Por Rogério de Campos
Em Jerusalém, a artista plástica Alma Warren é a alter ego de Alan Moore. Assim como Alan, Alma foi criada no Boroughs, o mais antigo bairro de Northampton, tem um irmão chamado Mick, é fã dos quadrinhos de Ogden Whitney e gosta de grandes charutos de haxixe. Veja o texto Jerusalém: a autobiografia de Alan Moore?
No livro, Moore capricha no retrato de sua Alma. Aqui alguns trechos do livro:
“A não ser pelo rosto, Mick admitia que Alma era o que se descreveria como chamativa, mais que feia, mesmo àquela altura do campeonato. Com quantos anos estava agora, cinquenta e um? Cinquenta? Chamativa, sem dúvida, se com isso se quisesse na verdade dizer assustadora. Tinha um metro e oitenta, dois centímetros a menos que o irmão, mas de salto ficava um metro e oitenta e sete, o cabelo castanho longo e sem corte que assumia um tom de cobre empoeirado aqui e ali, caindo como cortinas de segurança de cada lado do rosto de ossos salientes em um estilo que Mick um dia a ouviu descrever como “caveira com samambaias”9. Então, claro, havia seus olhos, assombrosos e imensos quando não estavam espremidos à maneira típica dos míopes, com íris cor de ardósia em que um amarelo cítrico extraterrestre irrompia em torno das pupilas como um eclipse total, cílios grossos cedendo sob o peso do rímel”
“Mick às vezes achava que a irmã estava do lado errado da beleza, porém era mais engraçado insistir que ela parecia com Lou Reed na capa do Transformer, ou “um Frankenstein glam solarizado”, como Alma havia reformulado com uma boa dose de satisfação, dizendo que usaria aquilo na biografia do catálogo na próxima vez que fizesse uma exposição de suas pinturas”
“A voz de Alma havia sido curtida pela fumaça até se transformar num acorde de baixo grave agourento reverberando em uma igreja gótica”
“Alma Warren, posando mal-humorada de óculos de sol e jaqueta de couro, como uma ovelha vestida de Olivia Newton John”
“Mesmo naquela época, não a confundiriam com uma menina. Nem com um menino, aliás. Era grande demais, determinada demais, alarmante demais para ser qualquer outra coisa além de Alma, com um gênero próprio”
“Alma Warren, mal saída da cama e nua diante o espelho monstruoso do banheiro, olhando com cara de sono para a carne flácida de cinquenta e três anos e ainda se achando uma delícia. Ela julga sua persistente vaidade quase heroica considerando a escala de seus delírios. Está preparada para encarar os fatos, com a convicção de que os fatos vão apenas gritar e fugir”
“São sete e meia da manhã, hora de começar seu longo e rigoroso trabalho de tentar intimidar os outros ocupantes do planeta. Não que Alma considere essa tarefa autoimposta algo especialmente difícil. O problema é que há muita gente, e pouquíssimo tempo”
“Alma se permite a gargalhada gutural de um ogro que acaba de perceber onde as crianças estão escondidas”
“A cabeça gigante de Alma está agora escondida dentro de um sino de igreja feito de cabelo, de modo que, se fosse vista dos ombros para cima, as pessoas não teriam ideia de que lado estava”
“Por toda a vida, Alma havia tomado decisões obstinadas que tinham funcionado para ela, desafiando todas as probabilidades, e qualquer um seria obrigado a admitir que, para uma cria dos Boroughs, ela havia se dado muito bem”
Rogério de Campos é autor de livros como Um Santo em Marte, O Segredo da Sedução do Inocente e Revanchismo.
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