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Miguel Vila celebra o voyeurismo em Fiordilatte: “Contar histórias é espionar pessoas que nem existem”

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Em sua estreia no blog da Veneta, o jornalista Ramon Vitral, criador do site Vitralizado, bate um papo com Miguel Vila, autor de Fiordilatte

Por Ramon Vitral*

O álbum Fiordilatte marca a estreia do italiano Miguel Vila no Brasil. Com tradução de Michele Vartuli, o livro traz a história de uma espécie de triângulo amoroso envolvendo os namorados Marco e Stella e uma jovem mãe chamada Ludovica. O rapaz fica obcecado com os seios fartos de Lulu, ainda amamentando seu bebê de poucos meses.

“Às vezes, as ideias podem ser acidentais e esse foi o caso”, me conta o artista sobre o ponto de partida da HQ. “A história veio à minha mente depois que desenhei a personagem Lulu borrifando seu leite materno em uma xícara de café, assim sem motivo. Achei que seria apenas mais uma arte engraçada e grosseira para o Instagram, então percebi que a própria personagem desencadeou em mim diversas histórias possíveis, e não poderia perder essa chance”.

Minha sensação com Fiordilatte foi estar lendo uma história em quadrinhos por meio de um buraco de fechadura. É mais ou menos como se não fosse para eu estar vendo aquilo ali. Ou então, como se até soubessem que tô acompanhando aquela história, mas os personagens seguem seu espetáculo e fazem vista grossa para a minha presença.

Perguntei para Vila, sobre esse meu sentimento. Ele disse que a intenção era mais ou menos essa mesmo.

“Para mim, contar uma história é, na verdade, espionar pessoas que nem existem”, me respondeu o quadrinista de 31 anos, natural da cidade de Pádua, no norte da Itália.

Ele depois elaborou: “Personagens fictícios podem ser vistos como cobaias humanas: podem ser sujeitos a experiências mesquinhas. Uma história é só isso, não apenas espionar outras vidas, mas tentar controlá-las e fazê-las colidir”.

Paisagem veneziana

Para mim é explícita a influência de quadrinistas indie norte-americanos no trabalho de Vila. Vejo muito Chris Ware (Jimmy Corrigan – O Menino Mais Esperto do Mundo) e Nick Drnaso (Sabrina) em Fiordilatte. Ele não chega a ser frio e distante como essas contrapartes americanas às vezes me soam. Seu humor é mais aflorado e sua trama mais passional, mas o diálogo existe.

Miguel Vila

A ambientação contemporânea, os dramas modernos, a relação com tecnologias e a solidão de grandes centros urbanos são alguns dos temas típicos desses artistas norte-americanos que ecoam em Fiordilatte. A


influência estética também é enorme.

Ele atribuiu a Ware os designs de páginas intercalando painéis quadrados e circulares: “Uso um layout ‘livre’ porque me ajuda a descrever cada cena da maneira adequada. Alguns momentos da história precisam de um close-up intenso, outros podem ser divididos em pequenos quadrados, apenas para mostrar uma única ação. É como controlar o espaço e o tempo”.

De Drnaso ele celebra principalmente as cores: “A paleta dele é uma das minhas preferidas, adoro como ele descreve espaços escuros usando mais do que poucas tonalidades, recriando aquela baixa percepção que temos ao ver sem luz”.

Dos dois autores ele também celebra a ambientação urbana: “Fiordilatte se passa em uma cidade antiga fictícia com todas as características arquitetônicas provenientes do interior do Vêneto [região da Itália onde fica Pádua]. Por outro lado, Padovaland, meu primeiro livro, é sobre o novo subúrbio de Pádua. Em ambos os casos desconstruí a morfologia interior destes lugares para recriar a minha própria paisagem que pudesse comunicar melhor com as personagens”.

Vida real

Talvez o que Vila ofereça de mais singular em Fiordilatte diga respeito às personalidades de seus protagonistas. Os desenhos e as cores do autor são espetaculares, seus designs de páginas são singulares, mas são as muitas nuances de seus personagens que fazem de seu álbum de estreia no Brasil uma obra especial.

