Por John Updike
A ambição de John Updike era se tornar cartunista. Era um fã de quadrinhos, desses que passam os dias copiando tiras de jornal, que escrevem cartas para seus autores favoritos pedindo originais e colecionam gibis dos tempos de criança. Mas sua carreira como desenhista não teve sucesso e acabou de vez quando Updike estava com vinte e poucos anos. Ele foi obrigado a procurar outra coisa para fazer e se tornou um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. Mesmo assim, continuou um fã. E, para alguns críticos, os quadrinhos foram essenciais para sua literatura.
Como crítico cultural, em publicações como a New Yorker e a The New York Review of Books, escreveu diversas vezes sobre seus quadrinistas favoritos. Entre eles, Al Capp é o destaque. John Updike chegou a escrever "The Shuttle", um poema em sua homenagem. O texto a seguir é um trecho do prefácio que Updike escreveu em 1991 para My Well Balanced Life on a Wooden Leg, uma coletânea de textos autobiográficos de Al Capp. (R.C.)
A fama popular é efêmera; o público, esse rebanho insaciável, devora a forragem fresca, deixando o campo tosquiado para os historiadores culturais. O jogador de beisebol de ontem, no entanto, ainda tem suas estatísticas, e a estrela de cinema da década passada pode ver seus filmes de jovenzinha tarde da noite na televisão (ou alugá-los na locadora de vídeo). Mas o que até mesmo o maior artista das histórias em quadrinhos tem? Suas velhas tiras, que podem ser encadernadas em livros, como as de Al Capp foram e serão mais uma vez; porém, é um tipo seco de imortalidade. Parte do poder e do charme das tiras de jornal é que elas se renovam constantemente diante de nossos olhos — chega junto do café e do cereal, e é saboreada em menos de um minuto e não volta a ser vista até 24 horas depois, quando sua pequena aventura avança mais um degrau, como se a grande roda dentada do completo giro diário de nossas vidas agitadas mal se movesse. Ferdinando — como lembro dos dias, desde que comecei a ler, quando nunca perdia uma tira — sempre terminava seus episódios no meio da semana e começava outro no dia seguinte, para que os leitores não se desviassem durante o fim de semana.
Com que maestria, na temerária variedade e na impetuosa extravagância de sua invenção, Capp jogou com seus milhões de leitores! É preciso ter ouvido Caruso cantar e é preciso ter acompanhado Ferdinando nos jornais para ter a dimensão desses feitos. Em seu auge, nos anos 1930, 1940 e 1950, nenhuma outra tira provocou com tanta consciência seu vasto público americano; nenhum outro cartunista lançou tantas piscadelas sobre a cabeça de seus personagens ingênuos.
A Little Orphan Annie de Harold Gray e Dick Tracy de Chester Gould eram, em comparação, totalmente bidimensionais, simplórios e sem humor, apesar de sua grotesqueria. Depois de conhecer a paródia de Capp, Fearless Fosdick [Joe Cometa, na edição brasileira], você nunca mais conseguiria ler Dick Tracy com uma cara séria.
A nota de paródia, e de autoparódia, estava latente na mise-en-scène de Dogpatch — esse simplório musculoso de natureza doce, com pais minúsculos e um porco de estimação em seu frágil barraco, essa virgem de mente pura, com o corpo voluptuoso quase saltando dos shorts esfarrapados e da blusa de bolinhas. A suculência anatômica de Violeta Ouriço e da empesteada de pulgas Dulçurosa Suíno, desenhadas com tanto brio amoroso, era em si uma piada ousada e incomum nas classes castas dos "comics". Quando o Cândido caipira de Capp encontrava delegados do perverso mundo exterior, ou encontrava em Dogpatch representantes das grandes tendências nacionais, a riqueza de comentários sociais e filosóficos se aproximava do voltairiano.
Entre o fim de Krazy Kat e o início de Pogo, que história em quadrinhos além de Ferdinando teve tanta ironia ou proporcionou tamanho prazer intelectual? As tiras de histórias em quadrinhos de aventura da época em geral apresentavam um super-homem rígido — Mandrake, Fantasma, Smilin' Jack, Joe Palooka — remanescente de tempos mais simples, uma era de mitos laboriosos e desenho inflexível. Capp, com sua alegre abundância de bizarrias fantásticas e alusões às atualidades, quebrou esse molde e, até quase o fim, quando a tira parecia sair do controle desgovernada, ele trabalhou vertiginosamente no limite do que era possível em uma forma de arte de pouco prestígio.
Sua penetração no mercado de massa não se baseou em uma única imagem icônica. O Dia da Maria Cebola escapou de Dogpatch para se tornar um rito de empoderamento feminino em faculdades e clubes de campo. Marryin’ Sam [Sam Casamenteiro, na edição brasileira] se tornou um termo pervasivo. Kickapoo Joy Juice [Licor Matarrato, na edição brasileira] foi outro. Bonecos dos Shmoos apareciam em todas as lojas de dez centavos para questionar, com seus traseiros bulbosos e olhos preocupados, nossa capacidade humana de viver em uma utopia. A paródia Joe Cometa assumiu a vitalidade de uma saga independente quando seu herói inflexível, vivendo de crostas de pão e tão cheio de buracos quanto uma fatia de queijo suíço, levou o dever policial aos extremos sangrentos da santidade barroca. Os verdadeiros perigos da Depressão e da Segunda Guerra Mundial encontraram equivalentes assustadores em Teetering Rock, na nuvem negra que ia para todos os lugares com Joe Btfsplk, em Véio Moisés, cheio de sabedoria em seu corpo ossoso, nanico, semelhante a Gandhi, vivendo em uma caverna.
Dogpatch, tão pequena e inocente em sua gênese, cresceu sem parar, dando origem a novos enclaves e aberrações da natureza, conforme o dom de Capp para a metáfora burlesca se ramificava e florescia. Ferdinando era uma história em quadrinhos com fogo nas entranhas e um cérebro na cabeça.
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John Updike (1932–2009) foi um escritor, romancista e ensaísta norte-americano, reconhecido por suas obras que exploram as complexidades da vida suburbana e das relações humanas. Embora seja mais famoso por sua série Rabbit, Updike também tinha uma paixão notável por quadrinhos.
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