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Educadores deram algumas dicas de como tratar de assuntos relacionados à política com as crianças, para além do período eleitoral

Por Seham Furlan

Próximo às festividades de São João, a professora Vladia Freire viu-se em meio a uma espécie de assembleia de crianças em sala de aula. Elas queriam convidar um músico regional, e avô de uma das alunas, para tocar na escola. Debateram sobre como elaborar o convite: “Podemos desenhar balão e bandeirinha”; “Precisa ficar bem colorido”; “A gente escreve, desenha e Sofia entrega para o avô”; “Não esquece de dizer que será no ginásio pequeno”. De forma coletiva, as crianças foram dando suas opiniões e decidindo, passo a passo, o que era necessário. A professora as observava, ouvia suas opiniões e mediava quando havia necessidade. Dessa forma, o convite foi concluído e entregue conforme as sugestões das crianças.

Capa de Ratolândia, de Alice Méricourt e Ma Sanjin.

Votar, realizar assembleias e partilhar ideias são ações que nos remetem à esfera política, mas não são exclusivas dos políticos. Elas fazem parte do cotidiano de todo mundo, inclusive das crianças. Para além dessas ações corriqueiras, como as vividas pelos alunos de Freire (realizar uma assembleia, tomar uma decisão em conjunto, discutir ideias em grupo), conversar sobre política ganha ainda mais importância em um ano eleitoral como este em que estamos vivendo. E as crianças podem começar a questionar: o que, afinal, são as eleições? Isso tem importância? O que é democracia?

 “Os últimos anos em nosso país têm sido um desafio para responsáveis e também para crianças. Manifestações de rua entraram no cotidiano da cidade, além de centenas de reportagens na televisão”, lembrou o professor Fábio Serra de Souza. “Elas são curiosas”, continuou, “principalmente, com aquilo que circula em seu universo e que as aproxima das preocupações dos adultos. Somos seres políticos, nos constituímos nas relações com os outros, condições nas quais as crianças também estão inseridas, por conta do processo de socialização”.

Para compreender um pouco melhor como abordar temas relacionados à política com as crianças, a Veneta conversou com Vladia Freire, pedagoga e formadora de professores na Rede Municipal de Educação de Campina Grande (PB), e Fábio de Souza, cientista social, professor e especialista em História, Sociedade e Cultura pela PUC-SP. Separamos algumas dicas que podem auxiliar responsáveis e professores nessa empreitada ao lado dos pequenos curiosos.

1. Decidir em conjunto

Para Vladia Freire, fazer com que as crianças vivenciem processos democráticos na educação infantil relacionados ao voto, estimula a participação e a consciência política: “Em diferentes momentos do cotidiano, podemos levantar situações problemas nas quais as crianças precisem pensar juntas e fazer escolhas através do voto”.

De acordo com a pedagoga, o recurso pode ser usado em diversas situações, “algumas mais simples, corriqueiras, como a decisão sobre história que gostariam de ouvir, a brincadeira que querem brincar”, explicou. Em outros casos, a conversa demanda maior tempo e discussão: “algumas situações podem envolver, por exemplo, a decisão sobre a forma de se realizar um trabalho escolar. Os alunos podem ser estimulados a participar dessa decisão”.

Fábio de Souza distinguiu atividades do âmbito privado e público: “Podemos garantir o diálogo como principal recurso da relação familiar, para decisões simples, como decisões de roupas, o livro a ser lido, até que as crianças, já maiores, tenham maiores habilidades de compreender e negociar outros combinados”. Já no espaço escolar, “pode-se estimular a reflexão através de diferentes leituras, apresentação de outros pontos de vista, para que as crianças compreendam que há outros interesses além dos seus”, acrescentou.

2. Grêmios estudantis

Uma das experiências mais frutíferas durante o período escolar é o envolvimento de crianças em grêmios e conselhos estudantis. Essa experiência os estimula a tomar partido na realidade do ambiente escolar e seu entorno.

“O importante é dar voz às crianças e fazê-las perceber que também são importantes nas tomadas de decisões”, explicou Souza. Segundo ele, “estimular a participação dos alunos em tomadas de decisão, com representação de sala, conselhos estudantis, ou grêmios, pode garantir a interação com outros alunos, e fazer valer o interesse coletivo”.

De acordo com Freire, “é preciso problematizar as situações com as crianças, elas precisam se sentir implicadas em cada processo, compreender que a percepção e atuação delas é importante para se pensar o todo”, diz Freire: “Ao perceber determinada insatisfação das crianças por algo importante, é importante conversar e agir para que a criança se sinta ouvida e respeitada em sua necessidade”.

3. Falar sobre a realidade

Apresentar temas complexos às crianças é um desafio, por isso, de acordo com os entrevistados, o melhor é aproveitar a curiosidade natural das crianças para lidar com assuntos da realidade, como a política. 

“Quando aparecer alguma questão, alguma dúvida sobre o noticiário, por exemplo, é interessante praticar a conversa, utilizando elementos do cotidiano da criança para fazê-las compreender o que acontece com o mundo onde estão inseridas”, destacou Fábio de Souza. O educador afirmou que também é necessário ter sensibilidade para que assuntos não sejam endereçados às crianças como verdades absolutas.

Vladia Freire ressaltou que os livros e a internet podem ser aliados nesses momentos: “A leitura  pode gerar engajamento entre as crianças para que pensem soluções juntas, seja na escuta e no respeito ao direito de escolha do outro, seja na busca para a efetivação dos problemas sugeridos ao grupo”.

 

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