Ele parece empenhado em dificultar qualquer posicionamento do leitor em relação às ações de seus protagonistas.

“Para mim, é simplesmente errado tomar partido em uma história”, me diz Vila. “Estamos acostumados a fazer isso, mas contar com a ‘moralidade’ dos personagens pode ser prejudicial. O que quero dizer é que você pode mostrar muitas coisas em uma única pessoa fictícia, algumas delas podem ser boas, más, estranhas ou apenas contraditórias; essa é a magia por trás dos indivíduos, especialmente na vida real”.

 

Confira a íntegra da entrevista com Miguel Vila:

Ramon Vitral: Você pode falar um pouco sobre a sua relação com histórias em quadrinhos? Aliás, para além dos quadrinhos, o que mais você gostar de ver, ler e ouvir? Que tipo de arte te inspira?

Miguel Vila: Adoro fazer histórias em quadrinhos, mas na verdade não sou um grande leitor de quadrinhos. Quer dizer, eu leio quadrinhos, mas não tanto quanto romances literários. A maior parte da inspiração visual de que preciso para meus livros vem da fotografia e, claro, do cinema; este em particular tem muito em comum com a narrativa em quadrinhos.

RV: E o que mais te interessa especificamente sobre a linguagem das histórias em quadrinhos?

MV: Os quadrinhos podem falar sobre qualquer coisa e de muitas maneiras diferentes e, acima de tudo, podem contar algo novo, mesmo que não seja realmente novo. As imagens desenhadas são verdadeiramente poderosas quando nos surpreendem apenas mostrando o nosso dia a dia. E o engraçado: não é tão caro! Cada decisão da história é feita pelo autor, portanto os custos de produção (às vezes) podem ser muito baratos.

RV: Você pode falar um pouco também, por favor, sobre as suas origens? Você é de Pádua, certo? Você ainda vive em Pádua? Como a sua cidade e o local no qual você cresceu influenciam o seu trabalho?

MV: Nasci em Pádua e atualmente moro aqui. É uma cidade de tamanho médio no norte da Itália, muito perto de Veneza. Meus primeiros três livros foram inspirados nessas “paisagens” com as quais cresci. Fiordilatte, por exemplo, se passa em uma cidade antiga fictícia com todas as características arquitetônicas provenientes do interior veneziano. Por outro lado, Padovaland, meu primeiro livro publicado na Itália, é sobre o novo subúrbio de Pádua, como o título sugere. Em ambos os casos desconstruí a morfologia interior destes lugares para recriar a minha própria paisagem veneziana que pudesse comunicar melhor com as personagens.

RV: Fico curioso sobre o ponto de partida de Fiordilatte. Houve alguma inspiração em particular que te motivou a desenvolver essa HQ?

MV: Às vezes, as ideias podem ser acidentais, e esse é o caso. A história de Fiordilatte veio à minha mente depois que desenhei a personagem Lulu borrifando seu leite materno em uma xícara de café, assim sem motivo. Achei que seria apenas mais uma arte engraçada e grosseira para o Instagram, então percebi que a própria personagem desencadeou em mim diversas histórias possíveis, e não poderia perder essa chance.

RV: Eu li Fiordilatte sem ter lido muito sobre a HQ. Minha impressão enquanto lia foi estar acompanhando os seus personagens por meio do buraco de uma fechadura. Depois li algumas resenhas falando sobre o aspecto voyeurístico do seu trabalho. Você tem algum interesse em particular por um olhar voyeur do mundo e da sociedade?

MV: Sim, tenho. Para mim, contar uma história é, na verdade, espionar pessoas que nem existem. Mas não creio que seja só isso: personagens fictícios podem ser vistos como cobaias humanas, podem ser sujeitos a experiências mesquinhas. Uma história é só isso, não apenas espionar outras vidas, mas tentar controlá-las e fazê-las colidir.

