99 maneiras de contar uma história

Matt Madden e as infinitas maneiras de contar uma história

Em entrevista à Veneta, autor fala sobre as origens de “99 Maneiras de Contar uma História”, a influência de Raymond Queneau e as possibilidades formais dos quadrinhos

Por Guilherme Ziggy 30/10/2026 10 min de leitura

Matt Madden e as infinitas maneiras de contar uma história

Uma mesma história pode ser contada de muitas maneiras. Em 99 Maneiras de Contar uma História, Matt Madden parte de uma situação narrativa simples para explorá-la em 99 variações, inspiradas em Exercícios de Estilo (1947), do poeta francês Raymond Queneau (1903-1976). Publicado originalmente em 2005, o livro de Matt Madden se tornou uma referência para pensar as relações entre forma e conteúdo nos quadrinhos. Agora, com a edição brasileira pela Veneta, Madden conversa com o blog sobre a origem do projeto, seu contato com o Oulipo e o OuBaPo, a influência das restrições formais em seu trabalho e as transformações nas maneiras de contar e consumir histórias nas últimas duas décadas.

0199 Maneiras de Contar uma História começa com uma situação narrativa extremamente simples e a repete de diferentes formas. O que levou você a escolher a repetição como princípio organizador do livro? O que você queria revelar sobre uma história ao contá-la tantas vezes?

A inspiração para minha HQ foi Exercícios de Estilo, de Raymond Queneau, um livro em que o autor reconta a mesmo episódio 99 vezes, usando diferentes recursos retóricos e gêneros. Na minha versão, fui ainda mais longe na repetição rigorosa, limitando-me a uma única página e, sempre que possível, usando a mesma estrutura de página com oito quadros (os exercícios de Queneau vão de haicais curtos a peças de teatro de várias páginas).

Assim como Johann Sebastian Bach desenvolvia uma série de variações sobre uma melodia simples (como em A Arte da Fuga, que também inspirou Queneau), descobri que podia continuar encontrando variações interessantes para minha narrativa simples, fosse transformando-a em um faroeste, fosse embaralhando a ordem dos quadros. Embora o conteúdo da minha história seja bastante limitado, ele ainda se prestava a uma grande variedade de interpretações.

Um leitor comentou comigo que começou a sentir que estava lendo uma graphic novel sobre a vida de um casal. Adoro a ideia de que exista uma espécie de mundo cumulativo e contínuo sendo criado a partir de todas essas recontagens díspares.

Página de 99 Maneiras de Contar uma História

02Quando você começou a trabalhar em 99 Maneiras, já tinha entrado em contato com o OuBaPo e seus experimentos com restrições formais e variações nos quadrinhos, ou seu contato com o OuBaPo veio depois? Como essa relação, se houve alguma, influenciou o desenvolvimento do projeto?

Depois que li Exercícios de Estilo, comecei a pesquisar o trabalho de Queneau e conheci o Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), grupo de escrita experimental que ele fundou em 1960 com François Le Lionnais. Fiquei intrigado com seus jogos de palavras e estruturas matemáticas e me inspirei no oulipiano Georges Perec, que escreveu um romance sem a letra “e” (O Sumiço, 1969), para fazer dos três últimos exercícios do meu livro um equivalente visual desse conceito, contando a história enquanto eliminava um dos personagens a cada vez.

Quando comecei a desenhar, em 1998, não fazia ideia de que havia quadrinistas na França trabalhando sob influência do Oulipo, então fiquei surpreso quando conheci o OuBaPo (Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle) alguns anos depois. Não posso dizer que tenha incorporado diretamente alguma restrição específica do trabalho deles, embora certamente tenha estudado o inestimável “Premier bouquet de contraintes”, do primeiro livro do OuBaPo, OuPus 1.

Conheci Jean-Christophe Menu no Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, em 1999, e compartilhei com ele os cerca de 30 primeiros exercícios. Ele foi muito receptivo e continuamos em contato. Quando terminei de desenhar todas as páginas, em 2004, ele me ofereceu a publicação do livro na França pela L’Association.

Só alguns anos depois conheci os demais integrantes do OuBaPo, que me nomearam correspondente deles nos Estados Unidos.

Além disso, depois de terminar 99 Maneiras, mergulhei mais seriamente no trabalho deles enquanto procurava restrições que pudesse usar para criar quadrinhos.

03O livro também é uma demonstração prática de que a forma não é simplesmente um recipiente para uma história: ela muda aquilo que está sendo contado. Isso era algo que você já tinha formulado claramente quando começou o projeto ou trabalhar nas 99 versões tornou essa ideia mais evidente para você?

