Por Anelis Assumpção
Na minha casa de infância, não tínhamos vitrola até 1990. Ouvíamos rádio e meu pai tinha um gravador toca-fitas e uma pequena coleção de K7s. Em 90 ele comprou um 3 em 1, e instalou na pequena sala de nossa casa com as caixas suspensas como P.As em boates. Mas o que ouviríamos? Papai nos levou à galeria onde tinha a loja de discos que o distribuia à época, chamada Baratos e Afins, mas dessa vez, ele ao invés de receber o valor que lhe competia sobre a venda de seus discos, trocou por LPs diversos. Voltamos de metrô com sacolas cheias de álbuns, loucos pra botar pra girar. Era basicamente tudo de Miles e Marley que tinha na loja.
Rastaman Vibration foi o primeiro a rodar naquela micro sala. Era sábado, fazia sol. O som cabia macio naquele espaço minúsculo que propagava música pelos cômodos ao redor. Saímos pro quintal pra ver se dava pra ouvir bem do lado de fora. "Positive vibration" soando alto. Papai gostava de dançar junto, de par. Me rodou e depois minha mãe e irmã. Ele que nunca tinha ido ao Maranhão, também dançava reggae agarradinho. Vai ver tinha referência ao batuque de umbigada de sua Tietê.
O disco seguiu tocando. Fomos nos acalmando. Chegou ao final do lado A e corremos pra ver quem viraria então o disco com cuidado pra que não riscasse. Voltamos pra dentro e ouvimos o lado B sentados em frente ao 3 em 1. Serena que era das línguas, nos explicava o que diziam as letras e quando acabou, eu quis ouvir tudo de novo. E depois mais uma vez e assim foi o final de semana inteiro. Demorou pra que ouvíssemos qualquer outro disco dos que tínhamos trazido. Eu repetia taurinamente o disco até decorá-lo. Uma ambiência alaranjada tomava conta do meu corpo e eu sentia uma estranha paz.
Assim segui por 36 anos e toda vez que preciso dessa calma, volto a este álbum que em 2026 completa cinquenta anos.
No dia 30/1 (sexta-feira) farei um show perfumado no Circo Voador e certamente alguma pérola dele estará no repertório e com a graça de Jah Jah sentiremos o laranja a nos invadir como naquela pequena sala na periferia de SP.
Not Falling Summer
30/1
Rio de Janeiro
Circo Voador
Nascida em São Paulo, em 1977, Anelis Assumpção é cantora e compositora. Já lançou três discos e ganhou os prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca), em 2014, e Deezer de artista do ano, em 2015. É filha do músico Itamar Assumpção (1949-2003), um dos principais expoentes da vanguarda paulista, e irmã de Serena (1977-2016), também cantora e compositora, indicada ao Grammy Latino pelo álbum Ascensão, e homenageada neste livro.
