rest in pieces

Através das frestas: Rest in Pieces e o cinema de horror asiático

Uma face plácida sob flores opacas. Uma inscrição mórbida lhe preenche a testa. E o horror se esconde em frestas.
Por Joaquim Dantas 10 min de leitura
Através das frestas: Rest in Pieces e o cinema de horror asiático

Rest in Pieces (2026), a premiada obra inaugural do quadrinista taiuanês, Karmarket – “a grande revelação do novo quadrinho de terror asiático” –, um apanhado de 12 histórias curtas e profundamente impactantes, carrega consigo uma experiência de imagem e imaginário que pode soar, aos olhos dos neófitos nesse ramo específico das narrativas de horror, particularmente estranha. No entanto, basta um passeio rápido pela explosiva, contundente e multifacetada produção do gênero em paragens orientais para entender de onde brotam e com o que dialogam as referências de Karmarket. Longe de ser exemplo isolado, esse quadrinho na verdade se insere em uma sólida e expansiva “outra tradição”. E, como meu papo por aqui é sempre o pesadelo em luz e sombra, vou focar especificamente nos diálogos possíveis entre as histórias de Rest in Pieces e algumas das peças do variado cânone da narrativa cinematográfica oriental.

Coréia do Sul, Japão, Taiwan, China, Tailândia; quem conhece o cinema de horror de meados dos anos 1990 e começo dos anos 2000 certamente esbarrou em várias narrativas visuais oriundas – fosse em suas versões originais ou nos incontáveis remakes norte-americanizados que a máquina hollywoodiana, em sua preguiça de ler legendas e amortecimento da criatividade, fotocopiou à exaustão – de alguns ou de todos esses países. Mesmo sendo tão antiga quanto a produção geral de cinema nessas nações – e veremos aqui alguns exemplos que datam das décadas de 1960 e 1970 –, a explosão do interesse ocidental acerca dessas narrativas de horror se deu mesmo, de maneira mais efetiva, a partir do lançamento de dois remakes que se tornaram extremamente populares: O Chamado (2002), de Gore Verbinski, e O Grito (2004), de Takashi Shimizu [1]  – e provavelmente com uma pontada rasgante de O Teste Decisivo (1999), no caso dos cinéfilos mais atentos e por influência do então muito bem quisto Quentin Tarantino, que cantou os louros dessa peça revolucionária e fisicamente angustiante de prolífico Takashi Miike desde muito cedo.

Ring: O Chamado (1998), de Hideo Nakata
Ring: O Chamado · 1998 · Hideo NakataO original japonês que Hollywood fotocopiou à exaustão.
O Teste Decisivo (1999), de Takashi Miike
O Teste Decisivo · 1999 · Takashi MiikePeça revolucionária e fisicamente angustiante, celebrada por Tarantino desde muito cedo.

E, como diz o ditado: daí para frente é só para trás – mas no bom sentido! Foi a partir da descoberta dessa nova fonte de pesadelos, que nós, os dodóis do cinema selvagem, começamos a nos aventurar no que descobrimos ser um oceano infindável de obras, mitos e maldições cinematográficas radicais. Para quem está sempre procurando o próximo vício para se afundar até a tampa do crânio, esse foi certamente um momento glorioso – momento esse, inclusive, que se estende até o presente.

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que toda tentativa de pensar o cinema de horror asiático como sendo dotado de alguma unidade está fadada ao fracasso. Não estamos falando de uma nação, o que já seria um recorte problemático, mas sim de um vasto e continente. No entanto, é fato que culturas vizinhas, dialogam; e é esse potencial, ainda que problemático, diálogo que pretendo sondar, como pequena introdução a vários “novos” cinemas a partir dessa contundente obra quadrinesca.

Toda tentativa de pensar o cinema de horror asiático como uma unidade está fadada ao fracasso.

Um dos elementos recorrentes em Rest In Pieces é a imagem fantasmagórica dos espíritos que assombram a existência dos vivos; assombrações essas, inclusive, que muitas vezes estão simbolicamente enraizadas em um duplo quase irredutível: experiências traumáticas coletivas e tragédias pessoais. Essas ideias estão presentes em histórias como “Os espíritos do espaço” e “Aluga-se apartamento” – e mais sorrateiramente em “O mergulho” e “O senhor do Lago Salgado”.