Entendi as implicações do projeto desde a primeira vez que li o livro de Queneau. Sempre senti que a arte é precisamente a combinação de forma e conteúdo; ela não é apenas uma ferramenta para transmitir uma mensagem, mas também não é simplesmente um recipiente abstrato, uma arte pela arte.

Dito isso, meu ponto de partida original foi pensar nisso simplesmente como um desafio criativo: eu achava divertido criar variações sobre um tema e explorar o potencial ilimitado da criatividade.

Quando o livro foi publicado, percebi que as pessoas reagiam fortemente às implicações práticas do livro e logo comecei a receber mensagens não apenas de professores de quadrinhos, mas também de escrita criativa e cinema, que usavam o livro para ensinar sobre escolhas criativas em suas aulas. Não pretendia necessariamente que o livro fosse um manual didático, mas gosto muito de ver o quanto os leitores conseguiram aprender com ele ao longo dos anos.

Do livro
Página de 99 Maneiras de Contar uma História Página de 99 Maneiras de Contar uma História Página de 99 Maneiras de Contar uma História
Imagens do livro.

04Em “O Narrador”, Walter Benjamin escreve sobre o declínio de certas formas tradicionais de transmissão da experiência e contrapõe a narrativa à informação, que se tornava cada vez mais imediata e autocontida. Mais de noventa anos depois, vivemos em uma cultura ainda mais dominada pela informação, pela velocidade e pela circulação constante de histórias. O que você acha que aconteceu com a narrativa naquele momento? Perdemos algo que Benjamin identificou ou surgiram novas formas de experiência narrativa que ele não poderia ter imaginado?

Não li esse ensaio, então não posso falar exatamente sobre o que Benjamin pretendia, mas imagino que ele esteja se referindo às tradições orais, especialmente ao período anterior à imprensa. Certamente, a narrativa longa, seja pessoal ou criativa, teve dificuldade para manter a atenção das pessoas no novo século, mas acredito que o impulso narrativo seja forte nos seres humanos, para o bem ou para o mal! Transformamos tudo em histórias para tentar dar sentido às nossas vidas. Hoje, memes e vídeos curtos são nossa principal moeda cultural e, de certa forma, são apenas mais um formato de história: acabei de ver um reel nostálgico no Instagram em que as pessoas eram convidadas a citar frases memoráveis de seus Vines favoritos (uma plataforma de vídeos de curta duração que existiu brevemente há cerca de dez anos). Esse tipo de compartilhamento se torna uma nova espécie de narrativa, como compartilhar lendas urbanas ou histórias de fantasmas ao redor de uma fogueira.

Ao mesmo tempo, são formas de expressão muito truncadas e sem raízes, então tenho que me perguntar até que ponto elas podem criar uma conexão profunda em uma comunidade.

Eu também diria que formas relativamente novas de narrativa visual, como os quadrinhos e os videogames (sem falar em cinema e séries de TV), oferecem uma forma multimodal de envolvimento que pode competir com a avalanche audiovisual pós-letrada das redes sociais e do lixo produzido por IA.

Enquanto isso, pelo menos nos Estados Unidos, livrarias independentes e de livros usados parecem estar vivendo um retorno significativo, impulsionado pela rejeição à mídia on-line baseada em clickbait, mas também, ironicamente, em parte facilitado por fenômenos como o BookTok ou pela facilidade com que, por exemplo, posso gravar um vídeo informal no meu iPhone na sala da minha casa na Filadélfia e compartilhá-lo com meus leitores no Brasil.

Página de 99 Maneiras de Contar uma História

05Desde a publicação de 99 Maneiras, em 2005, as formas como as pessoas contam e consomem histórias mudaram consideravelmente: redes sociais, memes, vídeos curtos, podcasts, jogos e narrativas interativas passaram a fazer parte da vida cotidiana. Alguma dessas formas interessa a você como leitor ou autor? Alguma coisa nelas mudou sua maneira de pensar sobre o que os quadrinhos podem fazer?

Acompanho as novas mídias e plataformas tanto quanto posso. Felizmente, tenho dois filhos adolescentes que conseguem me manter informado sobre as tendências mais recentes! Ouço muitos podcasts e, como a maioria de nós, passo mais tempo nas redes sociais do que gostaria. Também tento jogar videogames de vez em quando para ver o que estou perdendo. Embora eu seja da primeira geração de jogadores de videogame (Asteroids e Space Invaders, os primeiros sistemas domésticos da Atari), não acompanhei muito a evolução dos jogos ao longo do tempo.

