os cães

Os Cães: Madrugada em preto e branco ou cinzento vagabundos por aí

O sociólogo Mário Augusto Medeiros da Silva lê Os Cães, de João Pinheiro: uma periferia de São Paulo em preto e branco, sem pena, entre Plínio Marcos e João Antônio.

Por Mário Augusto Medeiros da Silva 22/10/2026 3 min de leitura

Os Cães: Madrugada em preto e branco ou cinzento vagabundos por aí
Cena do quadrinho Os Cães, de João Pinheiro
Andar, perambular, deambular, divagar. Vagar.

A lua por testemunha, com ou sem nuvens. Pensamentos aleatórios, frases curtas e ríspidas. Dezenas de casas amontoadas que, se viradas de ponta cabeça, torcidas de lado a outro, continuam parecendo todas iguais. Insetos viventes na sarjeta, cachorros voadores com sangue nos olhos, humanos futurando arrastando os pés pela calçada, vegetando nos sofás.

Ideia fixa: o mundo é uma prisão.

Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro

A visão da realidade em Os cães é algo que impressiona de tão desconcertante. Seja pelos traços contrastados em preto e branco, marca do estilo de João Pinheiro; ou pela crueza em que o artista faz um retrato de geração jovem, adulta, balançando o corpo por aí, em periferias urbanas como a de São Paulo, retratada nas páginas deste livro. É uma parte do todo da vida nesses bairros periféricos, mas não menos desprezível embora bastante desprezada. Uma parte invisível, como as dos jovens pixadores que arriscam muito para deixar seus grafos ou dos trabalhadores massacrados em acidentes negligenciados. Vidas vividas preto no branco, em preto e branco, por pretos e brancos. Por um fio de queda martelo.

Apesar disso, não há sentimento de pena em nenhum quadro desenhado por João. Maurinho, Vamp, Isaías deixam suas marcas sabendo que são efêmeros, que ninguém se importa com eles, nem eles mesmos uns com os outros. Os cães ladram na noite que nunca concede silêncio. Os Cães grafam no pixo que nunca é desejado e faz sempre recordar que alguém passou por ali. O mundo cão não tem bons ou maus, não é justo e é o que ele faz e se deixa fazer de si. Aqui e acolá, na arte de João Pinheiro, ressoa um tanto de Plínio Marcos e mais um bocado de João Antônio, que ao escrever Malagueta, Perus e Bacanaço reelaborou seu conto título a partir de um esboço chamado “Cinzentos vagabundos por aí”. Pinheiro é herdeiro desses dois artistas e os atualiza para o nosso tempo ruim.

Do livro
Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro
Imagens do livro.

O preto no branco, o preto e o branco são vivazes em seu traço e saltam nos nossos olhos sempre em tensão. Não há colher de chá, mesmo quando um personagem acha que pode se safar, acha que pode fugir do vazio que o consome solitário numa noite suja. Ele não pode. Ele se rende? Jamais. Levanta da sarjeta. Deixa uma mensagem final, na beira da cidade, ao leste de algum lugar. Ela pode ser lida como desesperança. Ou como chamada à luta. Caberá a quem lê decidir e tomar seu caminho.

Os cães continuam a mostrar seus dentes.
Do livro
Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro Imagem do livro Os Cães, de João Pinheiro
Imagens do livro.
O livro deste texto
Os Cães

Os Cães

Maurinho, Vampirinho, Isaías são jovens, como tantos outros, da periferia de São Paulo. Em Os Cães, João Pinheiro acompanha esse grupo de amigos em uma madrugada movida a pichação e álcool nas ruas da Zona Leste de São Paulo. Atravessam a noite compartilhando uma vida marcada pela precariedade, pela violência e pela necessidade de seguir em frente.

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Quem escreveu

Mário Augusto Medeiros da Silva

Mário Augusto Medeiros da Silva é sociólogo, escritor e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (Edições Sesc, 2023) e Caquinhos Vermelhos: contos (Fósforo, 2025)

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