Imediatamente na esteira de Ring: O Chamado e O Grito – e com clara influência dessas narrativas urbanas, melancólicas e intimistas –, já podemos citar, da Tailândia, Espíritos: a Morte Está Ao Seu Lado (2004), de Parkpoom Wongpoom e Banjong Pisanthanakun – que tem uma das imagens finais mais aterradoras que o cinema do início dos 2000 conseguiu conjurar.

Espíritos: a Morte Está Ao Seu Lado (2004), de Parkpoom Wongpoom e Banjong Pisanthanakun
Espíritos: a Morte Está Ao Seu Lado · 2004 · Parkpoom Wongpoom e Banjong PisanthanakunUma das imagens finais mais aterradoras do cinema dos anos 2000.

Mas é no cinema de horror japonês que você vai encontrar, na figura do brilhante e ainda muito ativo Kiyoshi Kurosawa, um dos modernos mestres absolutos do gênero.

Uma sombra lenta que se move e some no canto do olho; uma bela e estranha figura feminina que nos observa, fixamente e de esgueira, do fim da sala; uma impressão inexplicável, sombria e onírica, que consome ambientes, ações e personagens. De Kairo (2001) [2] a Crimes Obscuros (2006), passando por essa que eu considero a obra-prima do autor, A Cura (1997) – uma narrativa etérea sobre uma série de assassinatos idênticos, que são cometidos por pessoas diferentes e não relacionadas –, o “outro Kurosawa” quase sempre traz, em seus trabalhos, imagens que parecem brotadas de um pesadelo mal lembrado, como um calafrio que cresce na base do nosso crânio.

Kairo (2001), de Kiyoshi Kurosawa
Kairo · 2001 · Kiyoshi KurosawaUma sombra lenta que se move e some no canto do olho.

E, claro, não dá para abandonar esse assunto no cinema japonês sem antes passar pelo “clássico dos clássicos” dos filmes de assombração bizarros: o insano e incongruente, Hausu (1977), de Nobuhiko Obayashi.[3]

Hausu (1977), de Nobuhiko Obayashi
Hausu · 1977 · Nobuhiko ObayashiO “clássico dos clássicos” dos filmes de assombração bizarros.

Ainda sobre esse tema, mas agora nos deslocando em direção à Coréia do Sul, cito dois exemplos que estão entre os meus filmes de horror – de modo geral, independentemente do qualificante geográfico – favoritos do século até agora: O Lamento (2016), de Na Hong-jin, e Exhuma (2024), de Jang Jae-hyun. Ambientada em uma cidade montanhesca chuvosa, o primeiro é uma narrativa épica de mais de duas horas envolvendo epidemia zumbificante, investigação de possessão, exorcismo xamânico e uma boa dose de imaginário satânico pervertido. Já Exhuma traz exumação ritualística de cadáveres, maldição familiar e um samurai demônio gigantesco e ancestral (!)...

O Lamento (2016), de Na Hong-jin
O Lamento · 2016 · Na Hong-jinEpidemia zumbificante, possessão, exorcismo xamânico e imaginário satânico pervertido.
Exhuma (2024), de Jang Jae-hyun
Exhuma · 2024 · Jang Jae-hyunExumação ritualística, maldição familiar e um samurai demônio gigantesco.

Essa imagem do colossal espírito Xogum dos Infernos, inclusive, me lembra dois outros elementos importantes e distintivos presentes tanto na obra de Karmarket – particularmente em “O Senhor do Lago Salgado”, “O mergulho”, “Ficar ao seu lado” [4] e “Yuanbao vermelho” – quanto em vários desses filmes comentados: uma predileção por monstros/criaturas gigantes; e a representação de figuras mitológicas típicas e locais. Quer dizer, é tão estranho assim que um vizinho imediato dos criadores do Godzilla (1954) – o sul-coreano Bong Joon Ho – tenha nos presenteado com um dos mais inventivos filmes de monstro dos últimos 25 anos, com O Hospedeiro (2006)?

O Hospedeiro (2006), de Bong Joon Ho
O Hospedeiro · 2006 · Bong Joon HoUm dos filmes de monstro mais inventivos dos últimos 25 anos.

Agora, especialmente para um sujeito ocidental como eu, tão acostumado a ver no horror os mesmos mitos cristãos, esbarrar em tragédias míticas assombrosas como as que compõe os segmentos do clássico japonês As Quatro Faces do Medo (1964), de Masaki Kobayashi – a núpcia do cadáver traído, a fantasmagórica mulher na neve, o monge com o corpo coberto de sutras, a face maldita no copo de chá –, funcionou como um necessário e refrescante sopro de novidade.