Resisto a me tornar reacionário (com sucesso, na maior parte do tempo, eu acho), mas sou uma criatura da minha geração (X) e do meu século (o passado): ainda prefiro livros, quadrinhos impressos, guitarras, filmes…

Aprecio cada vez mais a riqueza da natureza tátil de um quadrinho, seja um fanzine ou uma graphic novel: seu peso, a textura do papel e a possibilidade de navegar por um espaço narrativo visual.

06Como esses experimentos com a narrativa aparecem em sua própria prática como quadrinista? Quando você começa a trabalhar em uma nova história, costuma partir da situação, dos personagens e do conteúdo, ou a estrutura e as possibilidades formais dos quadrinhos também podem ser o ponto de partida?

Depois que comecei a trabalhar em 99 Maneiras de Contar uma História, percebi que havia encontrado a maneira mais produtiva e interessante de trabalhar para mim: assumir regras e desafios lúdicos. À medida que aprendi mais sobre o Oulipo e, depois, o OuBaPo, descobri inúmeras estratégias para criar arte que não envolviam ficar encarando uma página em branco à espera de que a inspiração ou as “boas ideias” aparecessem do nada.

Praticamente todos os quadrinhos que desenhei desde 2000 partem de uma restrição. Raramente penso em um personagem ou em uma história específica; em vez disso, procuro uma regra instigante, como: um quadrinho em que cada quadro imita uma letra do alfabeto; um quadrinho que possa ser lido para a frente e para trás; uma série de quadrinhos baseada nos mesmos seis quadros, e assim por diante.

Um exemplo desse tipo de trabalho que pode ser encontrado no Brasil é minha história Bridge, publicada recentemente pela Ugra Press como A Ponte. Esse quadrinho começou como um “24 Hour Comic”, 24 páginas em 24 horas, da história inicial à arte-final, e tinha uma restrição adicional: cada página avança dez anos no tempo. Quando comecei a trabalhar, não fazia ideia de que tipo de história poderia contar, mas, ao fim da noite, tinha criado o que considero uma das minhas histórias mais bem-sucedidas e assombrosas.

Página de 99 Maneiras de Contar uma História

07Vinte anos depois de 99 Maneiras de Contar uma História, o que mudou na sua maneira de pensar sobre o projeto? Se você começasse a desenhá-lo hoje, o que imagina que seria diferente, considerando as transformações nos quadrinhos, na internet e nas redes sociais?

Ainda hoje abordo os quadrinhos e a arte narrativa, na verdade, todas as empreitadas criativas, pelas lentes que descobri com Raymond Queneau.

É interessante pensar em como seria diferente, ou não, se eu começasse a trabalhar no projeto hoje. Quantas das mesmas soluções eu encontraria? Quanto a internet e as redes sociais me influenciariam? Quando desenhei essas páginas, os webcomics ainda nem eram realmente um fenômeno e os mangás estavam apenas começando a se tornar populares no Ocidente…

A razão de serem 99, e não 100 maneiras, é que esse número incompleto, esse “quase”, sugere que sempre há mais possibilidades por aí, e essa é a coisa mais emocionante de todas.

Matt Madden começou a publicar miniquadrinhos de forma independente no começo dos anos 1990. Em 1998 lançou a primeira graphic novel, Black Candy, e em 2001 publicou Odds Off. Madden mora no Brooklyn com a esposa Jessica Abel, escritora e quadrinista. Trabalha com histórias em quadrinhos e ilustração, e é professor na School of Visual Arts e na Universidade de Yale. Seus trabalhos mais recentes foram publicados em A Fine Mess, série semestral publicada pela Alternative Comics. Saiba mais sobre ele em www.mattmadden.com ou www.exercisesinstyle.com.

O livro deste texto
99 Maneiras de Contar uma História

99 Maneiras de Contar uma História

 Uma obra que explora as possibilidades narrativas dos quadrinhos e que já é um clássico essencial para todos os amantes de histórias em quadrinhos. Um livro que pode ser lido em todas as direções.  De quantas maneiras uma única história...

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Quem escreveu

Guilherme Ziggy

Guilherme Ziggy é poeta, tradutor e editor. Escreveu “Pequena passarela sobre o abismo” (Edições Loplop, 2026) e “Consultas autônomas” (Selo Demônio Negro, 2019), publicado na Argentina em 2025 pela editora Nulú Bonsai. Traduziu Mark Fisher, Claudia Horn, Mark Bray e Caitlin Schroering. É membro do grupo surrealista DeCollage.

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