99 maneiras de contar uma história

Exercícios de Estilo na sala de aula

Texto de Matt Madden, publicado originalmente em seu blog em 2015. Tradução de Maria Clara Carneiro.
Por Matt Madden 11 min de leitura
Exercícios de Estilo na sala de aula

99 maneiras de contar uma história nunca foi um grande best-seller, mas aos poucos, construiu um público internacional e diverso de fãs de quadrinhos, designers, leitores de literatura experimental e educadores.

Professores foram os principais divulgadores do livro.

Visitei muitas salas de aula e conversei sobre ele e, vez ou outra, recebi links para projetos que alunos fizeram baseados nele. Em uma conversa recente no Twitter, um professor me perguntou como uso meu livro quando ensino. Depois compartilho algumas ideias.

Esse vai ser um longo texto, então aqui vai um sumário do que segue:

I. Mais variações do meu modelo
II. Faça seu próprio modelo
III. Construa um projeto ampliado
IV. Para não-artistas

A foto no alto da página é de um projeto realizado por alunos do Lycée Pierre Lescot, uma escola de ensino médio profissionalizante voltada para o comércio em Paris (o que aponto só para assinalar o fato de que essas atividades não são, de forma alguma, só interessantes para alunos de literatura ou arte). Visitei-os em 2009 e descobri que eles tinham feito toda uma série de atividades com os 99X (é assim que comecei a abreviar o livro recentemente), incluindo uma exposição com variações de minha página modelo. A foto é da série de fotoquadrinhos em Powerpoint (um novo gênero?), que conta histórias curtas baseadas na série de elementos do meu livro e coisas que os estudantes inventaram a partir dele.

(Nota: dou os créditos dos estudantes quando possível, mas não tenho o nome de todos. Ficarei feliz em atualizar se alguém me mandar as informações. Você também pode clicar nas imagens abaixo para ampliar.)

I. Para o infinito e além

Quero compartilhar mais algumas fotos do trabalho dos alunos franceses porque aqui a gente encontra um exemplo da forma mais descomplicada de usar os 99X como base para uma atividade de sala de aula: pedir, simplesmente, que seus alunos façam variações do meu quadrinho "modelo". Antes de pedir a eles que inventem suas próprias maneiras de recontar a história, é bom mostrar o livro para eles. Ajuda também fazê-los ler minha inspiração inicial, os Exercices de Style de Raymond Queneau, ou alguns dos textos curtos que listo abaixo. Fazer isso como um exercício de brainstorming com a turma pode ajudar, o que também serve como uma oportunidade para identificar, posteriormente, classificações de restrições (ponto de vista, paródias, abordagens gráficas etc) ou discutir quais restrições podem ser mais produtivas que outras (por exemplo: o que é mais interessante, copiar minha página modelo colocando o papel por cima ou tentar redesenhar de memória?). Não importa se são "artistas" ou não, parte da diversão é encontrar um jeito para fazer a resposta visual (pela cópia, colagem, ctrl + C/crtl +V, etc.).

Versão Roy Lichtenstein e versão robô-ótica de um mesmo quadrinho
Uma versão Roy Lichtenstein (com um pouco de Mondrian em boa medida) próximo a uma versão "robô-ótica"
Versão fragmentária de um quadrinho de estudante
Essa versão "fragmentária" mostra que você pode fazer muito com pouca habilidade de desenho e alguma cor.

Ainda vejo professores fazendo essas atividades com seus alunos. Por exemplo, Derek Beaulieu acabou de me mandar esse novo conjunto de varições de seus alunos do Alberta College of Art + Design. Alguns trechos:

Versão trilha sonora do quadrinho
uma versão trilha sonora
Versão LOLcats do quadrinho
LOLcats FTW
Versão estilo Keith Haring do quadrinho
Versão impecável Keith Haring
Versão do quadrinho com crianças no balaio
Uma alteração bem simples, incluindo crianças no balaio, funciona muito bem para explicar a confusão do protagonista (e descreve bem precisamente minha vida diária atual)

II. Faça seu próprio modelo

Outra abordagem é inventar um novo modelo de quadrinho ou texto para seus alunos variarem. Essa atividade tem a vantagem de ser mais fácil de adaptar para diferentes idades ou níveis de habilidade. Por exemplo, realizei uma oficina com jovens crianças francesas, de idade entre 8 e 12 anos, para o Centro Internacional da Bande Dessinée e da Imagem (CBDI) em Angoulême. Quis fazer uma história bem simples para eles trabalharem, então pedi uma sequência de quatro quadros que não exigia muito do desenho ou escrita sofisticada:

  1. Mãe coloca comida na mesa, e chama criança para jantar.
  2. Um gato sobe na mesa.
  3. O gato come toda a comida.
  4. A criança entra e descobre que o jantar acabou, e parece desapontada.

