menos os detalhes da história, e então volto a eles como leitor. Assim, quase sempre descubro o que falta na história ou o que está exagerado.

Costumo começar os storyboards quando o roteiro em texto está mais ou menos pela metade: esboço primeiro algumas imagens avulsas que mais quero desenhar e deixo os galhos da história crescerem livremente em torno delas, descobrindo aos poucos a atmosfera. Na arte-final, às vezes a densidade de certas imagens passa do esperado, e então ajusto levemente os storyboards para equilibrar o ritmo da leitura. Na maioria das vezes, até a versão final, continuo imaginando possibilidades de desdobramento da obra.

07Rest in Pieces reúne histórias feitas entre 2021 e 2024 e, nesse sentido, também documenta o seu desenvolvimento como quadrinista: você fala de aprender a desenhar mãos e pés, experimentar pincéis, explorar cenários diferentes e revisar storyboards. Olhando hoje para o livro como um todo, o que você acha que aprendeu sobre fazer quadrinhos e sobre o seu jeito de contar histórias?

Desde o começo, quando eu nem distinguia os quadrinhos que se leem da esquerda para a direita dos que se leem da direita para a esquerda, até conseguir contar uma história inteira em seis páginas, sem diálogos (“Ficar ao seu lado”), sinto que desenvolvi alguma intuição para o processo de fazer um quadrinho do zero. O ritmo dos requadros, manter a aparência dos personagens consistente, o equilíbrio entre detalhe e respiro na imagem… tudo isso ficou mais fácil de rastrear para mim.

Mas acho que o maior, o maior ganho foi confirmar que as histórias de que eu gosto também agradam a outras pessoas. Isso eliminou em boa parte o meu medo de criar e me deu mais confiança para ir mais fundo na minha consciência em busca das histórias que quero contar.

Página de Rest in Pieces
Página de Rest in Pieces.
O livro deste texto
Rest in Pieces

Rest in Pieces

Monstros feitos de órgãos humanos, homens que cavalgam gatos voadores, entidades que se alimentam de planetas, um prédio que não deixa ninguém sair e uma astronauta que encontra no espaço as almas de pessoas da Terra são algumas das situações insólitas reunidas no livro. Mas o horror de Karmarket vai além do choque: há humor, delicadeza, melancolia e uma poesia estranha em suas histórias sobre solidão, paranoia e as relações humanas.

R$ 67,92

Quem escreveu

Guilherme Ziggy e Peggy Yu

Guilherme Ziggy é formado em jornalismo e tradutor: assina "Antifa: o manual antifascista", de Mark Bray, e "Fantasmas da minha vida", de Mark Fisher, ambos pela Autonomia Literária. É autor do livro de poemas "Consultas autônomas" (Selo Demônio Negro, 2019) e já colaborou com Veneta, Todavia, Perspectiva e Pinacoteca de São Paulo, entre outras casas. Mora em São Paulo.

Peggy Yu é tradutora e intérprete de chinês-português, idealizadora da Yixin Traduções e Editora e taiwanesa naturalizada brasileira.

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