As Quatro Faces do Medo (1964), de Masaki Kobayashi
As Quatro Faces do Medo · 1964 · Masaki KobayashiA fantasmagórica mulher na neve.

Isso sem falar, claro, em coisas como Encounter of the Spooky Kind (1980), de Sammo Hung – aquele mesmo, dos filmes do Jackie Chan –, que nos apresentou os insanos “vampiros saltitantes” (Jiangshi) da mitologia chinesa.

Encounter of the Spooky Kind (1980), de Sammo Hung
Encounter of the Spooky Kind · 1980 · Sammo HungOs “vampiros saltitantes” (Jiangshi) da mitologia chinesa.

Arrematando o terceiro e último tema recorrente que elencarei aqui – muitos outros existem na obra, claro, como horror cósmico, solidão poética, melancolia suicida, mas este texto precisa acabar eventualmente –, a gente não pode deixar de lado a marca particular de horror corporal que os asiáticos (com o perdão da generalização) andam desenvolvendo já tem uma cota. É difícil não enxergar em Karmarket ecos do experimentalismo visual e do obscuro clássico cult japonês, Tetsuo: o Homem de Ferro (1989), de Shinya Tsukamoto, ou do recentíssimo, Zona Zero (2026), do sul-coreano Yeon Sang-ho [5] , quando transitamos por narrativas imagéticas tão estranhas e intensas quanto as de “Membro-fantasma”, “O homem-mosquito” e “Rest in pieces”.

Tetsuo: o Homem de Ferro (1989), de Shinya Tsukamoto
Tetsuo: o Homem de Ferro · 1989 · Shinya TsukamotoHorror corporal e experimentalismo visual, um cult.

E, para mencionar pelo menos um exemplo de cinema taiuanês de horror – falha minha também, que preciso me debruçar mais por essas áreas do Inferno estético –, não precisa ir mais longe do que o extravagante, pervertido e visceral, A Tristeza (2021), de Rob Jabbaz [6], uma das visões mais extremas para a narrativa de surto epidêmico já plasmadas em luz e sombra. Perto desse pesadelo de sangue, caos e sexo, Extermínio (2002) é um passeio no parque!

A Tristeza (2021), de Rob Jabbaz
A Tristeza · 2021 · Rob JabbazExtravagante, pervertido e visceral. Perto dele, Extermínio é um passeio no parque.

Só para fechar a conta redonda com 20, manda uma sessão dupla sul-coreana de perseguições frenéticas envolvendo assassinos seriais com bastante poesia e violência visual: O Caçador (2008), de Na Hong-jin, e Eu Vi o Diabo (2010), de Kim Jee-woon (o melhor filme de vingança de todos os tempos?!). Coisa de causar taquicardia.

O Caçador (2008), de Na Hong-jin
O Caçador · 2008 · Na Hong-jinPerseguição frenética a um assassino serial, com poesia e violência visual.
Eu Vi o Diabo (2010), de Kim Jee-woon
Eu Vi o Diabo · 2010 · Kim Jee-woonO melhor filme de vingança de todos os tempos?!

Afinal de contas... Eu preciso mesmo indicar o vencedor do Oscar do Bong Joon Ho para você?

Parasita (2019), de Bong Joon Ho
Parasita · 2019 · Bong Joon HoAquele mesmo, do Oscar.
Notas

[1] Respectivamente, remakes de Ring: O Chamado (1998), de Hideo Nakata, e O Grito (2002), também de Takashi Shimizu.

[2] Que ganhou um remake meio repulsivo intitulado Pulse (2006), que eu fortemente não indico.

[3] Dica bônus: para um aperitivo, sacar no Youtube o curta My house walk-through (2016), de PiroPito. Matéria-prima para pesadelos. 

[4] Como o autor afirma no posfácio, a inspiração para essa história foi a “lenda urbana japonesa do cachorro com cara de gente, o jinmenken”.

[5]  Diretor também do épico morto-vivo merecidamente aclamado, Invasão Zumbi (2016) – que eu também recomendo fortemente.

[6]  Não estranhe o nome. O diretor é canadense, mas o filme é 100% taiuanês mesmo.

Quem escreveu

joaquim dantas

Joaquim Dantas é crítico de cinema de horror, baterista da banda Jubarte Ataca e host do Selvagem Podcast, ao lado de Juscelino Neco. Circula entre cinema, literatura e rock'n'roll, três formas de barulho que, no fim das contas, dão no mesmo.

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