Marie Duval: A Pioneira que desapareceu das histórias dos gibis

Marie Duval: A Pioneira que desapareceu das histórias dos gibis

Trecho do livro Imageria, de Rogério de Campos. 


Jack Sheppard tenta escapar da forca pulando do cadafalso, mas sua arma dispara acidentalmente, acertando o próprio rosto. O herói cai, ferido. E, pior, na queda machuca seriamente a própria perna em uma barra de ferro. A plateia está surpresa: todos em Londres, naquele ano de 1874, conhecem a história do legendário ladrão Jack Sheppard, dos diversos folhetins, romances e também da versão ilustrada por George Cruikshank, na qual se baseia a peça que está sendo encenada. Então todos sabem que aconteceu algo de errado na apresentação.


A peça é interrompida, e os membros da trupe correm para o centro do palco, onde está

caída a pessoa que faz o papel de Sheppard. Não é um ator, mas uma atriz: a francesa Isabelle Émilie de Tessier. Ela tem 24 anos. Chegou à Inglaterra aos dezessete, para trabalhar como governanta, mas há tempos atua em teatros de Londres e do interior do país. Émilie de Tessier é levada para o cirurgião. “Ela resistiu à operação com bravura, como Jack teria feito”, conta um colega de palco. Tessier é salva, mas sua carreira de atriz terminou. A partir de então, ela vai se dedicar apenas à sua outra carreira — a de desenhista, na qual já faz bastante sucesso.

Dois anos depois do acidente, quando Tessier é entrevistada por Ellen Clayton para um

artigo a respeito de artistas inglesas, “ela já tem trabalhos publicados em três ou quatro revistas inglesas, francesas e alemãs, e ilustrou vários livros infantis sob diferentes pseudônimos”.

O mais famoso desses pseudônimos é Marie Duval, com o qual se tornou a principal desenhista da revista Judy — concorrente da famosa Punch — e provavelmente o único caso de mulher quadrinista de sucesso no século XIX.


Outro nome com o qual Tessier/Duval assinou alguns de seus primeiros trabalhos é o

de seu marido, Charles Henry Ross. Afinal, não ficava bem uma mulher desenhar cartuns e

quadrinhos (isso só foi mudar totalmente em... hum...). Mesmo a feminista Ellen Clayton se incomoda, escreve que o “desenho” — assim mesmo, entre aspas — de Duval é “humorístico”, algo que Clayton coloca como característica masculina, contraposta a uma forma mais sutil de humor feminino, a ponto de ser “grotesco” e tão claramente “incorreto” que só pode ser perdoado se levarmos em conta que Duval aprendeu a desenhar sozinha. A desenhista era, na opinião de David Kunzle, muito moderna para a época e desenvolveu efeitos gráficos que só se tornariam comuns décadas depois.


Seja como for, as primeiras aventuras do personagem Ally Sloper são assinadas apenas

com o nome de Ross, talvez porque, de fato, ele tenha inventado ou ajudado a criar o personagem. Depois passa a levar o nome dele e também o de Duval e, por fim, a partir de determinado ponto, só ela assina.


Ally Sloper é um cachaceiro, que tenta manter a pose enquanto foge dos credores. O

sucesso da HQ foi estrondoso e deu origem ao primeiro caso de personagem dos quadrinhos em torno do qual se criou uma indústria de licenciamento, com brinquedos, relógios, bebidas, guarda-chuvas, produtos alimentares etc. Ally Sloper ganhou até um gibi semanal próprio.


Mas a empresa que publicava a revista Judy e o gibi de Ally Sloper acabou tomando posse do personagem. Marie Duval foi substituída por outros quadrinistas. E, durante mais de um século, os livros e enciclopédias de maneira geral ignoraram sua existência. Alguns chegaram mesmo a escrever que Marie Duval era pseudônimo de Charles H. Ross.

 

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