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Em Perfeito Estado: Juscelino Neco e a adoração ao oculto

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Por Ramon Vitral*


Em Perfeito Estado é uma grande ode ao oculto assinada pelo quadrinista Juscelino Neco. O álbum recém-publicado pela editora Veneta exalta o mistério e o sobrenatural, em uma trama de misticismo crescente sobre colecionadores obcecados com seus objetos de adoração. E mesmo com seu alto teor erótico, as 104 páginas do livro consistem em um grande exercício de constrição visual.

“É estranho isso, né?”, refletiu Neco quando passei para ele minhas impressões sobre o álbum. “Um livro que tem imagens de pornografia explicita contar uma história que, no fim das contas, não está presente nessas imagens. Acho que isso nos lembra que os quadrinhos são infinitos em suas possibilidades formais.”

Fui surpreendido pela leitura de Em Perfeito Estado. É diferente de tudo o que Neco fez até aqui.

O protagonista da obra é o dono de um antiquário. Em meio à sua rotina administrando o negócio herdado de seu pai, ele recebe a visita de um cliente interessado no acervo de material erótico do estabelecimento, em busca de um calendário antigo que impactou sua juventude. Ele também tem interesse em um pôster de 1985 da Pirelli e um catecismo do Carlos Zéfiro.

Os tons macabros da HQ vêm à tona quando o personagem principal encontra os produtos. Contar mais do que isso, suspeito, seria spoiler. Se o próprio autor criou uma obra que chama atenção pelo que não é mostrado, não sou eu que vou expor demais por aqui.

Em Perfeito Estado até tem um pouco do humor dos trabalhos prévios de Neco. Quer dizer, eu ri. Talvez tenha sido um riso daqueles mais nervosos, do impacto com o absurdo. Com certeza não se trata da mesma comicidade presente em Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço (2013), Matadouro de Unicórnios (2016) e Reanimator (2020).

A arte também é outra. Neco segue investindo no preto e branco, mas, em seu primeiro trabalho inteiramente digital, ele também migrou para uma estética realista.

Ele me falou sobre essas mudanças: “Ainda na pandemia eu comecei a migrar para o digital e sempre fazia exercícios de desenho utilizando fotografias antigas. Pouco a pouco meu interesse foi se concentrando em pornografia vintage, que eu sempre colecionei. O garimpo dessas revistas e publicações foi o estopim da ideia do livro. Isso e meu interesse por misticismo. Acho que eu sempre dou um jeito de transformar minhas obsessões em um gibi”.

A tensão e o erotismo de Em Perfeito Estado vão crescendo à medida que o protagonista vai se aproximando da realidade de seu cliente obcecado por pornografia. Os aspectos macabros da obra também. E apesar do teor explícito dos desenhos, é o texto de Neco que rouba a cena.

“Tento fazer o texto mais simples possível. Acho que as imagens devem ser o mais importante em um gibi”, me disse Neco. “Também é fácil cair naquela cilada do pleonasmo, de falar a mesma coisa com as imagens e o texto. Mas nesse caso específico a relação entre as imagens e o texto acontecem em outro nível, elas se relacionam em uma relação de complementaridade que é muito mais livre”.

“Então eu me senti mais livre para burilar melhor o texto e suscitar, com as palavras, imagens diversas das que estão representadas. Em Em Perfeito Estado, o texto e as imagens trabalham numa relação de complementaridade, mas também de contradição”.

Já sobre a arte, ele me falou: “Como eu trabalhei decupando fotografias, achei que uma síntese de um desenho mais limpo, com linhas finas e tons de cinza funcionaria melhor. Acho que combina também com as ilustrações eróticas, porque remete a um certo estilo de desenho mais antigo, dos anos 50, pin-ups e coisa do tipo”.

Elementos inanimados

Lembro da minha estranheza quando li Parafusos, Zumbis e Monstros do Espaço, lá em 2013. Parecia um game bizarro sobre um cara que acaba com um parafuso na testa, tem um caso com uma mulher-aranha, ganha super-poderes e parte em missões contra… Bem, zumbis e monstros do espaço.

Já Matadouro de Unicórnios tem mais pé no chão e espanta por sua violência realista. O livro de 2016 é protagonizado por um escritor contratado para atuar como ghost writer de um serial killer que acaba reproduzindo as mesmas práticas do criminoso.

Aí veio Reanimator, adaptação para os quadrinhos de Herbert West-Reanimator, conto de 1922 do escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937), mas com elementos da versão cinematográfica clássica Re-Animator: a Hora dos Mortos-Vivos (1985) do diretor Stuart Gordon. Neco criou uma trama própria a partir das duas obras, sobre um soro capaz de ressuscitar os mortos, e transformou os protagonistas em animais antropomorfizados.

Além dos três álbuns, ele publicou o livro Zumbis para Colorir (2015), roteirizou A Noite dos Homens-Peixe (com arte de Gabriel Dantas) e lançou Cadeado – décima edição da coleção Ugrito, da editora Ugra Press.

Com apenas 20 páginas, Cadeado talvez seja o trabalho de Neco que mais dialoga com Em Perfeito Estado. Agora soa quase como um teste para a proposta narrativa de seu novo livro. Ele me contou que temia estar se repetindo, confortável com uma “fórmula” de seus álbuns prévios, então resolveu tentar algo inédito em sua produção.

Neco falando: “Fazia um tempo em que eu queria fazer um quadrinho ‘experimental’, seja lá o que isso signifique. Ao mesmo tempo, eu me impus o desafio de criar um quadrinho que fosse experimental na forma, mas que contasse uma história tradicional e que fosse interessante para o público (ou pelo menos pra mim)”.

Depois ele concordou com o paralelo com Cadeado: “De alguma forma, [Em Perfeito Estado] é uma espécie de desenvolvimento do tipo de história que eu contei no meu Ugrito, mas com aspectos mais radicais, com a eliminação das personagens. Tem me interessado muito esse conceito de contar histórias com elementos inanimados. Tenho outros projetos nesse sentido”.

Tá cedo para entrar nesse papo de melhores quadrinhos de 2024, mas Em Perfeito Estado é uma das minhas leituras preferidas até aqui. Neco conseguiu algo raro: não só uma trama original, como uma narrativa singular na qual texto e arte se mesclam em prol de uma obra desconfortável e atraente – como sempre espero de um bom terror.

O livro também acabou de chegar nas livrarias, então também é cedo (e injusto) já começar a pensar no próximo trabalho de Juscelino Neco. Mas é inevitável. Em seus três álbuns prévios, ele mostrou-se sob pleno controle da linguagem dos quadrinhos. Em Em Perfeito Estado ele propõe algo novo, em um experimento linguístico eficaz. Estou desde já no aguardo de sua próxima HQ.

 

 

* Oi. Meu nome é Ramon Vitral, sou jornalista, edito o blog Vitralizado, sou autor do livro Vitralizado – HQs e o Mundo (MMarte), e colunista no blog da Veneta. Minha proposta por aqui é garimpar o catálogo da editora, títulos antigos e lançamentos, entrevistar autores, analisar algumas obras, refletir sobre arte e a nossa realidade. Volto em 15 dias. Até!

 

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