99 Maneiras de Contar uma História: A Arte de Contar (Quase) a Mesma História

imagem de um relógio de pulso do 99 maneiras de contar uma história

Por Maria Clara Carneiro

Um dia, no ônibus S, em Paris, o escritor Raymond Queneau (1903-1976) viu um rapaz de pescoço longo e chapéu esquisito que reclamava de quem lhe empurrava na lotação. Reviu o mesmo rapaz, algumas horas mais tarde, com um amigo que lhe aconselhava a mudar a posição de um botão em seu casaco. A partir desses dois encontros banais, Queneau declinou outras 99 pequenas histórias em seu livro Exercices de Style (1947). Por exemplo, reescreveu a cena por metáforas, encheu de cores, de animais, interjeições, exclamações, hesitações, transformou em versos livres, haikai, em ode. A cada nova versão daquela observação, ele se impunha uma nova forma (ou uma nova restrição).

Naquela época, Queneau era um escritor em ascensão: havia passado pelo surrealismo e começava a fazer muita experimentação com a língua francesa, inspirado também pelo trabalho de escritores um tanto loucos — entre os mais importantes, Alfred Jarry (1873-1907) e sua patafísica ("a ciência das soluções imaginárias e das leis que regulam as exceções"). Queneau começou a reunir em torno de si outros loucos pela literatura. Com a ajuda de François Le Lionnais (1901-1984), poeta e matemático, por exemplo, concebeu um livro em que os versos intercambiáveis de um simples soneto podem gerar 10 mil bilhões de poemas. Assim, em uma mistura de paixão desmedida pelo texto e uma experimentação medida de inspiração matemática, surgia, em 1960, a Oficina de Literatura Potencial (Ouvroir de Littérature Potentielle), o Oulipo.

O potencial do nome é a parte matemática desse jogo: o grupo investiga de que forma as estratégias que eles descobrem, resgatam, ou criam potencializam a criação de textos. Ou seja, um número restrito de elementos pode gerar um infinito de possibilidades. Se cada texto se submete a um conjunto de restrições (de gênero, de registro, da língua), eles adicionam mais regras para tirar da caixola coisas que não viriam naturalmente.

Os Exercícios de Queneau fizeram bastante sucesso, e aquela mesma história do rapaz no ônibus foi declinada em imagens pela primeira vez nos anos 1960, com os exercícios de estilos tipográficos de Robert Massin (1925-2020), e exercícios de estilos imagéticos de Jacques Carelman (1929-2012). Assim, o rapaz do pescoço longo, o chapéu, o botão foram adaptados também para vaso grego, capa de romance policial e vitral.

Meio século mais tarde, Matt Madden retomou a mesma estratégia de modificar a história a partir de singelas restrições formais aplicadas às histórias em quadrinhos (só deixou de lado o vizinho do Queneau). As páginas que você lerá logo mais surgiram primeiro online no final do século passado, e em livro pela primeira vez em 2005. Logo Madden virou correspondente do Oubapo, grupo de quadrinistas que se espelha no Oulipo e cria restrições próprias para os quadrinhos. O nome completo, em português, é Oficina de Quadrinhos Potenciais, em que o Ba do acrônimo vem do francês bande dessinée. Um pouco antes, Madden havia fundado a versão estadunidense do grupo francês (com Jason Little e Tom Hart) e, até hoje, seus exercícios continuam se multiplicando, seja nas suas próprias versões, seja nas de outros autores.

Esse livro se tornou uma referência importante tanto para a criação quanto para a pesquisa dos quadrinhos, permitindo à pessoa que experimenta esses exercícios uma maior consciência de como funciona essa linguagem. Ao exercitar os limites de como se faz um quadrinho, ele nos faz indagar até sobre o que faz de um quadrinho um quadrinho.

Esses exercícios (do Oulipo e do Oubapo) apontam para os pequenos detalhes que formam dado gênero artístico ou tal estilo pessoal — uma investigação constante de como se faz arte, ou de como se faz um Autor. É rebuscado, pero sem perder o humor. O livro nos leva a perceber que a gente lê os textos por suas diferenças, e que no fundo, no fundo, não existe história original. (E aí, paradoxalmente, reside a originalidade de Madden e Queneau.)

Maria Clara Carneiro (Maria Clara da Silva Ramos Carneiro) é professora de Língua e Literatura Francesa e pesquisadora na UFSM (Universidade Federal de Santa Maria). Doutora em Literatura (Teoria Literária) pela UFRJ, ela é especialista em histórias em quadrinhos, literatura potencial, Roland Barthes, Oulipo e Oubapo.