Por Erick Corrêa e Gabriel Teles
A notícia da morte de Raoul Vaneigem, um dos principais teóricos da Internacional Situacionista (IS, 1957-1972), produz um efeito curioso. Não exatamente tristeza. Tristeza pressupõe intimidade. Tampouco surpresa, já que a biologia cumpre seu expediente sem consultar calendários políticos. O que ela produz é outra sensação, menos evidente: a de que o século XX continua acabando, peça por peça, como um edifício cuja estrutura permaneceu de pé muito depois de ter perdido a função.
Morre alguém que pertenceu à última geração capaz de imaginar que a crítica da sociedade pudesse desembocar numa transformação da vida. Não numa alternância de governos, nem numa administração mais racional do capitalismo, nem numa redistribuição menos obscena da riqueza. A própria vida estava em questão. A forma de trabalhar, de amar, de habitar as cidades, de experimentar o tempo, de falar, de desejar. Hoje essa ambição soa excessiva. Talvez justamente porque a realidade tenha se tornado ainda mais estreita, confinada por um turbilhão de banalidades.

Há um detalhe que costuma escapar. Vaneigem não escreveu para denunciar a exploração. A tradição marxista já o fazia havia mais de um século. Escreveu para denunciar o que acontece quando a exploração deixa de parecer exploração e passa a organizar espontaneamente os gestos mais banais da existência. Escreveu sobre quando o indivíduo administra a própria servidão com a satisfação de quem acredita estar exercendo autonomia. Quando a mercadoria já não precisa convencer ninguém, porque passou a fornecer o vocabulário com que cada um interpreta a si mesmo, transformando a inteira vida cotidiana em um “luxo de pobreza”, condição em que o conforto material e os bens de consumo modernos, em vez de nos libertar, tornam-se novas formas de exploração e alienação
Essa intuição encontrou sua formulação mais poderosa em A Arte de Viver para Novas Jovens Gerações (1967), livro publicado no mesmo ano de A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord. Muitas passagens deste livro encontraram, nos muros do Quartier Latin, em Maio de 68, o seu meio de comunicação mais adequado. Se Debord analisava a autonomização das imagens e das mediações sociais, Vaneigem investigava a colonização da experiência cotidiana. Os dois textos dialogam continuamente, embora partam de perspectivas distintas. Um observa a objetividade das formas sociais; o outro interroga a subjetividade produzida por elas.
O mundo pós-68 realizou, em escala inédita, uma parte do diagnóstico situacionista. O espetáculo tornou-se infraestrutura de toda experiência social. A publicidade dissolveu-se nas plataformas digitais. A vigilância adquiriu a forma de prestação voluntária de informações. O trabalho colonizou os intervalos da vida. O consumo passou a oferecer identidades prontas para indivíduos dispensados da tarefa de produzi-las.
Nem por isso Vaneigem venceu. Esse talvez seja o aspecto mais melancólico de sua morte. Os derrotados às vezes sobrevivem porque suas derrotas continuam produzindo perguntas. Os vencedores envelhecem junto com suas instituições. A derrota, quando é histórica, possui uma estranha capacidade de permanecer contemporânea. O capitalismo venceu praticamente todas as batalhas decisivas das últimas décadas. Ainda assim, a sensação difusa de que existe alguma coisa profundamente errada na organização da vida cotidiana não desapareceu, apenas perdeu linguagem política. De lá para cá, sua reflexão nunca deixou de oferecer um itinerário vivo dos “aspectos não vencidos do movimento vencido” de 1968, como dizia a IS[1].
Ao eclodir da revolução portuguesa, em Abril de 1974, Vaneigem apanhou o primeiro trem para Lisboa. Não para lá exercer qualquer papel de líder ou mentor intelectual, nem performar o papel de vedete do Maio de 68 – acontecimento do qual ele se ausentou por estar de “férias”. Mas para mergulhar no clima de liberdade que se respirava por toda a parte à oeste da Península Ibérica. Não para influenciar o curso da história, mas para explorar uma realidade que assombrava sua imaginação subversiva desde uma infância que havia sido marcada pelos relatos da Revolução Espanhola.
É nesse ponto que Vaneigem retorna. Não como autor de palavras de ordem. Nem como monumento de Maio de 68. Muito menos como fornecedor de frases para circulação em redes sociais. Retorna porque insistia numa pergunta que o capitalismo responde mal: por que uma sociedade capaz de produzir tamanha riqueza oferece como horizonte existencial uma rotina miserável, administrada entre desempenho, ansiedade e adaptação?