Conversamos sobre possíveis abordagens que cada um conseguia fazer e as crianças fizeram do jeito delas. Nem todas entenderam totalmente o conceito, mas mesmo se só desenharam um pequeno quadrinho seguindo mais ou menos meu roteiro, elas estavam se divertindo e, provavelmente, aprendendo algo. No final, reunimos um pequeno quadrinho de todas as páginas terminadas (e quase terminadas). Aqui algumas delas:

Versão antropomórfica do quadrinho, com o gato e o jantar falando
Essa versão da história está cheia de antropomorfismo. O gato fala (ou "pensa" alto) e o jantar também
Versão pré-histórica do quadrinho, estilo caverna
Uma versão das cavernas, por que não?
Versão do quadrinho com os quadros embaralhados
Essa é esperta: os papéis foram todos misturados

III. Construa um projeto ampliado

Se você trabalha com alunos de quadrinho ou arte, pode usar 99X como base de um projeto ampliado. Pode começar com qualquer uma das abordagens que apresentei acima (trabalhar com meu modelo ou inventar um novo) e pedir tantas variações que quiser. (Você também pode escolher um quadrinho de uma página que eles tenham desenhado em atividade anterior como seu quadrinho "modelo"). Seus alunos podem escolher suas próprias restrições para trabalhar ou eles podem fazer as mesmas, o que tem a vantagem de permitir a vocês de comparar e discutir os resultados.

Em 2013, passei uma semana em Viborg, Dinamarca, com o primeiro grupo de alunos de quadrinhos no Animation Workshop. Criei uma sequência de 6 quadros com a qual fizemos variações nos cinco dias seguintes. Esse é o roteiro:

  1. Estudante 1 trabalha na aula de quadrinho.
  2. Entra Estudante 2.
  3. E2 senta próximo a E1
  4. E1 mostra seu quadrinho para E2.
  5. E1 "É toda sua".
  6. E1 sai, E2 começa a desenhar.

i. Modelo

Primeiro fiz eles desenharem uma versão "direta" da história. É claro, ali você começa a ver que não há uma única forma de contar a história "correta" – cada um traz suas próprias ferramentas para desenhar estilo, ritmo, enquadramento, e por aí em diante:

Versão direta e clássica do roteiro, por Cathrin Peterslund
Aqui tem uma forma relativamente direta, take clássico no roteiro de Cathrin Peterslund.
Versão do modelo com formas geométricas e tons de cinza, por Jacob Thomas Canepa
Esse modelo de Jacob Thomas Canepa já impõe sua própria série de escolhas formais: repetição, formas geométricas, tons de cinza…

ii. Gênero

A primeira variação que pedi a eles foi a de recontar a história em um gênero. Não em qualquer gênero, porém: conversei com cada aluno e selecionamos gêneros com os quais eles nunca tinham trabalhado antes – até alguns de que eles não gostavam. Pensei que poderia ser interessante ver como eles superavam seu desgosto e suas ignorâncias assumidas (sabia que eles se provariam errados, e os resultados demonstram):

Versão de quadrinho de guerra, por Jam Aden
Esse quadrinho de guerra por Jam Aden acrescenta um toque de tragédia ao roteiro.
Versão de quadrinho de super-herói romântico, por Julie Hauge
Encorajo os alunos a misturar mais de um gênero. Aqui tem um quadrinho de super-herói romântico por Julie Hauge com uma dose saudável de autorreferencialidade.

iii. POV/Enquadramento

A tarefa seguinte que eu dei foi de brincar com o enquadramento ou ponto de vista (POV). Acho que essa poderia ter funcionado melhor como primeira variação, para fazer os alunos focarem no funcionamento da narrativa…

Quadrinho em ponto de vista do assento, por Bob Lundgreen Kristiansen
Ponto de vista do assento por Bob Lundgreen Kristiansen. Não é muito glamoroso!
Quadrinho com enquadramento na ponta do lápis, por Aske Schmidt Rose
O enquadramento nessa página por Aske Schmidt Rose foca estritamente na ponta do lápis, realizando um quadrinho elegante e quase abstrato.

iv. Falsificação da arte

Homenagem, paródia, falsificação… Disse aos alunos que o objetivo aqui era de desenhar uma cópia tão convincente do estilo de um artista (não só o estilo do desenho, mas a maneira de enquadrar e dar ritmo às histórias) que poderiam depois vender no Ebay por uma boa grana.Versão no estilo do quadrinista Jason, por Cathrin Peterslund

Cathrin Peterslund criou uma evocação excelente do estilo de desenho do Jason[1], mas note que você ainda pode reconhecer seu enquadramento característico, ritmo lento e humor sutil.
Versão do quadrinho no estilo de Paul Klee, por Clara Lucie Jetsmark Bjerre
Se Paul Klee fizesse quadrinhos… por Clara Lucie Jetsmark Bjerre.

v. Extensão colaborativa: 5 obstruções

A última colaboração adicionou a dimensão de colaboração à mistura e aponta para várias outras direções que você pode ir com essa tarefa. Vale a pena separar um post de blog só para explicar a logística disso, o que vou tentar fazer algum dia (e sendo um blogueiro sábio, nunca vou prometer nada, nem vou me desculpar se levar três anos pra isso). Por ora, só vou dizer que cada aluno recebe a tarefa de trazer cinco restrições (ou "obstruções", para usar a terminologia proposta por Lars Von Trier, cujo documentário divertido é a base dessa tarefa [As cinco obstruções, direção de Von Trier e Jørgen Leth, 2003]) que um de seus colegas vai ter que usar para fazer a variação final de suas páginas iniciais de "modelo". O truque dessa tarefa (como todo trabalho baseado em restrições, eu diria), é de realmente encorajar os alunos a trazer restrições fortes, até mesmo perversas, sem moleza. Não quer dizer ser malvado, é claro (e dependendo de seu grupo, você pode monitorar mais ou menos seus alunos), quer dizer observar, juntos, aquele momento "ah-ha", quando, invariavelmente, cada aluno inventa uma solução engenhosa para uma restrição ardilosa.