RV: Como leitores, estamos sempre julgando personagens. Essa sua opção por não entregar tudo sobre seus protagonistas dificulta uma opinião definitiva. Me solidarizei e senti repulsa por cada um deles em mais de um momento. Enfim, como você se relaciona com os seus personagens?

MV: Para mim, é simplesmente errado tomar partido em uma história. Estamos acostumados a fazer isso, mas contar com a “moralidade” dos personagens pode ser prejudicial. O que quero dizer é que você pode mostrar muitas coisas em uma única pessoa fictícia, algumas delas podem ser boas, más, estranhas ou apenas contraditórias; essa é a magia por trás dos indivíduos, especialmente na vida real. Mas quando você decide que seu personagem vai ser bom, você está reduzindo uma ampla gama de possibilidades para a história.

RV: O seu traço é muito bonito, mas fiquei particularmente impactado pelas cores do seu livro. Você tem alguma abordagem em particular em relação à construção da sua paleta?

MV: Obrigado. Como nos meus outros livros, essa paleta apenas imita a estética real da periferia veneziana: as fachadas dos prédios novos por aqui são todas em tons pastel, até os antigos acabam tendo e eles são todos tão kitsch… Outra razão poderia ser, especialmente em Fiordilatte, destacar algum tipo de “sensibilidade visual” em cada elemento da história, desde os doces até o peito humano, uma sensibilidade que o leitor pode saborear por si só.

RV: Eu vi algum diálogo do seu livro, da sua arte, das suas cores e dos seus designs de páginas com alguns autores indies americanos. Vi elementos que me lembraram de trabalhos de Chris Ware e Nick Drnaso, por exemplo. Esse mundo dos autores indies dos EUA é uma influência para você?

MV: Claro, especialmente o estilo mais recente do Ware. Foi aí que aprendi a usar layouts com painéis quadrados e circulares. Além disso, adoro como ambos (mas você também pode ver em autores italianos como Bacilieri ou Fior) percebem a arquitetura como um elemento importante de suas histórias, como se eles próprios fossem personagens. Drnaso foi revelador para algo que as pessoas podem considerar menos: as cores. A paleta dele é uma das minhas preferidas, adoro como ele descreve espaços escuros usando mais do que poucas tonalidades, recriando aquela baixa percepção que temos ao ver sem luz.

RV: Ainda sobre os designs das suas páginas, fiquei com a impressão que você não repete nenhum design, nenhuma disposição dos quadros, em mais de uma página. Por que isso?

MV: É verdade, utilizo um layout “livre” porque me ajuda a descrever cada cena da maneira adequada. Alguns momentos da história precisam de um close-up intenso, outros podem ser divididos em pequenos quadrados, apenas para mostrar uma única ação. É como controlar o espaço e o tempo. Portanto, a utilização de grandes espaços em branco entre os painéis tem a função de remodelar o layout de forma que funcione melhor para o leitor e, também, pareça geometricamente harmonizado.

RV: Tem alguma obra em particular que você tenha lido, ouvido ou visto que te chamou atenção e você poderia recomendar?

MV: Vou sugerir algumas histórias em quadrinhos de autores italianos: Non mi posso lamentare, de Paolo Cattaneo; Malibu, de Eliana Albertini; e Celestia, de Manuele Fior. Essas histórias descrevem paisagens urbanas reais de uma forma muito original. Pode ser uma oportunidade para um leitor estrangeiro descobrir como pode ser o norte da Itália.

*

Oi. Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista, edito o blog Vitralizado e sou autor do livro Vitralizado – HQs e o Mundo (MMarte). O texto que você acabou de ler marca a estreia da minha coluna quinzenal no blog da Veneta. Minha proposta por aqui é garimpar o catálogo da Veneta, títulos antigos e lançamentos. A ideia é entrevistar autores e analisar algumas obras da editora, refletir sobre arte e a nossa realidade. Volto em 15 dias. Até!

 

 

 

 

 

 

 

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