Talvez por isso sua ausência tenha um significado discreto. Não desaparece apenas um escritor. Desaparece alguém que ainda falava a partir de uma época em que a emancipação não havia sido reduzida à linguagem dos direitos individuais, da gestão pública eficiente ou da diversidade incorporada ao mercado. Pertencia a um tempo em que a palavra revolução ainda pretendia nomear uma transformação da existência inteira.
O último Vaneigem viu, no rescaldo da paralisia global pós-pandemia, a agonia terminal de uma civilização predatória. Mas ele também viu com esperança o mundo que nascia desde baixo: a criatividade que, em aldeias e regiões periféricas, reinventava o ensino, descobria energias gratuitas e propagava a permacultura como forma de “renaturar” terras envenenadas pelas forças “antinaturais” do capital[2].
Sua maturidade intelectual consolidou o conceito de “pacifismo insurrecional”, uma resposta à esterilidade do confronto violento que apenas alimenta o espetáculo da repressão. Ele via na dignidade dos insurgentes contemporâneos, como os Gilets Jaunes, o despertar de uma consciência que recusa chefes e representantes autoproclamados.
O diálogo com o presente tornou-se ainda mais radical em sua defesa de uma “nova aliança com a natureza”. Vaneigem compreendeu que a opressão da mulher e a opressão da natureza nasceram juntas com as civilizações agro-mercantis. Por isso, propunha não um matriarcado, mas a “preeminência acrática da mulher”[3] — um poder sem autoridade, baseado na liberdade do desejo e na inteligência sensível que emana das pulsões vitais, contraposta à inteligência abstrata e confeccionada pela cabeça dos intelectuais.
Ele olhava para as ZAD’s (Zonas a Defender) na França, para o zapatismo no México e para as revolucionárias de Rojava não como modelos a serem exportados, mas como experiências de democracia direta onde a vida pode, enfim, recuperar sua soberania. Aprendeu que a consciência humana é um potente motor de mudança capaz de erradicar inclusive preconceitos ancestrais como a misoginia. Insistia que a gratuidade é a aspiração mais natural da vida e que a solidariedade festiva é uma arma que nenhuma força mortífera pode derrotar.
Os mortos costumam receber homenagens que os tornam inofensivos. Com Vaneigem provavelmente acontecerá o mesmo. Será lembrado como um crítico da sociedade de consumo, um libertário, um utopista. Cada rótulo acrescentará uma camada de esquecimento. A melhor homenagem talvez seja outra: conservar intacta a estranheza que sua obra ainda provoca. Ela continua perguntando por que aceitamos viver tão pouco numa sociedade que produz tanto, ao passo que nos incita a “ousar o impossível ou rastejar sob o calcanhar de ferro que nos esmaga”[4].

Portbou: 1.131 habitantes. Foi lá que Raoul Vaneigem passou seus últimos dias — a mesma cidadezinha catalã que serviu de porta de entrada e saída para os Republicanos durante a Guerra Civil Espanhola.
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Erick Corrêa é professor e pós-doutorando em filosofia política pela USP.
Gabriel Teles é professor e pesquisador na UnB, doutor em Sociologia pela USP e integrante do Centro de Estudos Sobre o Colapso Social (CECS).
[1] Depois da dissolução da Internacional Situacionista, Vaneigem jamais deixou de escrever. Em O Livro dos Prazeres (Le Livre des plaisirs, 1979), recusou a identificação do prazer com o consumo. Em Carta aos Vivos sobre a Morte que os Governa e a Oportunidade de se Libertarem Dela (Lettre aux vivants sur la mort qui les gouverne, 1990), radicalizou a crítica das formas de poder que administram a existência. Em Nada Está Acabado, Tudo Começa (Rien n'est fini, tout commence, 2014), insistiu que a derrota das experiências revolucionárias do século XX não encerrava a possibilidade histórica da emancipação. Paralelamente, dedicou décadas ao estudo das heresias medievais, especialmente dos movimentos igualitários e milenaristas, reunindo essa investigação em obras como A Resistência ao Cristianismo (La Résistance au christianisme, 1993), onde buscava uma genealogia subterrânea das revoltas contra a dominação religiosa e política.
[2] Ver o texto “O dogma da antinatureza” (2020). Tr. Br. Erick Corrêa. Disponível aqui.
[3] “Nous n’avons d’autre alternative que d’oser l’impossible” (Entrevista ao Le Monde, 30 ago. 2019). Disponível aqui.
[4] Ibidem.