Cada aluno inventa uma solução engenhosa para uma restrição ardilosa

Quadrinho com restrições: olhos, quadros widescreen e tons de azul
Três restrições: mostrar só os olhos dos personagens, usar quadros "widescreen" horizontais, usar só tons de azul – sem preto.
Solução de Emil Friis Ernst para a restrição dos olhos e óculos
Olhe só para a bela solução de Emil Friis Ernst. Esses olhos azuis frios sugerem o brilho do tablet (vários desses alunos trabalham digitalmente) e os quadros horizontais se adaptam facilmente ao enquadramento de um e de dois olhos. A parte mais inteligente, pra mim, foi a forma como ele usou o reflexo no globo ocular e depois nos óculos para trazer informação narrativa. (Notem também como, ao dar óculos a um personagem, você pode facilmente entender se tratar de dois personagens na história, apesar do close-up apertado).
Restrições difíceis: personagens que não tocam o chão, sem calças, silhuetas
Agora, um conjunto de restrições que, à primeira vista, parecem desajeitadas, se não impossíveis: personagens que não tocam o chão? Sem calças? Silhuetas? Deve aparecer o Homem-Aranha??
Solução de Mathilde Garreau usando silhuetas e Homem-Aranha
Então olhe para a resposta magistral de Mathilde Garreau. As silhuetas mantêm a regra "sem calças" na classificação livre enquanto, é claro, o Homem-Aranha nunca toca o chão de toda forma!

Atualização Primavera 2016:

Repeti, recentemente, essa oficina em Lucerna, na Suíça, e apresentei uma palestra onde mostrei e discuti alguns dos resultados. Aqui a gravação da palestra:

"Não há uma única forma de contar a história 'correta' — cada um traz suas próprias ferramentas para desenhar estilo, ritmo, enquadramento, e por aí em diante."

IV. Para não-artistas

Se você não tem tempo para desenhar quadrinhos ou se você está trabalhando em conteúdo só de texto, ainda tem um monte de coisa legal que você pode fazer com 99X. Recentemente, uma turma de alunos de nono ano do entorno da cidade de Poitiers recebeu meu livro e escreveu respostas na forma de "exercícios de crítica." Teve uma versão em acrônimos, uma versão em emoticons, e até uma versão paisagem sonora.

E, é claro, você pode sempre voltar à fonte e ler os Exercices de Style de Raymond Queneau[2]. Achei útil ver uma série de interpretações menores nesse tema vem sendo feitas ao longo dos anos por vários membros do Oulipo. Isso é ótimo porque você pode encontrar em inglês, francês, e espanhol pelo menos. Em inglês, a versão é de Harry Mathew, chamada "35 Variations on a Theme by Shakespeare" (encontre muitas outras pepitas aqui), tem a versão em francês de Georges Perec usando uma frase de Proust e, mais recentemente, o [então] mais novo membro do Oulipo, Eduardo Berti, fez a versão em espanhol[3].

Normalmente, uso esses textos como aquecimento para a tarefa em quadrinhos. Peço aos meus alunos para inventar dez variações de um ditado ou citação famosa de sua escolha. Já bloguei sobre isso e dei exemplos aqui.

Se tiver qualquer pergunta ou atividades adicionais, espero que você comente no meu post original.[4]

Notas

[1] Jason é o nome artístico do quadrinista norueguês John Arne Sæterøy. Diversos livros dele foram publicados no Brasil pela editora Mino.

[2] N.T. A tradução brasileira, de Luiz Rezende para a editora Imago, de 1995, está atualmente fora de catálogo.

[3] N.T: A tradutora desse post também fez a sua versão, presente em anexo a esse artigo, que inclui outros exemplos de exercícios oulipianos para a escrita.

[4] N.T.: No Brasil, é possível encontrar livros de alguns integrantes do grupo Oulipo, como Italo Calvino, Georges Perec, Raymond Queneau, Jacques Roubaud e Marcel Benabou, além de artigos sobre esses autores.

Quem escreveu

Matt Madden

Matt Madden começou a publicar miniquadrinhos de forma independente no começo dos anos 1990. Em 1998 lançou a primeira graphic novel, Black Candy, e em 2001 publicou Odds Off. Madden mora no Brooklyn com a esposa Jessica Abel, escritora e quadrinista. Trabalha com histórias em quadrinhos e ilustração, e é professor na School of Visual Arts e na Universidade de Yale. Seus trabalhos mais recentes foram publicados em A Fine Mess, série semestral publicada pela Alternative Comics.

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