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O Grande WWH

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Leia a seguir o prefácio de O Melhor dos Super-Heróis! Wonder Wart-Hog

Por Paul Buhle

Nos anos 1960 e 70, nenhum leitor da “imprensa underground” nos campi dos Estados Unidos e da Europa – assim como equivalentes espalhados pelo resto do mundo – ficou totalmente imune ao humor iconoclasta de Gilbert Shelton. Robert Crumb, seu contemporâneo mais famoso, parecia “mais profundo”, e sua arte teve um impacto histórico, mas Shelton sabia divertir o público da contracultura.

Nascido em Dallas em 1940, Shelton se graduou em estudos sociais em 1961 no campus principal da Universidade do Texas. em Austin. Buscando uma carreira no jornalismo, ele se mudou para Nova York, entrou para a equipe de uma revista automotiva, onde publicou seus desenhos. Ali, naquela cidade que os quadrinhos do Super-Homem batizaram de “Metrópolis”, ele começou a elaborar o Wonder Wart-Hog.

Driblando o alistamento militar com um passe de estudante, Shelton entrou na faculdade no Texas. Foi quando desenhou as duas primeiras histórias de “WWH” para uma revista universitária de humor, e se envolveu na publicação de um dos primeiros gibis “underground”, Adventures of Jesus, de Frank Stack.

Em meados de 1960, Shelton viajou de Cleveland para Los Angeles e depois Nova York. Passou alguns meses na equipe do tabloide East Village Other, um dos principais veículos para a divulgação dos “quadrinhos underground”, um termo que ainda esperava por ser criado. Enquanto esteve em Nova York, visitou Harvey Kurtzman, fundador da revista MAD, que o convidou para publicar na revista satírica HELP! em 1964-65.

Com experiência anterior como colaborador e às vezes editor na Texas Ranger, uma publicação mensal universitária, Shelton tinha, de certo modo, se preparado para a cultura jovem emergente. Austin, a capital liberal e desregrada de um estado conservador de caubóis e petroleiros, notoriamente reunia dissidentes e rebeldes, encorajando suas ideias, sua música e seu pronto entendimento da mudança cultural dos anos 1960.

A transformação de Shelton em figura icônica nos quadrinhos remonta ao início da imprensa “underground”. Tabloides locais baratos começaram a aparecer irregularmente a partir de 1966, financiados, em sua maior parte, não por publicidade, mas pelas vendas de rua feitas por equipes de voluntários e os próprios artistas. O design das páginas, principalmente, introduzia formatos artísticos muito diferentes do que existia na imprensa convencional. Membros do campus e de sua comunidade pegavam cópias principalmente pelas informações e pelas opiniões sobre a Guerra do Vietnã. A identificação mais ampla desses jornais com a crescente contracultura e com atitudes mais abertas em relação a sexo, música e drogas colocou essas publicações no centro da atenção local.

The Rag, cujo conteúdo mais popular eram as histórias de Shelton, estava na vanguarda desse movimento florescente. A troca de material entre as publicações underground espalhou sua arte, e em 1968 o artista já tinha alcançado dezenas de milhares de leitores. Esse sucesso encorajou Shelton e um amigo a publicar Feds’n’Heads, uma pequena, mas encantadora antologia que usava o LSD como o centro cômico.

Feds’n’Heads só alcançou alguns devotos, mas um devoto em particular: eu. Em janeiro de 1969, a palavra “comix”, logo adotada universalmente, ainda não tinha sido criada. Consequentemente, Radical America Komiks, lançado naquele mês em Madison, Wisconsin, tinha o “k” incomum duas vezes. Também tinha o papel incomum de ser produzido por e para o maior grupo de estudantes ativistas que já existiu nos Estados Unidos: o Estudantes por Uma Sociedade Democrática (Students for a Democratic Society, SDS), então com 80 mil membros e centenas de milhares de ativistas locais em muitos campi e algumas comunidades.

Uma pequena doação de uma entidade de esquerda, fundada com o legado de uma empresa de lingerie feminina há muito extinta, me possibilitou “contratar” Gilbert e seus colegas para produzir uma edição da Radical America, a revista teórica da SDS, que eu editava. Foi uma edição igualmente devotada aos sentimentos antiguerra e aos maconheiros. Nela encontramos Wonder Wart-Hog, em uma das histórias mais politicamente explícitas de Shelton, “Smiling Sergeant Death”, uma sátira dos quadrinhos de guerra. Metidos em uma situação desesperada após aterrissarem secretamente na China, os guerreiros secretos americanos se veem cercados e na iminência de serem alvejados… até que Wonder Wart-Hog aparece para socorrê-los. Não que eles merecessem serem resgatados, como veremos no clímax da história.[1]

Naquela época Shelton já estava de mudança para a região da baía de San Francisco, onde se reuniria com quadrinistas (vários deles também de Austin), juntos com editores, formando um dos centros de produção dos quadrinhos underground. Leitores deste livro vão se recordar de alguns dos outros membros dessa turma, todos amigos de Shelton, incluindo Spain Rodriguez e Robert Crumb.

A produção de quadrinhos underground foi adiante nos anos 1970, até que uma série de problemas exterminou a maioria deles. O desaparecimento em larga escala da contracultura nos anos 1980 e o fechamento pela polícia ou pelo aperto econômico de lojas especializadas na cultura maconheira essencialmente exterminou o gênero (ele renasceu depois, em uma escala muito menor, como “quadrinhos alternativos”).

Ao longo dessa história, Wonder Wart-Hog nunca esteve ausente. Em 1962, a revista feminina Mademoiselle, de circulação imensa, publicou um artigo sobre o Hog em sua “edição universitária”. Wonder Wart-Hog apareceu intermitentemente com os Fabulous Furry Freak Brothers nos jornais underground, e Shelton, com o Hog, juntou-se ao time de artistas da revista ZAP!, que conseguiu entrar no século XXI.

Gilbert Shelton – com um grupo de artistas colaboradores, alguns deles também de Austin – operava um tipo de máquina do tempo da contracultura, ajustada para o novo clima cultural e públicos maiores e cada vez mais jovens. Isso talvez explique porque Shelton teve muito mais êxito internacional que Robert Crumb, Spain Rodriguez e outros velhos amigos e colaboradores.

Gilbert teve um grande talento para contar histórias, em particular histórias que foram adotadas com paixão pelos jovens que se sentiam estranhos às culturas comerciais existentes. Histórias sempre divertidas, recordando aos leitores que a contracultura resiste, ainda que formada talvez só pelos desenhistas daqueles gibis e seus leitores. Gilbert e sua equipe de colaboradores ofereceram aos leitores tanto gargalhadas quanto um conforto. Uma mensagem para dizer que eles não estão sozinhos.

[1] “True Battle Story! Smiling Sergeant Death and His Merciless Mayhem Patrol”, em Radical America Komiks (reedição), 2019, ed. de Paul Buhle. Oakland: PM Press, 2019.

 

Paul Buhle é autor e editor de mais de três dezenas de livros. Foi professor sênior na Universidade Brown e hoje produz quadrinhos radicais. Fundou a revista Radical America, do SDS, e o arquivo História Oral da Esquerda Americana e, com Mari Jo Buhle, é coeditor da Enciclopédia da Esquerda Americana. Ele vive em Madison, Wisconsin.

 

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