Do que sabem as crianças? Do que sabemos que elas sabem?
Em tempos de hipocrisia e fundamentalismo, de uma programação televisiva com sexo e violência ocupando grande parte do tempo e do espaço nas casas brasileiras, além da ação nefasta das fake news e do submundo da internet oferecido por smartphones e tablets, procura-se controlar o acesso da criança e do jovem aos fatos e saberes da vida na suposição de que não sabem e que não devem saber.
As crianças sabem.Ponto. Sabem como podem saber: escutando fragmentos de falas, sussurros ou meias-verdades, com acesso a imagens autênticas ou não, inteiras ou em partes, e construindo com isso um mosaico pessoal da realidade, em que cabem lacunas, buracos negros, imprecisões. Não podem, assim, se defender das vozes sorrateiras que expõem como verdade aquilo que decidiram ou que é do próprio interesse, para "manter as coisas em seu lugar".
Sem autorização para saber de determinados assuntos e sem espaços de conversa sobre o que sabe e também sobre aquilo que desconhece, em geral contando apenas com poucos e escusos momentos de clareza e querendo entender muitas vezes o que se passa com ela, a criança deixa entrar em cena a fantasia. Sem controle sobre esse mecanismo, enfrentando a confusão entre real e imaginário e impedida de saber, pode abrir assim a porta para angústias presentes e futuras, em desastroso ciclo de perpetuação da ignorância, do silêncio e da violência.
O senso comum, no entanto, tem escolhido muitas vezes o caminho da interdição, com propostas e atos de censura a obras e práticas de leitura que possibilitariam interromper vias de submissão e infelicidade. A pretexto de — e é pretexto mesmo — preservar a inocência das crianças, de não dar ideias aos jovens sobre o que é parte da vida, livros têm sua circulação proibida e professoras não podem ler ou conversar em sala sobre determinados temas. Mas os adultos podem continuar a cometer seus atos exibidos no noticiário, muitos dos quais são representados nas obras que não devem ser lidas.
Ilustrações: Amma
A proposta desta obra, portanto, é refletir sobre a razão dos incômodos que os bons livros de literatura — em que não há escândalo e nos quais a criação artística e a delicadeza com o público leitor mostra-se uma tônica — oferecidos a crianças e adolescentes vêm causando em adultos (professores, bibliotecários, editores, políticos, gestores públicos...), sob a justificativa de cuidado, proteção e promoção de bons valores.
Muitos desses temas — chamados de sensíveis, polêmicos e fraturantes — são parte de uma literatura substantiva, isto é, problematizante, questionadora, capaz de acompanhar o leitor, a leitora, em suas buscas solitárias.
Se até bem pouco tempo eram a morte, a sexualidade, as separações conjugais e a violência as principais preocupações dos censores de plantão, atualmente referências e reflexões sobre a história e suas injustiças, a desigualdade social crônica no mundo, os efeitos das ditaduras e a verdadeira causa das guerras — tópico cada vez mais em evidência — também estão na berlinda, num círculo que se estreita e quer atingir o centro do pensamento crítico. Proibir de saber é proibir de pensar, proibir de agir e de mudar.
Consideradas ousadas, perigosas, as obras que se ocupam de tais temas passam a compor um índex contemporâneo, cuja presença em sala tem sido inibida pela ação de pais e mães conservadoras, com apoio de outros figurantes da sociedade alinhados no controle do pensamento coletivo. Não é uma questão nova: a ação de controle sobre a leitura por meio das instituições é de curso bem conhecido ao longo da história. Tais atos explicitam o perigo da literatura, por ser formadora de consciência e indicadora de vias alternativas às condições vigentes.
Posto o dilema — dar a conhecer ou não estes livros —, vimos ocupar um espaço no centro desta tensão, defendendo e fundamentando a posição de afirmação da literatura como um dos lugares privilegiados para refletir e discutir sobre o que nos faz humanos.
